quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

«Abrindo o Canal do Panamá»

Uma das características marcantes do actual Capitalismo Monopolista de Estado (CME) é a evasão legal de impostos (chamada elisão fiscal) por parte das grandes corporações. Conseguem, assim, compensar o declínio do lucro à custa dos trabalhadores com a cumplicidade dos governos capitalistas. A recente revelação dos «Documentos do Panamá» (Panama Papers) veio dar maior visibilidade ao fenómeno, mas, ainda assim, só o pico do iceberg foi aflorado nos meios de comunicação. Apresentamos abaixo a tradução de um artigo [1] do economista Michael Roberts cuja leitura consideramos de interesse para, de forma sintética mas correcta e abrangente, entender o fenómeno. O original encontra-se em https://thenextrecession.wordpress.com/2016/04/12/opening-the-panama-canal/
   
Note-se como o autor chama a atenção para o aspecto da legalidade da evasão. Algo que já tínhamos aflorado a propósito dos «Luxemburgo Leaks». Trata-se, portanto, não de um fenómeno ilícito e marginal ao CME, mas sim, pelo contrário, uma característica intrínseca do actual CME. Podemos dizer que uma das respostas do CME à baixa rendibilidade do capital produtivo foi legalizar um ilícito -- a evasão fiscal – das corporações e dos ricos. Foi legalizar um roubo aos trabalhadores.
   
*   *   *
Abrindo o Canal do Panamá
Michael Roberts, 12 de Abril de 2016
   
A revelação dos chamados «Documentos do Panamá» lançou o gato do desagrado popular aos pombos da elite mundial super-rica. Mas, claro, os pombos podem voar para longe.
   
Os Panama Papers contêm 11,5 milhões de documentos confidenciais com informação detalhada sobre mais de 214.000 companhias offshore listadas pelo prestador panamiano de serviços a corporações Mossack Fonseca, incluindo identidades de accionistas e de directores de companhias.
Uma fonte anónima sob o pseudónimo «Fulano» disponibilizou os documentos por lotes sucessivos ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung desde o início de 2015. A informação fornecida veio a totalizar 2,6 terabytes de dados, documentando transacções que remontam à década de 1970. Dada a escala da fuga de informação o jornal socorreu-se do International Consortium of Investigative Journalists, que distribuiu os documentos por 400 jornalistas de 107 organizações dos media de 76 países, para investigação e análise.
   
As firmas de advogados têm usualmente um papel central nas operações financeiras offshore. A firma panamiana de advogados Mossack Fonseca, cuja actividade ficou às claras no caso dos documentos do Panamá, é uma das maiores na sua área de negócio. Os serviços aos clientes incluem constituir e operar, em seu benefício, companhias-fantasma em jurisdições amigas. Podem incluir também a criação de estruturas complexas de companhias-fantasma, as quais, ainda que legais, permitem aos clientes actuar por detrás daquilo que é muitas vezes uma parede impenetrável de secretismo. Os documentos expostos detalham algumas das intrincadas estruturas corporativas, multi-nível e multi-nacional.  A Mossack Fonseca actuou em nome de mais de 300.000 companhias, a maioria registadas em centros financeiros nos Territórios Britânicos Ultramarinos.  A firma trabalha com as maiores instituições financeiras mundiais, nomeadamente: Deutsche BankHSBCSociété GénéraleCredit SuisseUBSCommerzbank e Nordea.
   
Os documentos mostram como indivíduos ricos ocultam o seu dinheiro ao escrutínio público, incluindo autoridades civis, como líderes estatais e chefes de governo da Argentina, Islândia, Arábia Saudita, Ucrânia e Emiratos Árabes Unidos. Também membros de governos, seus familiares mais chegados, e figuras próximas de chefes de governo de mais de quarenta países, para além dos já nomeados. As Ilhas Virgem Britânicas albergam metade das companhias.
   
Os jornalistas descobriram que algumas das companhias-fantasma podem ter sido usadas para fins ilegais, tais como fraude, tráfico de drogas, evasão fiscal.  Igor Angelini, chefe do Grupo de Investigação Financeira da Europol, disse recentemente que as companhias-fantasma usadas para tal fim «têm papel importante em actividades de lavagem de dinheiro em grande escala» e também em corrupção: elas servem muitas vezes de veículo para «transferir dinheiro de subornos». A Tax Justice Network referenciou o Panamá como um dos mais antigos e melhor conhecidos paraísos ficais nas Américas e «o recipiente do dinheiro de drogas da América Latina, bem como de muitas mais fontes de dinheiro sujo dos EUA e de outros horizontes»
   
O aspecto mais chocante dos documentos do Panamá não é a possível criminalidade e lavagem de dinheiro, mas o facto de que é feita legalmente.  Na maioria dos países é legal abrir uma conta offshore para uma companhia ou um conglomerado desde que os directores sejam não «residentes» no país em que os impostos deveriam ser pagos. A companhia poderá ser sujeita a impostos locais mas estes são mínimos ou não existem.  Assim, se alguém tiver um fundo que é registado [numa companhia] no Panamá ou Luxemburgo, e se todos os seus rendimentos vão para essa companhia mesmo que tenham sido ganhos no país de origem, nenhum imposto é pago na origem.  Claro que se esse alguém retirar o dinheiro e o puser na conta bancária do seu país, então é suposto estar sujeito a imposto.  Mas [o fundo] pode manter-se offshore até que esse alguém se retire para o estrangeiro, etc., ou pode ser usado para comprar propriedades ou diamantes no estrangeiro.
   
Segundo o The Guardian «Mais de 170 mil milhões de libras de propriedades da Grã-Bretanha estão no ultramar… Cerca de uma em cada 10 de 31.000 companhias em paraísos fiscais, que possuem activos britânicos, está ligada à Mossack Fonseca». Em 2015 foram investigadas aquisições de propriedades britânicas, num valor superior a £180 milhões, quanto a serem pagamentos de corrupção. Segundo dados obtidos pela Private Eye do Land Registry [Registo de Propriedades], quase todas as propriedades tinham sido adquiridas através de companhias offshore.
   
Os Territórios Britânicos Ultramarinos, tais como as ilhas Virgem e Jersey, operam nesse negócio que é a principal fonte de rendimento dessas ilhas.  Nos EUA os americanos podem criar uma «companhia  offshore» no Delaware ou em outros estados como o Nevada; não precisam de ir para o Panamá. Dois terços das aquisições [americanas] foram feitas por companhias registadas nos Territórios Britânicos Ultramarinos e dependências do Reino que operam como paraísos fiscais: Jersey, Guernsey, a ilha de Man e as ilhas Virgem britânicas.
   
