terça-feira, 8 de agosto de 2017

Reflexões sobre o Assassinato de JFK

O Presidente dos EUA John F. Kennedy (JFK) foi assassinado em Dallas em Novembro de 1963, alegadamente por Lee Harvey Oswald. Certos aspectos do assassinato são ainda hoje obscuros e provavelmente assim continuarão porque a CIA e o FBI travaram a busca da verdade e destruíram documentos. A narrativa oficial é de que JFK foi assassinado por Oswald por este ser comunista. O que nunca foi. Já na época essa narrativa foi contestada, por fazer pouco sentido. Existem evidências de ligações de Oswald à CIA, assim como evidências de descontentamento de parte influente da classe dominante dos EUA com JFK por este não assumir uma posição mais dura contra o comunismo, a URSS e Cuba. O assassinato de JFK por um agente do FBI/CIA (Oswald ou outro) ao serviço de pelo menos parte da classe dominante é a versão inescapável. Atribuir as culpas aos comunistas foi também o que fez a PIDE quando assassinou Humberto Delgado.
  
Traduzimos abaixo um artigo de Zoltan Zigedy que analisa este evento no contexto mais amplo – e por isso muito importante – do modus operandi da classe dominante no capitalismo actual. Modus operandi sempre próximo do gangsterismo mesmo nas mais avançadas democracias burguesas.

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Reflexões sobre o Assassinato de JFK
Zoltan Zigedy, 5 de Agosto de 2017

Deparei-me com quatro razões para rever o assassinato de John F. Kennedy.

Primeiro, acabei de ler o livro de memórias de Antonio Veciana, Treinado para Matar, de 2017. Gaeton Fonzi, um dos mais rigorosos e honestos investigadores de assassinatos, sempre manteve que Veciana, um cubano anti-Fidel operativo da CIA, e Sylvia Odio, um outro membro de uma organização anti-comunista, eram as peças chave para revelar a ligação no assassinato da CIA a Oswald.

Segundo, existem fortes semelhanças entre o empenho das forças de segurança para «corrigir» a política externa dos EUA em 1963 e o activismo directo das forças de segurança para reorientar a política externa dos EUA em 2017.

Terceiro, os Arquivos Nacionais abriram ao público a primeira tranche dos ficheiros governamentais sobre o assassinato de JFK mantidos nos arquivos e ainda por divulgar. Existe uma determinação para libertar os que sobram até 26 de Outubro.

Por fim, um leitor deste blog disse que a maioria dos marxistas falhou em contestar a ortodoxia da Comissão Warren e mostrou pouca simpatia por investigações alternativas. Talvez ele tenha razão quanto à maioria dos «marxistas»; a minha resposta foi: «Não acredito que se possa apoiar essa apologia do golpe político [da Comissão Warren] e ser marxista.»

Veciana e o Aparelho de Segurança

Gaezon Fonzi, que foi durante anos investigador do Comité Especial da Câmara de Representantes sobre Assassinatos (HSCA), procurou obter de Antonio Veciana a confirmação que o contacto dele na CIA, conhecido pelo pseudónimo «Maurice Bishop», era, de facto, o agente da CIA David Attlee Phillips. Veciana confirmou essa ligação em anos recentes, mas muito depois da morte de Phillips. Se Veciana tivesse feito isso na altura da investigação os interrogadores disporiam de uma alavanca útil para abrir as portas bem trancadas das ligações da CIA a Lee Harvey Oswald.

Descrevendo-se a si próprio como um terrorista (Veciana reivindica a sua participação pessoal em numerosos atentados com bombas, incêndios, e tentativas de assassinato antes de sair de Cuba), Veciana fala de uma reunião em Dallas, em 1963, com Phillips, em que também participou Oswald. Uma testemunha não envolvida e neutral diz que a data desse encontro foi 7 de Setembro. O estatuto de Veciana como um amigo da CIA e líder proeminente de uma comunidade acidamente desapontada com Kennedy não permite acreditar que ele teria um motivo para mentir acerca da reunião com Oswald. Pelo contrário. Veciana teria sim todas as razões para relacionar Oswald com os odiados Fidelistas, e não com os seus promotores da CIA. Da mesma forma, a alegação de Sylvia Odio que Oswald a visitou com dois militantes anti-comunistas só pode lançar uma sombra sobre os companheiros políticos de Oswald nesse movimento anti-Fidel, um movimento que só beneficiaria de uma imagem de Oswald como esquerdista. Sylvia Odio manteve, todavia, o seu relato de uma reunião com Oswald.