Os Territórios Britânicos Ultramarinos são parte importante do papel que o imperialismo britânico desempenha como centro financeiro global e veículo de fluxos de capital (ver meu artigo).  Estas velhas colónias nas Caraíbas são «encorajadas» a desenvolver a indústria dos serviços financeiros, sendo-lhes concedido o benefício de tratados sobre impostos com o Reino Unido (e através do Reino Unido acedem ao sistema financeiro global), conjuntamente com disposições próprias quanto à tributação local das companhias-fantasmas offshore.
   
Conforme já assinalámos neste blog, as grandes corporações globais com múltiplas operações têm a possibilidade de mudar de local de sujeição a tributação ao longo do globo, de forma a conseguir o menor peso tributário por via de companhias específicas em paraísos fiscais. O Barclays tem mais de 30 destas companhias-fantasma para fugir a impostos.  No seu livro devastador, Treasure Islands, tax havens and the men who stole the world [Ilhas do Tesouro, paraísos fiscais e os homens que roubaram o mundo] Nicholas Shaxson denuncia os mecanismos de todos estes esquemas globais de elisão fiscal usados pelas grandes corporações e de como os governos são coniventes ou permissivos com isso.
   
Existem três maneiras pelas quais qualquer pessoa ou corporação pode baixar os impostos ou não pagar nenhum.  Pode mentir sobre os seus rendimentos: evasão fiscal; pode usar baterias de contabilistas para construir esquemas cuja finalidade é evitar pagar imposto: elisão fiscal; ou pode simplesmente recusar pagar: sonegação fiscal.
   
Um dos casos mais notórios de sonegação do imposto legal foi o da corporação de comunicações móveis globais Vodafone.  Devia 16 mil milhões de libras de imposto ao governo britânico, segundo a lei fiscal existente, por ter escamoteado lucros para uma subsidiária num paraíso fiscal (Luxemburgo) apenas para evitar imposto no Reino Unido. A lei era clara. O governo britânico exerceu pressão sobre a corporação para obter o imposto, mas no último momento o então dirigente britânico dos impostos estabeleceu um acordo secreto com a Vodafone para esta pagar apenas 1,2 mil milhões de libras em prestações durante cinco anos. A razão dada para o acordo, quando este foi denunciado, era de que se tratava de «uma boa liquidação financeira». Mas isso aconteceu apenas porque a Vodafone lutou persistentemente nos tribunais para evitar uma liquidação (embora estivesse a ponto de perder [nos tribunais]).
   
Quantos de nós obteríamos um tal acordo se recusássemos pagar os impostos? Todavia, existem agora 109 disputas semelhantes com companhias britânicas que colocaram os seus lucros em paraísos fiscais para evitar pagar. E estas companhias estão a usar o precedente da Vodafone como justificação para recusar o pagamento por inteiro.
   
Segundo a Tax Justice Network, o Reino Unido perdeu cerca de £25 mil milhões por via de esquemas de elisão fiscal, e outros £70 mil milhões foram perdidos por evasão fiscal de grandes companhias e de indivíduos ricos.  Ao mesmo tempo, por falta de pessoal de impostos, cerca de £26 mil milhões não são colectados.  Estes £120 mil milhões seriam mais que suficientes para evitar os cortes nas despesas públicas e os impostos extra sobre as famílias que o governo britânico impôs dizendo ser por «estarmos todos juntos».
   
A amarga ironia é que esta gente das firmas de contabilidade, que organiza as manigâncias da elisão fiscal, é precisamente a que obtém empego nos departamentos governamentais de tributação para caçar os que fogem aos impostos!  Edward Troup, o patrão da UK Revenue & Customs [Autoridade Tributária e Aduaneira do Reino Unido] -- departamento do governo que supervisiona o inquérito sobre os 10 mil milhões de libras dos Panama Papers --, foi sócio da firma de advogados Simmons & Simmons, uma das firmas de topo da City que trabalhou para a Blairmore Holdings e para outras companhias offshore identificadas nos Papers, quando a Simmons & Simmons tinha contactos com a Mossack Fonseca.
   
Troup, que definiu a tributação como «extorsão legalizada»» num artigo de jornal em 1999, tem uma carreira de aconselhamento das corporações em como reduzir as suas contas de impostos, antes de deixar a Simmons & Simmons para ingressar no serviço público em 2004. Enquanto trabalhou na City, Troup liderou a oposição às reformas de 1999 para travar a elisão fiscal, do então primeiro-ministro do Reino Unido Gordon Brown, com uma publicação na imprensa intitulada: «Os advogados da City apelam ao governo para retirar as propostas de enfrentar a elisão fiscal». Troup criticou as propostas de lei por darem poderes «demasiado abrangentes» à Autoridade de Tributação Doméstica.
   
É claro que quebras de imposto para corporações e para os ricos conjuntamente com subidas de imposto para o agregado familiar médio, não exstem apenas no Reino Unido.  Investigadores do Fundo Monetário Internacional (FMI) estimaram, em Julho de 2015, que a transferência de lucros por parte de companhias multinacionais custa aos países em desenvolvimento cerca de 213 mil milhões de dólares por ano, quase 2% do respectivo PNB.  A Tax Justice Network estima que a elite mundial assenta em 21 a 32 triliões [milhões de milhões] de dólares de activos não tributados.
   
Thomas Piketty assinalou em 2014 que a investigação do LuxLeaks [Luxemburgo Leaks] tinha revelado que as multinacionais quase não tinham pago impostos na Europa graças às suas subsidiárias no  Luxemburgo. Piketty esclareceu que, em muitas áreas do globo, as maiores fortunas continuaram a crescer desde 2008 muito mais rapidamente que a economia global, em parte porque pagaram menos impostos do que os outros. Em França em 2013, um ministro júnior do orçamento afirmou impávido qu não tinha uma conta na Suíça, sem qualquer medo que o seu ministério pudesse descobrir isso. Foram os jornalistas que revelaram a verdade.
   
Gabriel Zucman, um economista colega de Piketty, publicou recentemente um livro mostrando que 7,6 triliões de dólares em activos se encontram em paraísos fiscais offshore, o equivalente a 8% de todos os activos financeiros do mundo.  O montante de riqueza em paraísos fiscais aumentou 25% nos últimos cinco anos.  Nunca houve tanto dinheiro em offshores como há actualmente.
   
Nos EUA são poucas as grandes companhias que de facto pagam os 35% de imposto oficial. Os lucros aumentaram 21% desde 2007, mas o total de imposto das corporações americanas baixou 5%.
   

   
O melhor truque é a chamada «inversão fiscal»: As companhias dos EUA movem as suas sedes para o estrangeiro [ver figura abaixo] evitando o homem dos impostos, mas mantendo os executivos nos EUA, beneficiando de contratos do governo e aproveitando-se de todos os benefícios públicos para os seus funcionários. A Walgreens, que obtém um quarto do seu dinheiro a partir da Medicaid e da Medicare, teve a intenção de se transferir para a Suíça no ano passado e apenas mudou de planos na sequência de um protesto público.
      
Adivinhem agora, onde nasceram as «inversões»?  No Panamá!  A inversão fiscal foi inventada em 1983 quando a companhia de construção McDermott International mudou de endereço para o Panamá para evitar pagar mais de $200 millões em impostos. O advogado de impostos que inventou a «Fuga para o Panamá» foi mais tarde imortalizado numa opereta apresentada aos seus colegas.  A opereta de 13 minutos, Charlie’s Lament, contava como o patrão da festa, John Carroll Jr., inventara a nova categoria de elisão fiscal e a defendera com sucesso em luta contra o IRS dos EUA. Os advogados cantavam:
   
Os Feds [funcionários dos impostos] bem podem gritar,
Mas nós todos estamos a exultar,
Porque nunca mais pagaremos imposto
Nunca mais pagaremos imposto,
Nunca pagaremos imposto de novo!
   
As inversões não são a única forma de aldrabar o homem dos impostos. Os lucros das corporações dos EUA no estrangeiro só são tributáveis quando são «repatriados»; desta forma, as companhias podem acumular lucros em subsidiárias ou agências no estrangeiro. (A Irlanda acaba de fechar o truque do «duplo irlandês» [parqueamento de lucros na Irlanda do Norte] usado pela Apple, Google, Twitter, e Facebook.) Entre 2008 e 2013, as firmas americanas tinham mais de $2,1 triliões de lucros no ultramar, correspondendo a mais de $500 mil milhões de impostos não pagos.
   
Há corporações americanas a fazer milhares de milhões de lucros recorde, mas um inquérito do Wall Street Journal revela que 60 das maiores companhias parqueiam 40% dos lucros em offshores procurando escapar aos impostos dos EUA.  O último orçamento do presidente Obama para 2016 propunha impor uma «taxa aduaneira de transferência» de 14% sobre os mais de $2 triliões em lucros de corporações parqueados no ultramar, aplicável uma só vez e independentemente de serem trazidos de volta aos EUA. Os $280 mil milhões de impostos estimados estavam destinados a melhorar estradas e infraestruturas.  A proposta da taxa aplicada uma só vez visa apenas lidar com um dos vários truques que os negócios domésticos usam para escapar ao IRS.  O Congresso pode bloqueá-la.
   
Para além da ganância, existe uma boa razão económica para um sistema tributário que beneficia as corporações e os ricos e sacrifica as famílias médias e os pobres.  A baixa do peso dos impostos das corporações tem desempenhado papel relevante na contraposição à rendibilidade declinante do capital nas maiores economias. Olhemos [figura abaixo] para a tendência da taxa efectiva de imposto das corporações dos EUA face à taxa efectiva de imposto dos seus empregados. A taxa efectiva de imposto mede o que é de facto pago face ao rendimento, ao contrário da taxa de imposto nominal. Enquanto nos anos de 1950 as corporações americanas pagavam uma taxa efectiva de imposto de cerca de 40-45% dos lucros, nos anos de 1990 essa taxa tinha baixado para 30-35%.  Na última década decresceu ainda mais, abaixo de 25%, e alcançou o mínimo em 2009 em plena Grande Recessão.  O chanceler do Reino Unido [Ministro das Finanças] George Osborne anunciou, no actual período parlamentar, mais uma descida na taxa de imposto das corporações, para 17%, um mínimo recorde dos países G7.
   
A tendência é clara: as corporações são tributadas cada vez menos para preservar a sua rendibilidade.  Em contraste com isso, a taxa efectiva de imposto sobre o rendimento individual dos assalariados [dos EUA] permaneceu bastante estável, em torno de 35%.  Menos impostos para os capitalistas, mais imposto para os trabalhadores.
   
 
   
Enquanto as corporações e os indivíduos ricos pagam menos imposto no seu país e escamoteiam muito dos seus ganhos para os paraísos fiscais, todos nós outros temos de pagar pela perda desses rendimentos fiscais.  […].
   
O que é necessário fazer? […] Os governos deveriam celebrar um acordo internacional para acabar com paraísos fiscais como o Panamá e impor sanções económicas contra eles se não acabarem.  Mais importante ainda, os operadores de elisão fiscal têm de ser fechados.  Precisamos de tornar pública a propriedade e controlo dos bancos e das instituições financeiras que dominam o globo, que encorajam e fornecem serviços para os ricos e a elite corrupta (como se revela em escândalo atrás de escândalo). Isto não só proporcionaria rendimento extra de impostos para as necessidades do povo em serviços públicos e em investimento, mas permitiria ainda converter a banca e serviços finaceiros num serviço público proporcionando crédito para investimento.
   
Claro que tais medidas terão uma oposição vigorosa da maioria dos actuais governos e dos seus ricos apoiantes, e serão ignoradas pela maioria de movimentos da oposição de esquerda.  Mas sem essas medidas a história do Panamá irá continuar.
   

[1] Omitimos na tradução dois curtos trechos finais (assinalados com [...]) de interesse muito reduzido para o leitor português.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Portugal: Ponto da Situação (2016)

Como se sabe, o ano de 2016 foi especial: o primeiro ano do governo de António Costa da ala esquerda do PS que, em certa medida, inverteu a lógica de austeridade imposta pela troika. Lógica do interesse do grande capital, seguida com amor e dedicação pelo anterior governo PSD/CDS. A inversão dessa lógica, como também é sabido, foi guiada por um acordo do PS com o BE e PCP, contemplando condições entendidas como mínimas por estes dois últimos partidos para que o governo PS pudesse ter apoio parlamentar.
   
O governo de António Costa cumpriu grande parte do acordado. Eliminou os cortes salariais na função pública repondo as 35 horas de trabalho, reduziu a TSU (Taxa Social Única: contribuição para a segurança social) paga pelos trabalhadores em 1,3%/ano até 2018, aumentando a partir daí [1]), retirou a sobretaxa de IRS para rendimentos abaixo de 7.070 euros, reduziu para 13% o IVA da restauração, actualizou pensões e outras prestações sociais, repôs os feriados cortados pelo PSD/CDS, devolveu ao Estado a maioria do capital da TAP, reverteu as concessões PSD/CDS dos transportes públicos de Lisboa e Porto a privados, aumentou o salário mínimo mas não no montante exigido pelo PCP, etc.
   