Veciana inclui no livro algumas observações interessantes, e que continuam a ser relevantes, sobre a natureza do poder nos EUA e noutros países imperialistas («impérios»):
Vim a acreditar que existe um poder paralelo a operar nos impérios, o qual define as suas próprias regras, para os seus próprios fins… Mas Bishop [Phillips] fez-me ver que, para além dessa autoridade visível e tradicional, existe um poder invisível que age nas trevas, e que dirige os acontecimentos. Contudo, o verdadeiro poder está nas mãos de um consórcio escondido, que age como um chefe invisível, vigiando e decidindo o destino da civilização. Este «directório invisível», este «governo sombra», é politicamente, economicamente, e militarmente poderoso… Passa de geração para geração, sempre escondido, mas sempre em controlo.

Este comentário é verdadeiramente notável, dado provir de um indivíduo cuja política era essencialmente baseada no ódio visceral a Fidel Castro. Sem dúvida as suas palavras reflectem a noção de «Estado profundo» hoje em dia tão citado.

Uma caracterização mais adequada das forças que actuam abaixo da superfície, na sombra, é o clássico conceito marxista de «classe dominante». Para os marxistas todas as sociedades desde a antiguidade se basearam em classes sociais, com uma dominando as outras. Isso permanecerá assim até que as classes sejam eliminadas. Por essa razão, na teoria marxista, por trás de qualquer forma de governo, existe uma classe dominante, que aparece às claras ou na sombra. No capitalismo actual a classe dominante governa por trás da cortina da democracia burguesa; apresenta uma fachada de governo popular ao mesmo tempo que assegura que os respectivos resultados são coerentes com os interesses da classe dominante.

Embora a expressão «Estado profundo» transmita a ideia de governança furtiva, ela falha quanto a afirmar sem ambiguidades que a governança dissimulada é a norma no capitalismo; tal expressão pode, assim, sugerir que o «consórcio escondido» de Veciana é uma aberração, um desvio do curso normal do governo capitalista, uma «conspiração», e não uma característica estrutural da sociedade capitalista.

Para o liberal que acredita ser o capitalismo reformável o conceito de «Estado profundo» é bem-vindo, porque transmite a imagem de um mundo em que o aparelho «conspiratório» -- a CIA e outras agências de segurança – pode ser refreado ou coagido pela super-estrutura «democrática»  do capitalismo actual. Mas a verdade é que os serviços de segurança são as ferramentas de que depende a classe dominante dos EUA, pese embora o operarem frequentemente na clandestinidade. Na perspectiva marxista os serviços de segurança actuaram contra Kennedy precisamente porque a classe dominante estava decidida a mudar o curso da governação presidencial ou, pelo menos, um sector importante da classe dominante decidiu alterar esse curso. Os agentes da mudança não eram, em nenhum sentido significativo, uns fora-da-lei.

De forma semelhante, o actual dilúvio de fugas de informação anti-Rússia, atribuídas a fontes anónimas do aparelho de segurança, tem como objectivo pressionar a administração Trump no sentido de um consenso da classe dominante quanto à política externa. Dado que não é apresentada qualquer evidência sólida, as insinuações, as alegações de culpado por associação, baseiam-se na confiança pública em espiões e assassinos. Os serviços de segurança estão a moldar com sucesso uma agenda de política externa de Trump sem recorrer à solução violenta escolhida pelos seus predecessores.

Os Arquivos Nacionais
É ingenuidade acreditar que os Arquivos Nacionais irão tornar público nos próximos três meses um documento de arromba. Isto não quer dizer, claro, que investigadores diligentes não possam desenterrar pistas de interesse que lancem dúvidas sobre a narrativa oficial. Podemos, contudo, estar certos que a CIA, o FBI, e outras agências do governo, já suprimiram ou destruíram quaisquer documentos que possam ligá-los a Oswald, ao assassínio, ou a qualquer outro elemento dos acontecimentos de Dallas.