Algumas medidas do governo foram, porém, gravosas para os trabalhadores, tendo tido votos contra do BE, PCP e PEV: o resgate do Banif com apoio do Estado em 2.255 M€ (milhões de euros) e venda de parte do banco ao Santander Totta (por 150 milhões de euros), a redução da TSU das empresas [2], a redução para metade da Contribuição Extraordinária de Solidariedade sobre as pensões mais elevadas e sua eliminação em 2017.
   
O conjunto de medidas pontuais do governo PS permitiram alguma melhoria, ainda que bastante débil, das condições de vida do povo. Permitiram ainda -- e este aspecto não é de somenos importância -- difundir a ideia de que a austeridade não é «inevitável» desde que haja confluência das forças sociais ligadas ao mundo do trabalho que se oponham decididamente à agenda do capital.
   
Todavia, cada vez mais a vida vai demonstrando que o reformismo social-democrata do PS é insuficiente para retirar o país do desastre social em que foi mergulhado pela actual crise sistémica do capitalismo. Crise que não é temporária, mas permanente. Isto é, já não se trata apenas dos habituais «ciclos de negócios» com altos e baixos cada oito anos (aproximadamente), mas de uma crise de rendibilidade produtiva do capital, que se traduz numa baixa de investimento produtivo e fuga do capital para actividades financeiras especulativas. Este tema já foi por nós analisado em vários artigos.
   
A limitação reformista do PS tem-se revelado mais clara no final de 2016: a redução da TSU das empresas, o aumento simbólico do salário mínimo, a intenção de vender ao desbarato o Novo Banco, etc. É sintomático que a CE -- assustada com o apoio de bloquistas e comunistas – embora ameaçasse inicialmente com multas e congelamento de fundos estruturais se o orçamento para 2017 não cumprisse uma meta irrealista de défice orçamental [3], viesse mais tarde a cancelar as ameaças depois de um encontro com António Costa. Também não surpreende que os «socialistas» se tenham declarado contra medidas de fundo e urgentes para retirar o país do desastre, tais como a renegociação da dívida, a nacionalização da banca, e a saída do euro e da UE.
   
Tal como no Ponto de Situação de 2015, vamos ver alguns indicadores das seguintes rubricas: 1 – Contas Públicas: Défice Orçamental (DO) e Dívida Pública (DP); 2 – Estado da Economia: PIB, Investimento, Balança Comercial; 3 – Desemprego e Outros Indicadores de Desastre Social. Usaremos dados de fontes oficiais (INE, Eurostat) e notícias de imprensa que se reportam a declarações de fontes autorizadas.
   
  
1 – Contas Públicas: Défice Orçamental (DO) e Dívida Pública (DP)
No Ponto de Situação de 2015 dizíamos, relativamente ao DO de 2015: «O valor anunciado para 2015 era primeiro de 2,7% e depois revisto para 4% devido ao “caso Banif”. É provável que mesmo este valor seja optimista». De facto, assim foi. O valor oficial do défice foi de 4,4% (do PIB) e precisamente devido à injecção de dinheiro do Estado (isto é, de todos nós) no Banif. Segundo a UTAO – Unidade Técnica de Apoio Orçamental, seria de 3,1% se não fossem tais «medidas de «resolução». «Resolução»! Bonita palavra para designar o pagamento à nossa custa de especulações e fraudes da banca, não é?
   
No passado Abril a previsão do governo quanto ao DO de 2016 era de -2,2%. No final do 1.º semestre era de -2,8%. A previsão de final de Outono da CE é de -2,7%. Como já vimos detalhadamente em anteriores pontos de situação as previsões das várias instituições (BdP, CE, FMI, etc.) costumam ser optimistas. Procuram branquear o desastre capitalista. Como tal toada permanece e permanecerá, abstemo-nos a partir de agora de a tratar em detalhe.
   
Para 2017 a CE prevê (Nov2016) um DO de -2,2%, o governo prevê (Out2016) -1,7%. Há aqui, mais uma vez, a incógnita dos resgates bancários, nomeadamente: em Fevereiro, o governo previa injectar 567 M€ no BPN (sim, a saga continua!) e veio a injectar 561 M€ em Outubro; pediu mais 3 B€ (mil milhões de euros) ao Novo Fundo Europeu de Resolução da Banca para injectar na banca portuguesa; a CGD dizia em Maio precisar de 600 M€ para cumprir o rácio de liquidez imposto pelo BCE e  de que não deveria conseguir devolver o empréstimo do Estado até 2017; em Junho, a CGD dizia precisar de 4 B€; em Julho a CGD revelava perdas de 6,6 B€ desde 2010; em Novembro a CGD dizia estar em risco de perder 900 M€ em operações com o grupo de petroquímica La Seda Barcelona (negócio de Sócrates-Zapatero de 2006); também em Novembro era noticiado que o Estado iria injectar mais 200 M€ no Banif e BES, mais 561,2 M€ em 2017 no BPN e mais 404 M€ em Sistemas de Indemnização aos Investidores do BES e Banif.
   
Isto é, se o que foi noticiado na imprensa se manteve, o Estado injectou na banca de Janeiro até agora cerca de 4,2 B€ e terá de injectar pelo menos 6 B€ em 2017. A injecção de dinheiro na banca passou a rotina. Serve essa injecção para fomentar a produção? No essencial e esmagadoramente, não. Serve para cobrir perdas de especulações-jogatinas que deram para o torto [4], negócios para amigos que falharam e, em muitos casos, fraudes, incluindo as dos crédito mal parado das empresas que se reflecte no crédito mal parado do Estado [5]. Entre 2008-2014 a Banca portuguesa recebeu 17,6 B€ segundo o Tribunal de Contas. Mas a CE diz que em apoios directos e indirectos foram 86 B€.
   
Além disso, Portugal não recebe só do BCE. Também tem de pagar: juros e contribuições. Quanto a contribuições, o Fundo Único de Resolução da UE para salvar bancos europeus exigiu de Portugal o pagamento de 853 M€ em 2017 (o FUR dispõe de 10,8 B€). Quanto a juros, Portugal é o país da UE que mais paga: 4,5% do PIB em 2016!!! (O segundo maior é a Itália: 4,2%.) O Orçamento do Estado para 2017 prevê gastar mais de 8 B€ em juros da dívida, quase tanto como todo o Serviço Nacional de Saúde!!!
   
Devido aos continuados défices orçamentais e crédito mal parado ao Estado, a DP continua a aumentar. Em 2015, era de 129,5% (do PIB). Para 2016 a CE prevê ser de 130,5%, embora em Setembro estivesse em 131,9%. Como consequência (risco de empréstimo por DP elevada), as taxas de juro das obrigações do Tesouro a 10 anos têm vindo a aumentar: 3,138% em Março, 3,252% em Maio, 3,8% em Novembro, 4,227% em Janeiro de 2017 [6]. O Quantitative Easing do BCE não é suficiente para dissipar dúvidas dos investidores.
   
Entretanto, continua a verificar-se o que já assinalámos repetidamente em artigos anteriores: a DP da Alemanha tem vindo sistematicamente a decair, e os elos mais fracos da eurozona têm sustentado o topo da pirâmide imperial, Alemanha-França e seus proxies Áustria e Benelux.
   
Este panorama da DO-DP aponta claramente no sentido da renegociação da dívida, da nacionalização da banca e da saída do euro, se não quisermos o aprofundamento do desastre social. Há ainda outras razões que apontam nesse sentido, como iremos agora ver.
  
   
2 – Estado da Economia: PIB, Investimento, Balança Comercial
   
O PIB real (isto é, a preços constantes) cresceu 1,5% em 2015, abaixo da previsão de 1,7% do governo e CE no final de 2015. Para 2016, a previsão de crescimento no final do ano, era de 0,9%. Bastante abaixo da previsão de Abril do FMI (1,4%) [7]. Durante todo o 2016 o crescimento trimestral do PIB foi abaixo da média da zona euro [8]. A previsão da CE para 2017 é de 1,2%, abaixo da previsão do orçamento de Estado (1,5%).
   
Todos estes valores (oficiais e previsões) representam um crescimento muito débil, longe de retirar Portugal do fosso em que se tem vindo a afundar, e de divergência dos outros países da zona euro particularmente marcante depois da crise de 2008. Tudo isto já analisámos em artigos anteriores. Estamos com o mesmo PIB de há oito anos atrás!
   
A situação é ainda mais grave dado que mesmo o débil crescimento do PIB em 2016 ficou a dever-se em grande parte ao aumento das receitas de turismo e não a aumentos marcantes nos sectores produtivos da construção e indústrias transformadoras. Efectivamente, se olharmos em detalhe para a evolução das contribuições dos vários sectores para o PIB, verificamos que só o sector de serviços apresenta um crescimento sistemático desde pelo menos 1997; crescimento que se acentuou a partir de 2013.
   
O valor produzido no sector da construção está desde 2002 em forte declínio. O das indústrias transformadoras teve uma ligeiríssima subida de 2015 para 2016 mas está ainda abaixo dos valores pré-crise. Em certas áreas decaiu mesmo. Por exemplo, a produção de automóveis registava em Julho de 2016 uma descida homóloga de 8,3%. Embora em 2016 houvesse um aumento para 78,5% da capacidade e utilização face aos 77,6% de 2015, antes da crise o valor era de 80,5%.
   
Em Abril o governo previa para 2016 um aumento do investimento (FBCF) de 4,9%, mas a estimativa de Outono da CE, bem mais confiável, é de um decréscimo de 1,4%. Para 2017, FMI, CE e BdP prevêem, respectivamente, aumentos de 2,5%, 3,7% e 4,4%. Parece-nos demasiado optimismo, por variadas razões, com realce para a queda mundial da taxa de lucro (causa causans), o declínio do comércio mundial, o agravamento da nossa balança comercial, e a nossa falta de poder de compra por baixos salários. Aliás, em Dezembro de 2016, dizia o BdP: “FBCF privado vai recuperar mas a nível insuficiente para repor o destruído em 2008, adiando o necessário reforço económico do país.”
   
A queda da taxa de lucro (de que já falámos em vários artigos) os sinais de crise e consequente declínio do comércio mundial reflectem-se na queda do investimento directo estrangeiro em Portugal: caiu 1,413 B€ em 2015 face a 2014, ficando em 5,364 B€; no 1.º semestre de 2016 tinha caído 60%, ficando em 3,6 B€. E mesmo destes 3,6 B€ um terço ficou nos sectores improdutivos da banca e seguros.
   
O panorama nas pequenas empresas, apesar de algum aumento do crédito bancário, continua desolador. As falências tinham aumentado 9% em Agosto [9] atingindo o ritmo de 20 por dia. Em Novembro era noticiado que 70% das farmácias davam prejuízo num cenário irreversível segundo as regras actuais de venda e dispensa de fármacos. Mesmo para médias empresas com apoios estatais o cenário não é brilhante. Logo a seguir a 2008 o IAPMEI avançou com 10,6 M€ de apoios a 5 empresas, da construção e dos têxteis. Passados 8 anos só uma sobrevivia.
   
Constantemente a imprensa noticia casos de sucesso de pequenas empresas montadas por ex-desempregados, como se aí residisse a salvação do país. É a velha tecla do «empreendorismo», essa espantosa ilusão que, na sua vertente mais extrema, defende ou a ideia disparatada de transformar todos os trabalhadores em empreendedores, ou a ideia utópica e reaccionária de transformar todos os trabalhadores em pequenos produtores, numa brutal guinada para trás da história. Infelizmente a imprensa e outros meios de comunicação raramente informam que, ao fim de três meses, quase 1/3 das startups estão em falência, ao fim de um ano quase metade morreram, e ao fim de três anos quase nenhuma sobreviveu.
   
A construção está em crise. As grandes empresas (Soares da Costa, Mota Engil), mesmo tendo deslocado negócios para fora do país (Angola, Moçambique, Peru, etc.), têm vindo a despedir milhares de trabalhadores. A agricultura e pescas enfrentam grandes dificuldades. A nossa frota pesqueira é fraca comparativamente à espanhola, francesa e holandesa e tem vindo a sofrer cortes de quotas impostas pela UE. A situação na agricultura é de extrema penúria. Os países mais ricos da UE financiam os seus produtores ao mesmo tempo impondo restrições aos mais pobres, como Portugal, que com salários muito mais baixos estariam numa posição vantajosa de concorrência que não lhes interessa. Em Março de 2016 Bruxelas impôs cortes na nossa produção de leite sem dar apoios. Na suinicultura passámos de auto-suficientes em 1986 para uma cobertura de 85% do consumo em 2015. Temos os preços mais baixos do leite e carne de porco [10]. Além dos despedimentos que se verificam nestes sectores e provavelmente se irão agravar [11] o inevitável aumento das importações irá aumentar os preços agravando as dificuldades dos trabalhadores.
   
Os dados oficiais de que dispomos de exportação e importação de bens de Janeiro a Novembro de 2016 apontam para um agravamento da balança comercial face a igual período de 2015 em cerca de 173 M€, aprox. 1% do PIB. A CE prevê um défice de 3,6% do PIB para todo o ano de 2016. Parece, portanto, que se verificou alguma atenuação do ritmo de agravamento do défice: -4,7% em 2014, -4,3% em 2015. FMI, BdP e CE prevêem um cenário um pouco mais risonho em 2017, mas com estimativas díspares que vão desde saldo negativo a positivo...
   