Seja como for, os investigadores do assassínio fizeram um trabalho notável ao utilizarem evidência documental seleccionada para expor debilidades e mesmo contradições na narrativa dominante. Isto é verdadeiramente notável, porque os investigadores, exceptuando os da Comissão Church, da investigação Garrison, e da HSCA, tinham poucas fontes, limitada capacidade pericial e escasso apoio. É sabido que o governo não fez nada para ajudar e fez tudo para travar qualquer esforço de aprofundar o caso.

Vale a pena atentar na temporização, no conteúdo e na reacção dos media à divulgação da primeira tranche de documentos. A divulgação dos Arquivos Nacionais envolvia os ficheiros Yuri Nosenko, um exótico fait divers do assassínio, uma obsessão do Strangelovian [*] caçador de espiões da CIA James Jesus Angleton. Este indivíduo fixou-se na ideia de lançar a culpa do assassínio para a União Soviética. Os media actuais tomaram o isco dos Arquivos Nacionais, adicionando o caso Nosenko ao seu arremessar de lama à Rússia que já dura um ano, com base em rumores e insinuações. Os seguintes cabeçalhos são típicos dos media:
[* O autor alude ao filme sátira de 1964 em que um ex-Nazi, Dr. Strangelove, é um general dos EUA obsecado em lançar uma bomba nuclear na URSS.]

Documentos altamente secretos agora revelados poderão mostrar que a Rússia esteve por trás do assassínio de JFK (aol.com)
A RÚSSIA MATOU UM PRESIDENTE DOS EUA? NOVOS DOCUMENTOS DA CIA REVELAM TEORIA DE ESPIONAGEM SOBRE A MORTE DE JFK (Newsweek)

Outro esforço claro para desviar a atenção da cumplicidade da CIA com base em documentos recentemente divulgados encontra-se  aqui.

Ninguém duvidará que não é pura coincidência o facto de tais acusações há muito descartadas voltarem de novo a emergir, precisamente quando decorre uma exaustiva campanha dos media para demonizar a Rússia e alimentar uma nova Guerra Fria. A referida e premeditada divulgação presta um mau serviço sobre a verdade do assassínio de JFK e contribui para demonstrar a cumplicidade do governo com a demonização da Rússia.

O Assassinato de Kennedy e os marxistas

Existem «marxistas» e marxistas. Micheal Parenti [*] é um marxista autêntico que tem constantemente arguido que Kennedy foi assassinado pelo apêndice de segurança da classe dominante. Diz ele assim:
[* Já citámos Parenti aqui e aqui.]

Em todas estas sociedades o Estado é o instrumento usado por um punhado de ricos para empobrecer e manter sob controlo a multidão. Para além de efectuar as funções colectivas necessárias em todas as sociedades, o Estado tem a tarefa especial de proteger o processo de acumulação de riqueza de uns poucos… Ocorrem, por vezes, incidentes que revelam de forma nítida e inabitual a natureza gangster do Estado. O assassinato do Presidente John Kennedy em Novembro de 1963 foi uma dessas ocorrências… Apurar a verdade sobre o assassinato de John Kennedy equivale a pôr em causa o sistema de segurança estatal e todo o regime politico-económico que esse sistema protege. É por esta razão que em trinta anos a imprensa que pertence a corporações e numerosos líderes políticos suprimiram e atacaram as muitas revelações acerca do crime desenterradas por investigadores independentes…

Parenti usa a designação colorida «Estado gangster», mas é evidente que ele identifica os agentes responsáveis pelo assassinato de Kennedy como «instrumentos» de um «punhado de ricos» (a classe dominante). «Gangster» é uma palavra que Parenti usa bem dado que, olhando ao que jaz por trás do assassínio, ele vê a usual brutalidade, logro, manipulação e violência usadas contra a liderança de vários países soberanos nos tempos jovens da CIA: Irão (Mossadegh), Guatemala (Arbenz) e, claro, Cuba (Fidel). Certamente que, com tal historial de gangsterismo nas acções de remoção de líderes, a CIA deveria ser a primeira, e não a última, entidade a examinar quando se procuram os responsáveis do assassínio de Kennedy.

A actual adulação do FBI e CIA, levada a cabo pelos media e funcionários civis eleitos relacionada com a alegação do FBI e CIA de interferência da Rússia nas eleições dos EUA, torna-se ainda mais absurda mesmo com um conhecimento superficial desta história. Porque razão os agressivos media recusam olhar para o passado de mentiras e impostura da CIA/FBI?

Vale a pena prestar atenção às recomendações metodológicas de Parenti:

Ao invés dos mistérios ficcionados, não existem, geralmente, provas decisivas na vida real. Os historiadores trabalham por um processo de acreção, juntando peça a peça até emergir um quadro. No assassinato de Kennedy as peças formam, de facto, um quadro que se impõe, imprimindo em qualquer um a sensação de que, embora possa não existir uma prova decisiva, existe contudo uma panóplia de impossibilidades no que respeita às trajectórias das balas, à natureza das feridas, aos depoimentos ignorados de testemunhas presenciais, ao desaparecimento e destruição deliberada de evidências, aos actos repetidos de abafamento oficial, que continuam até hoje no que respeita à divulgação de documentos.

Para qualquer um que se identifique ou esteja familiarizado com o comunismo nos EUA e sua história, o relato oficial, seja da Comissão Warren seja de Gerald Posner, desafia a credibilidade. Na altura em que Lee Harvey Oswald estava a construir uma reputação de marxista (no Corpo de Fuzileiros Navais!) -- tendo desertado para a União Soviética, depois regressado e afirmando-se como um «amigo» de Cuba – os comunistas sofriam ainda a repressão macartista. Em 1958 [administração Eisenhower], Junius Scales [líder do PC dos EUA] tinha sido sentenciado como comunista ao abrigo do Smith Act. Foi libertado da prisão no final de 1962 [administração Kennedy]. Pedem-nos então que acreditemos que o abertamente marxista «Oswaldkovitch» estava nessa altura activo nos Fuzileiros Navais com despacho de aprovado pelos serviços de segurança, tendo sido destacado para a base secreta U2 em Atsugi no Japão. Isto quando duas figuras de topo do partido comunista estavam a terminar as suas sentenças pelo facto de serem comunistas! Nenhum comunista ou fuzileiro naval consideraria tal relato como sendo possível, mesmo remotamente.

De acordo com a cronologia aceite, Oswald professava o marxismo numa altura em que o anti-marxismo tinha atingido níveis histéricos nos EUA e Edgar Hoover do FBI tinha coligido um Índice Comunista de mais de 200.000 nomes. Ao contrário do que sucedeu a dezenas de milhares de familiares, amigos e associados de comunistas que receberam visitas do FBI nesse período, parece haver poucos registos de visitas aos círculos de Oswald. O FBI parece ter mostrado pouco interesse nele.

O regresso de Oswald como desertor dos EUA também parece ter despertado pouca atenção dos serviços de segurança; ora, esses serviços liam todas as cartas da União Soviética para os EUA. Pelos vistos a CIA tinha mais interesse em cartas do que em desertores que regressavam aos EUA (pelo menos, quanto a este desertor!). Dado que o FBI era nessa época inquisitivo e suspeitoso mesmo de meros visitantes da União Soviética, quem tivesse sentido o feroz anti-comunismo desse tempo acharia tal falta de interesse um facto deveras espantoso!

Ainda para mais, a pronta aceitação de um desertor regressado da União Soviética em círculos da direita e no coração da reacção é totalmente desmerecedora de crédito.