Ao apreciar a variância das previsões de balança comercial é preciso ter em conta que parte importante das nossas principais empresas exportadoras são controladas por investidores estrangeiros que, de um momento para o outro e na busca do lucro, alteram e/ou deslocalizam os seus investimentos. Além disso, do valor total exportado parte substancial não fica em Portugal, mas vai para o estrangeiro. Por exemplo, as 10 principais empresas exportadoras em 2015 foram: 1 – Petrogal SA; 2 – VW Autoeuropa Lda; 3 – Portucel SA; 4 – Continental Mabor SA; 5 – Faurecia Sistemas de Escape Lda; 6 – Repsol Polímeros SA; 7 – Bosch Car Multimedia Portugal SA; 8- Philips Morris International Management SA; 9 – Delphi Automotive Systems - Portugal SA; 10 – VW AG. Nenhuma destas empresas tem capital exclusivamente português e o facto de no seu nome constar a palavra “Portugal” não quer dizer nada; o respectivo capital pode estar todo controlado por estrangeiros por estar maioritariamente em mãos estrangeiras.
   
Assim: a VW Autoeuropa e a VW AG são subsidiárias do Grupo Volkswagen, cujos principais accionistas são alemães; a Continental Mabor é uma subsidiária da alemã Continental AG com controlo total do capital; a Faurecia Sistemas de Escape pertence ao Grupo Faurecia da França e 57,4% do seu capital pertencem à Peugeot-Citroen; a Repsol Polímeros é controlada pela espanhola Repsol com accionistas espanhóis e da América Latina; a Bosch Car Multimedia Portugal é uma subsidiária da alemã Robert Bosch GmbH com 92 por cento das acções em mãos alemãs; a Philips Morris International Management é uma subsidiária da PMI-Philips Morris International dos EUA; a Delphi Automotive Systems-Portugal é uma subsidiária da Delphi Automotive PLC da Grã-Bretanha. Restam a Petrogal e a Portucel. Quanto à primeira, 33,34% do capital é da Amorim Energia BV, grupo sediado na Holanda, com accionistas angolanos e holandeses, 7% são da Parpública e os restantes 59,66% são de vários investidores com pelo menos 9,1% dos EUA e Grã-Bretanha. Quanto à segunda, 75,46% do capital é da Semapa-Sociedade Gestora de Participações S.A., e o restante da espanhola Bestinver Gestión SA e de outros investidores estrangeiros. Mas mesmo na própria Semapa não estão só bancos e investidores portugueses; estão também investidores da Espanha, Noruega, Grã-Bretanha, etc.
   
Já há muito que perdemos grandes empresas nacionais como por exemplo a Lisnave e a Somague. Recentemente, por mãos do PSD, até perdemos os Estaleiros de Viana do Castelo. As grandes empresas nacionais são agora da área da distribuição: Sonae, Jerónimo Martins, etc. As poderosas multinacionais dos países ricos da UE-Zona Euro liquidaram a produção portuguesa. Inclusive, no sector primário. Ficámos reduzidos a comerciar o que outros nos vendem e a vender  a nossa força de trabalho por baixo preço. Principalmente no turismo e actividades dependentes. E o turismo é fortemente vulnerável ao estado da economia global e depende de modas; já houve a moda da Grécia, da Turquia e da Tunísia.
   
    
3 – Desemprego e Outros Indicadores de Desastre Social
    
No Ponto de Situação de 2015 desmistificámos, com números oficiais, a baixa de desemprego que tem vindo a ser sucessivamente anunciada sem ter em conta a emigração de trabalhadores e a estagnação do número de trabalhadores activos dada a baixa e declinante natalidade. Outros factores que deveriam também ser tidos em conta são o congelamento de reformas e o aumento da idade de reforma.
   
Sem ter em conta esses factores, dizer que em 2015 a taxa de desemprego era de 12,6% e agora é de 11,1% (Eurostat) diz pouco. Não tem em conta nem os factores referidos nem o tipo maioritário de emprego que tem sido criado: emprego precário e mal pago em call-centers e no alojamento e restauração (consequência do aumento de turismo).
   
Vamos aqui deixar alguns recortes da imprensa de 2016:
   
07/01: A taxa de desemprego em Novembro de 2015 foi de 12,4%. Não descola dos 12,4-12,3%. Mas, na população dos 15 aos 24 anos é de 33,4%, tendo subido muito em Outubro [fim do pico de turismo]: 31,8%.
21/01: Há 291 mil desempregados sem subsídio de emprego.
01/02: A Altice corta benefícios dos trabalhadores da PT. As empresas têm resistido destruindo emprego: congelamento de salários, reformas antecipadas, layoff.
24/02: Cenário negro no sector da construção. Prevê-se o fim de 35 mil empregos durante o ano.
26/02: Novo Banco dispensa 1000 trabalhadores.
21/03: O desemprego está a subir há 7 meses consecutivos. Estado, autarquias e banca reduzem emprego.
12/05: Os jovens licenciados têm ficado de fora da retoma laboral [têm habilitações a mais para call-centers e restauração]. O desemprego de jovens licenciados subiu 4% no primeiro trimestre de 2016 face a igual período de 2015. São mais 142,2 mil sem emprego.
03/08: O BCE e o BdP referem que ficou mais fácil despedir e reduzir salários depois da troika.
11/8: A maior parte do emprego criado no último ano é precário.
4/10: A Banca vai cortar 3.400 empregos.
5/10: Portugal perde 2 mil milhões de euros por ano com 260 mil jovens inactivos, que não têm emprego nem estão a estudar.
16/11 A taxa de desemprego no terceiro trimestre de 2016 foi de 10,5% o que representa uma baixa homóloga de 11,2%, ou seja menos 69,3 mil desempregados. O emprego precário dispara 9,6%.
16/11: A Função Pública perdeu 71 mil funcionários entre Dezembro de 2011 e Setembro de 2016.
26/12: Segundo um Professor da Universidade do Minho “Cerca de metade [dos empregos criados] são precários, mas com a redução das indemnizações e facilitação dos despedimentos as empresas têm menos receio de contratar sem termo”.
28/12: Reitores contratam professores para dar aulas sem receber. Só na Universidade do Porto são 40 docentes não pagos. Silêncio do MCTES. Segundo o Sindicato do Ensino Superior (SNESup) quanto aos docentes que aceitam tal situação trata-se de uma «ilusão de ingresso na carreira que cria um círculo vicioso».
   