Como é que foi possível a incarnação de Oswald como soldado solitário da esquerda pró-cubana em Nova Orleães ter despertado tão pouca acção dos serviços de segurança, tão pouca perseguição, tão pouca violência dos inimigos da esquerda, incluindo um incidente forjado [*]? Será que os apologistas da Comissão Warren esqueceram a violência assassina contra a dissensão, contra o não conformismo, contra o activismo pelos direitos civis (muitas vezes equacionado a «comunismo»)? Será que as audaciosas e não refreadas acções do «comunista»» Lee Harvey Oswald ao longo do Sul, racista e anti-comunista, fazem algum sentido neste contexto, quando nessa altura e na década seguinte os activistas de esquerda de qualquer partido arriscavam as suas vidas?
[* Ângela Davis conta como, p. ex., agentes provocadores do FBI colocavam dissimuladamente objectos em sacos de compras de comunistas em lojas para terem um pretexto de os prenderem sob acusação de roubo de objectos em lojas.]

Provavelmente nada ridicularizou tanto a plausibilidade de Oswald como marxista revolucionário como a fotografia caseira de Oswald segurando o Militant trotskista e o Worker comunista com uma mão e uma espingarda com a outra. Veteranos da esquerda ficaram espantados de que alguém politicamente ligado à esquerda, mesmo que a ligação fosse fraca, tivesse tais objectos na mesma sala, já para não falar nas mãos. A única finalidade era manchar a esquerda.

Os marxistas não providenciam conhecimentos técnicos especiais ou periciais sobre trajectórias, análise de ferimentos, ou pontarias, embora reconheçam que os investigadores de assassínios lançaram mais do que simples dúvidas sobre a narrativa oficial. Seja como for, mesmo o mais caloiro e inexperiente membro da esquerda desse tempo teria classificado Oswald como um provocador. Por essa razão os controladores de Oswald nunca conseguiram colocá-lo na presença de alguém identificado com o movimento marxista dos EUA, mesmo que remotamente. Oswald nunca visitou sedes, escritórios, reuniões, etc., tendo só lidado com a esquerda à distância. Quando ele abordou marxistas estrangeiros (soviéticos, cubanos) estes foram cautelosos e hesitantes com ele.

Oswald foi um poseur de esquerda ao serviço de outro mestre.

Para saber mais

Para uma narrativa credível e plausível oposta à da Comissão Warren, recomendo JFK: The Cuba Files de Fabian Escalante. Escalante é o chefe aposentado dos Serviços Secretos de Cuba, o principal cérebro que travou durante décadas atentados contra Fidel Castro. Escalante pode muito bem ser a maior autoridade mundial sobre as intrigas da CIA, colocando os recursos dos Serviços Secretos de Cuba na questão JFK.

The Last Investigation, da autoria do falecido Gaeton Fonzi que foi um investigador da HSCA, é indispensável como crónica de uma tenaz busca da verdade, em confronto com a intransigência, impostura e cumplicidade do governo.

Vincent Salandria foi um dos primeiros e mais desafiadores críticos da Comissão Warren. O seu False Mistery apresenta a sua detalhada dissecção do Relatório [da Comissão Warren] e como ele localizou as anomalias que ocuparam a geração seguinte de investigadores.

Dois investigadores mais recentes, David Talbot e Jefferson Morley, abordam o assassinato de perspectivas muito diferentes, tirando novas e úteis conclusões que ajudam a construir uma imagem do assassinato.

O livro History Will Not Absolve Me [alusão ao A História Me Absolverá de Fidel Castro] de E. Martin Schotz, é uma antologia útil que salienta várias questões associadas, nomeadamente sobre várias consequências do assassinato e do Relatório da Comissão Warren.

Para uma fascinante alegoria do assassínio dever-se-ia ler o livro de Michael Parenti: The Assassination of Julius Caesar: A People’s History of Ancient Rome. [Recomendamos também vivamente]

Existem, é claro, inúmeros comentários sobre o assassínio de JFK. A maioria deles são bem intencionados e contêm alguns factos e interpretações úteis. Há que ter em conta que a vasta maioria de tais comentadores, embora honestos, são detectives amadores. Por isso, existem erros, falsas interpretações e becos sem saída em muitos estudos. Todavia, muito trabalho útil foi feito.

Entre os comentadores também há charlatães, agentes disfarçados, e impostores, alguns lançando de propósito dúvidas sobre estudos do assassínio. Os perpetradores, bem como os seus amigos e aliados, têm grandes recursos e usam-nos com grande impacto.


Houve sem dúvida um golpe. Viveremos com os medos, as incertezas, e com a elite dominante e sem freio até a desmascararmos. Essa elite continua a dar forma ao mundo em que vivemos.

domingo, 30 de julho de 2017

É necessária na Venezuela uma vitória da Constituinte

En Venezuela se hace necesaria una victoria Constituyente

Os meios de comunicação social portugueses repetem como papagaios as montanhas de mentiras, distorções e omissões da verdade sobre as eleições para a Assembleia Constituinte da Venezuela; mentiras, distorções e omissões provenientes das grandes cadeias do império: CNN, ABC, BBC, etc.
 
No artigo anterior já nos referimos ao porquê e objectivos das eleições para a Assembleia Constituinte da Venezuela. Em complemento esclarecedor inserimos aqui a tradução publicada pelo PCB de um artigo da Resumen Latino Americano (http://www.resumenlatinoamericano.org/2017/07/26/en-venezuela-se-hace-necesaria-una-victoria-constituyente-por-carlos-aznarez/)
 
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Na Venezuela se faz necessária uma vitória Constituinte
  
(Tradução do PCB: https://pcb.org.br/portal2/15164#more-15164) 

Por Carlos Aznárez, Diretor do Resumen Latinoamericano,26 de julho de 2017

  
 
É evidente que o governo venezuelano não se equivocou quando decidiu lançar a convocatória para votar pela realização de uma Assembleia Constituinte. Não só porque em seu conteúdo está implícita uma maior participação dos setores populares que seguem empurrando o trem bolivariano, mas porque o inimigo local e internacional se deu conta que essa instância significa a passagem necessária para aprofundar a Revolução. Daí que tentem impedi-la: desde Donald Trump até seus aliados incondicionais da União Europeia não duvidam em exigir que o presidente Nicolás Maduro desconvoque esse apelo estratégico. Sem dizer dos amanuenses dos governos de direita latino-americanos, representados entre outros pelo quarteto Macri-Temer-Cartes-Santos, que não pouparam munição pesada para difamar tudo o que a Venezuela veio construindo nestes últimos 18 anos.
Porém, o que mais incomoda a todos eles nesta Constituinte que indefectivelmente ocorrerá? Antes de mais nada, o fato de que aposta na paz e esgrime a bandeira para reconfigurar uma perspectiva de diálogo nacional, o que a diferencia de outros processos contaminados pela democracia burguesa, não falando apenas com a “oposição”. É claro que não existe uma palavra com aqueles que demonstraram um comportamento fascista, assassinando indiscriminadamente homens e mulheres do povo, e cujo destino deve ser o cárcere comum, porém, sem deixar de conversar com aqueles que se propuseram a respeitar as regras do jogo da democracia participativa.
  

A iniciativa que será votada massivamente em 30 de julho aspira a converter em sujeitos principais da nova etapa revolucionárias as pessoas do povo, os moradores das comunas, os habitantes dos bairros, os e as estudantes, campesinos e campesinas, afrodescendentes.
  
Com todos eles e elas, que são quem vem de corpo e alma diariamente defender as enormes conquistas obtidas desde 1999, se faz necessário encarar medidas radicais que apontem para qualificar ainda mais os avanços obtidos ate agora e diagramar o necessário caminho para o socialismo. Esta Constituinte de nenhuma maneira suplantará a atual e que foi impulsionada por Hugo Chávez, mas reafirmará sua vigência, incorporando aspectos substanciais para atacar o terrorismo, o fascismo e o racismo que nos últimos meses se introduziram como um vírus, tentando minar os laços de fraternidade e solidariedade social entre pobladores e vizinhos. O fará através de um projeto de lei que outorgue amplos poderes à Comissão pela Verdade, a Justiça e a Paz, para que não haja impunidade frente aos crimes cometidos através das guarimbas desestabilizadoras.
  
A Constituinte vai, também, atacar as raízes da guerra econômica, buscando de maneira taxativa terminar com a especulação, o desabastecimento, a regulação de preços e os ataques contra a moeda nacional fomentada desde a Colômbia, contando com a cumplicidade dos colaboracionistas locais da contrarrevolução. Além disso, se reforçará a ideia de que seja o poder popular das Comunas e os Conselhos Comunais socialistas que tome a frente para que a burocracia não continue impedindo o crescimento revolucionário. É nessas instâncias populares onde militam aqueles que geram com seu trabalho e seu sacrifício a possibilidade de que a Venezuela siga avançando.
   