Paralelamente a alguma melhoria de vida nos estratos de rendimento médio, que se traduziu num aumento do consumo  (o crédito ao consumo aumentou 23,3%) e até numa certa euforia nas compras de Natal, a praga dos baixos salários, altos impostos, pobreza e fome, tem-se agravado. Deixamos aqui alguns recortes da imprensa de 2016 sobre este tema:
   
25/01: A crise obrigou 9% das famílias a cortar a comida aos filhos. A preocupação com a obtenção de alimentos tem aumentado e em 2014 atingiu metade da população.
28/01: Há 1600 sem-abrigo no Porto e a tendência é para aumentar.
25/03: Taxa de poupança [média] das famílias em mínimo histórico: 4,2% [do rendimento].[Em 1995 era de 12,5% do rendimento].
04/04 Segundo o Eurostat o salário médio/hora de Portugal é dos mais baixos da Europa: DNK 35,6 €, LUX 31,3 €, BEL 28,2 €, HOL 26 €, FIN 25,6 €, SWE 25,4 €, DEU 25 €, AUT 23,9 €, FRA 23,4 €, GBR 21,4 €, ITA 20,3 €, ESP 15,8 €, PRT 10,5 €, POL 7 €, BLG 3,4 €.
14/05: Famílias ganham tanto como há 10 anos.
25/09: Segundo o Banco Alimentar do Porto, mais de metade dos portuenses são pobres ou correm o risco de o ser.
04/10: António Costa admite novo imposto sobre o consumo [uma das medidas exigidas pela CE para aprovar o Orçamento de Estado].
18/10: Segundo o Eurostat, um décimo dos trabalhadores portugueses a tempo inteiro vive na pobreza. Entre os trabalhadores a tempo parcial a taxa sobe para um terço. Uma das razões apontadas é o baixo valor do salário mínimo nacional. Também segundo o Eurostat, Portugal é um dos países com mais pobres da UE e onde é mais difícil sair da pobreza.
18/10: Os salários reais subiram menos que a inflação [0,9% em Outubro de 2016]. Segundo um estudo do BdP, os novos contratados ganham menos 11% do que os trabalhadores que foram substituir.
21/10: Os salários nacionais vão divergir ainda mais da média da UE. Em Portugal aumentaram 1,5%, enquanto na zona euro aumentaram de 3 a 7%.
05/11: Segundo o INE os portugueses sentiram uma ligeira recuperação do conforto e bem-estar no último ano, mas o gráfico do índice de “condições materiais de vida” do INE só mostra recuperação muito débil em 2015, abaixo de 2004-2010 e ao nível de 2011.
13/12: Portugal é o 4.º país da UE com maior desigualdade salarial, só ultrapassado por Chipre, Roménia e Polónia.
22/12: A ACT-Autoridade para Condições de Trabalho detectou até Outubro a existência de 2 milhões de euros em falta nas contribuições para a Segurança Social e 4 milhões de euros de salários em atraso. Tem aumentado o trabalho não declarado por patrões. A ACT diz que os incumprimentos à Segurança Social estão a aumentar. Os mais incumpridores são: comércio e reparação de veículos, indústrias transformadoras, alojamento e restauração.
    
Mas, por outro lado, verifica-se o seguinte para os 0,1% do costume:
   
01/02: Os salários dos gestores públicos aumentaram em 150%. A presidente da reguladora da aviação civil passou de 6 mil euros para 16 mil euros por mês. A decisão foi tomada nos últimos dias do governo PSD/CDS com retroactivos a Julho de 2015 e mantida até agora em segredo.
23/02: Os gestores de empresas lideram nas dívidas ao fisco. 68% dos não cumpridores dirigem negócios.
29/04: De 2010 a 2014 saíram para offshores 10,2 mil milhões de euros de empresas e de particulares. Só em 2011, quando entrou a troika, saíram 4 mil milhões de euros.
20/05: Os lucros dos 5 maiores bancos a operar em Portugal foram de 112,9 milhões de euros no primeiro trimestre de 2016.
23/05: Os principais gestores de empresas portuguesas ganham até 90 vezes mais do que os funcionários. [Portugal é um dos países em que os gestores ganham mais.]
27/07: A fortuna dos 10 mais ricos portugueses subiu 1,4 mil milhões de euros.
20/10: A limitação das remunerações dos administradores da banca pública, proposta pelo PCP e apoiada pelo BE e CDS, foi chumbada pelo PS-PSD.
   
Sumário:
   
A melhoria de condições de vida trazida pelo governo, com programa acordado com BE e PCP, é muito débil e beneficiou essencialmente os estratos da população de rendimento médios. Serviu mais para mostrar que a austeridade não é inevitável e para abrir perspectivas de aliança da pequena burguesia com o proletariado.
    
O governo de António Costa, embora cumprindo vários objectivos do programa, tem o horizonte reformista limitado intrínseco à social-democracia. Revela as vacilações próprias da pequena burguesia com um pé no trabalho e outro no capital. Um exemplo ilustrativo é o seguinte: embora António Costa admitisse em 31 de Março a possibilidade de o Novo Banco ser nacionalizado -- dizendo «Hoje em dia, já ouvimos pessoas muito insuspeitas de serem próximas ou sequer amigas ou mesmo vizinhas do PCP a defenderem soluções idênticas à que o PCP defende» (note-se a preocupação extrema da sua demarcação: «insuspeitas de serem próximas ou sequer amigas ou mesmo vizinhas do PCP») --, em 6 de Janeiro de 2017 o governo de António Costa já revelava querer vender o Novo Banco -- onde o Estado (todos nós) enterrou milhões -- a um privado, suportando inclusive um prejuízo na venda!
   
É nossa convicção – e pensamos ter apresentado acima evidências suficientes – de que a vida irá mostrar, cada vez com maior acuidade, a absoluta necessidade de renegociar a dívida, nacionalizar a banca com controlo de comissões de trabalhadores bancários, e sair da zona euro e da UE. A nova crise que se aproxima e de que já poucos têm dúvidas, incluindo algumas das luminárias que se reuniram em Davos em Janeiro de 2016 [12], irá colocar tais objectivos com a maior premência. A crise poderá, inclusive, vir a ser despoletada pelo gigante europeu Deutsche Bank, considerado pelo FMI no passado Outubro como o “maior risco global” da economia.
    