A Constituinte também favorecerá uma faixa importante da classe média que adquiriu consciência de povo e de pátria durante o transcorrer do processo bolivariano. Será nesse marco de unidade popular no qual tocará defender e ativar ainda mais as Missões sociais, o acesso gratuito à saúde e à educação, a vitória de uma nação livre de analfabetismo ou a construção de um milhão e meio de habitações. Tudo isso, conquistado enquanto se enfrentava a mais descomunal das investidas do imperialismo norte-americano e seus aliados, do terrorismo midiático e da burguesia empresarial local, que insiste em destruir à força da violência todo o obtido até o presente.


Não há dúvidas de que esta semana se trava uma nova batalha na história da luta de classes. De um lado, aqueles que quiseram ver a Venezuela convertida em uma colônia dependente dos Estados Unidos, país que através do Comando Sul e da tristemente célebre Central de Inteligência Americana, planejou novas fórmulas de intervenção terceirizada (como fizeram, sem sucesso, na Síria) para derrubar o governo legítimo de Nicolás Maduro. Para isso, conta, com seus cachorros da OEA e, sobretudo, com esse expoente da traição à Pátria Grande que é o Secretário Luis Almagro. Este grupo, denominado eufemisticamente “oposição”, não se conformaria, no caso de triunfar, com ocupar o governo e as instituições, mas que implantariam um rancor e revanchismo tal que produziria um verdadeiro etnocídio. Detestam de morte os pobres, aos “negros”, “zambos” ou “mulatos”, como chamam depreciativamente a essa massa da população que com a Revolução se dignificou. É tal o desprezo aos diferentes que não duvidariam em continuar a tarefa de ressuscitar – como fizeram nos últimos dias – métodos medievais para assassinar mediante o fogo os que a eles se oponham. Muitos dos seguidores de Leopoldo López e Capriles são herdeiros dessa seita denominada “Tradição, Família e Propriedade”, e se creem “cruzados” contra o “mal” que atribuem aos “hereges” bolivarianos. Em seus rituais de horror, portam cruzes e até são benzidos por sacerdotes ou por ex-presidentes, como Aznar, Felipe González, Pastrana ou o boliviano Tuto Quiroga. São a Inquisição revivida no século XXI, tão cruel e feroz como aquela que assolou a Europa vários séculos atrás. No entanto, os “democratas” europeus protegidos pelo El País, pelo ABC ou pelo resto da imprensa canalha, não parecem comovê-los.
  
É em função desta realidade que se torna necessário evitar que esta turba mercenária (de lúmpens mercenários e paramilitares, muitos deles vindos da Colômbia) alcance seu objetivo. Para isso, o povo conta com uma ferramenta fundamental que até o presente não foi penetrada: a unidade cívico-militar, sobre a qual tanto insistira o Comandante Chávez. Porém, além disso, se necessária, também estão as milícias populares, as brigadas de Autodefesa, o Chavismo Bravo e a coragem de homens e mulheres dispostas a não ceder nem um passo à reação.
   
“Não existe retorno para nós”, proclamou dois domingos atrás em Caracas, uma mulher idosa, enquanto fazia uma longa fila para cumprir com o ensaio de votação. “Aqueles que levam Chávez no coração vão defender Maduro porque é um dos nossos”. Com essas palavras, definiu um sentimento feito carne na maioria dos e das bolivarianas. Custou muito esforço levantar este edifício revolucionário. Tanto com a dor e o ódio que agora a direita tenta injetar na população. É certo que existe muito para corrigir em todo o caminhado, porém para aqueles que apenas duas décadas atrás viviam submersos na miséria e na repressão da Quarta República, a Revolução Bolivariana lhes devolveu a autoestima e todos os direitos que tinham sido retirados. Avançou-se ali e foi possível entusiasmar, no mesmo sentido, outros países do continente latino-americano e o rebote chegou até a Europa. Precisamente essa parte da população, que continua sendo majoritária, é a que no próximo domingo gritará ao mundo que “A Constituinte vai que vai. De todas as maneiras vai!”.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Venezuela: uma situação que se arrasta

 Venezuela: a situation dragging on


Já falámos sobre a guerra económica  e sobre os media controlados pela oposição e não pelo governo -- ao contrário do que se afirma no «Ociente» -- da Venezuela num artigo de Novembro de 2015.
 
Uma reportagem recente da jornalista americana Abby Martin -- https://www.youtube.com/watch?v=YUYWrPiUeWY  -- documenta, de forma actualizada, aspectos que já relatámos. Vale a pena ver. Martin mostra exactamente aquilo que os media ocidentais não mostram, e que desmonta completamente a retórica da oposição venezuelana de direita e fascista.
 
Mostra, também, que a liderança pequeno burguesa da Venezuela mantem o processo em alta instabilidade, sob constante ameaça de reversão. Reversão que seria conduzida de forma cruenta pelas forças da direita fascista.
 
Acrescentamos os seguintes comentários que faltam na reportagem de Abby Martin:
 
-- O manter-se jornais e televisão dominados pela oposição não é ter «imprensa livre». É ter imprensa a despejar torrentes de mentiras que contribuem para o caos e confusão que interessa à oligarquia, manipuladora das consciências, inclusive de cidadãos que nada ganham em alinhar com a oligarquia, que podem ser ganhos para o processo de mudanças e só ainda não o foram porque estão confusos.
A entrevista de Abby Martin mostra que a situação dos media é essencialmente a mesma que já retratámos no nosso artigo. A situação de há dois anos atrás, o que atesta o carácter pequeno burguês da liderança venezuelana.
Imprensa livre é imprensa ao serviço do povo, controlada em bases populares (comités de jornalistas, de representantes populares de organizações de base, etc.). Tal exige um estado dos trabalhadores.
 
-- Na reportagem de Abby Martin vemos que sectores importantes da economia continuam nas mãos dos oligarcas monopolistas. Voltamos a ouvir a sabotagem do oligarca Cisneros dono das Empresas Polar, etc. A situação de há dois anos atrás, o que também atesta o carácter pequeno burguês da liderança venezuelana.
A guerra económica só se vence eliminando o poder dos monopólios e socializando a produção. Isto também exige um estado dos trabalhadores.
We have already written about the economic war and the media controlled by the opposition and not by the government – contrary to what they say in the “West” -- of Venezuela, in an article of November 2015.
 
A recent report of the American journalist Abby Martin -- https://www.youtube.com/watch?v=YUYWrPiUeWY  -- documents, in an updated form, aspects we had described. We recommend seeing it. Martin shows precisely what the Western media do not show, completely debunking the rhetoric of the fascist right wing forces of the Venezuelan opposition.
 
It also shows that the petty bourgeois leadership of Venezuela maintains the process at a high unstable level, under constant threat of reversion. A reversion which would be conducted in a bloody way by the fascist right wing forces.
 
Let us add the following comments missing in Abby Martin’ report:
 
-- Maintaining newspapers and television dominated by the oligarchy is not tantamount of having a “free press”. Is having media pouring out floods of lies contributing to the chaos and confusion the oligarchy is interested on, manipulating the consciences, including of citizens that have nothing to gain from siding with the oligarchy, who can be gained to the process of changes and weren’t yet gained because they are confused.
Abby Martin’s report shows that the situation in the media is essentially the same we had portrayed in our article. The situation of two years ago, testifying to the petty bourgeois character of the Venezuelan leadership.
Free press is one serving the people, controlled by grassroots organizations (committees of journalists, of popular representatives, etc.). This demands a workers’ state.
 
-- We see in Abby Martin’s report that important sectors of the economy are still in the hands of the oligarchic monopolists. We again hear about sabotage by the oligarchic owner of Empresas Polar, etc. The same situation of two years ago, also testifying to the petty bourgeois character of the Venezuelan leadership.
The economic war can only be won by eliminating the power of the monopolies and socializing the production. This also demands a workers’ state.