Notas

[1] A TSU dos trabalhadores é de 11%. A redução atingirá 4% ao fim de 3 anos. O governo prevê reavaliá-la em 2018 e aumentá-la faseadamente até aos anteriores 11% até 2026.
[2] A TSU paga pelas empresas era de 23,75%. Vai ser também reduzida em 4% até 2018. A descida em 2016 e 2017 é de 1,5% e em 2018 de 1 %. Esta medida incide apenas sobre os trabalhadores com contrato permanente e sobre o salário base.
[3] A previsão inicial do governo do défice orçamental para 2017 era de 1,6%. A CE queria um “ajuste” (a austeridade usual) para 1%, isto quando em Agosto o governo previa que o défice em 2016 ficaria “abaixo da meta dos 2,5%”.
Note-se que Hollande relatou num recente livro o seu conluio com os presidentes da CE, Durão e Juncker, para maquilhar as previsões do DO francês de forma a “cumprir” a meta dos 3%. Hollande diz que tal conluio “é um privilégio das grandes nações”. Uma bela afirmação imperialista, defensora da corrupção ao mais alto nível. Desde 2009 que a França têm défices excessivos, que atingiram 7,2% do PIB. Nos últimos 22 anos a França só cumpriu – aparentemente! – a meta dos 3% quatro vezes.
[4] 15/12: Juros dos contratos swaps nos transportes chegam aos 92%! (variam entre 30 e 92%)]
[5] O crédito mal parado das empresas erea de 13,7 B€ em Abril, enquanto o das famílias era de 5,4 B€. O crédito mal parado do Estado era de 2,4 B€ em Janeiro de 2016. Isto é, sem esta perda que corresponde a 1,4% do PIB o DO baixaria drasticamente. O problema do crédito mal parado do Estado tem-se agravado. Em 20 de Outubro era reportado na imprensa que a «Lista dos devedores ao Estado não pára de aumentar» atingindo um total de perdas de 3,8 B€.
[6] 90% das obrigações do Tesouro a 10 anos são detidas por investidores estrangeiros: 34,7% da FRA+ITA+ESP e 12,1% da DEU+AUT+CHE. Para termos uma ideia do elevado serviço da dívida de Portugal, apresentamos aqui os valores das emissões e taxas de juro actuais das obrigações do Tesouro a 10 anos de quatro países:
   

Montante (B€)
Taxa de Juro (%)
DEU
4
0,36
PRT
3,8
4,227
ESP
1,71
1,450
ITA
1,5
1,250
    
[7] Previsão de crescimento do PIB (FMI): 1,4% em 2016, o 39.º mais fraco de 190 países. Segundo o FMI o crescimento do PIB português era o 11.º mais fraco em 2009 ee será o 2.º pior em 2021:  1,2%!
[8] O PIB tem vindo a decair desde 1T16 face a 1T15: 1,5%, 1,5%, 1,4%, 1,3%, 0,9%. Esse decrescimento é maior do que o da média da zona euro: 1,3%, 1,6%, 1,6%, 1,6%, 1,5%.
[9] dados da Ignios de 18 de Setembro.
[10] Preço do leite (em euros) por 100 kg: DEU 28,9, FRA 29,1, BEL 28,7, NLD 29,3, ESP 29,9, PRT 28,6. Preço médio (em euros) por kg de porco vivo (2016): DEU 1, FRA 1,1, BEL 0,98, NLD 0,93, ESP 0,94, PRT 0,89.
[11] Emprego na suinicultura: 200 mil trabalhadores (4500 produtores). Emprego no leite: 100 mil  trabalhadores (5500 produtores).

[12] No Fórum de Davos de 2016 chegaram à conclusão que o «excesso de concentração em alguns activos pode provocar um movimento em massa de vendas ao desbarato». Também conseguiram atingir a difícil conclusão de que 2015 «revelou que a China não é uma máquina de crescimento perpétuo”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Afinal, o que mede o «Índice de Percepções de Corrupção»?

What Does the “Corruption Perceptions Index” Measure, After All?



I – Introdução
II – O que as análises dos textos e dados revelam
1 – A «independência» dependente da TI
2 – Segundo a TI, só interessam «percepções», evidência factual não
3 – Segundo a TI, instantâneos sim, evoluções não
4 – Mais importante que os instantâneos são as tendências temporais
5 – A subtil diferença para a TI entre IPC e BCG
6 – As fontes dos peritos
7 – IPC e BCG em desacordo
III – As fontes do IPC
IV – Apêndices
1 – A influência da crise
2 – Os «peritos» da TI pontuam significativamente pior os países que não se submetem ao Império, do que o «público em geral»
3 – IPC e BCG não acertam
4 – BCG dos sectores público e privado acertam

I - Introduction
II – What the analyses of texts and data reveal
1 – TI dependent “independence”
2 – According to TI, only “perceptions” are of interest, not the factual evidence
3 – According to TI, yes to snapshots, no to along the time analyses
4 – Temporal trends are more important than snapshots
5 – The subtle difference between CPI and GBC, according to TI
6 – The expert sources
7 – CPI and GCB do not match
III – The CPI sources
IV - Appendices
1 – The influence of the crisis
2 – Compared to the “general public” TI “experts” score significantly worse those countries that do not yield to the Empire
3 – CPI and GCB do not match
4 – GCB of public and private sectors do  match


I – Introdução
  
O Índice de Percepções de Corrupção (IPC) é muito citado nos media. Foi criado pela TI-Transparência Internacional [1] que se apresenta como um «movimento», criado em 1993 por um grupo de pessoas lideradas por um reformado do Banco Mundial (BM). Afirma-se politicamente apartidária e independente, sem interferência dos «doadores» na determinação da política da TI e com contas transparentes de financiamento e despesas. Os primeiros dados do IPC surgiram em 1995.
   
Na apresentação à imprensa da brochura do IPC de 2013 afirmou a presidente da TI: «É tempo de travar os que praticam actos de corrupção. Os buracos legais e a falta de vontade política dos governos facilitam a corrupção doméstica e entre estados, exigindo a intensificação dos nossos esforços para combater a impunidade dos corruptos».
Estamos de acordo. Tudo depende agora de como se põem em prática estes esforços. Ora, é aí, a começar pelas fontes da TI, que soam campainhas de alarme, como iremos ver abaixo.
  
O IPC é um valor numérico na escala de 0 a 100 ou 0 a 10 (0 = altamente corrupto, 10 = limpo) que alegadamente pontua «os níveis percepcionados de corrupção no sector público dos países em todo o mundo» (nas citações as ênfases são nossas). É obtido a partir de pontuações de várias «fontes de opinião de peritos» ligadas à TI. Desde logo uma questão se levanta: porquê só o sector público? Então o sector privado não tem corrupção e não é ele o motor da corrupção do sector público? Várias fontes do IPC, embora com foco principal no sector público – já iremos ver porquê – alegam, porém, medir também a corrupção no sector privado.

A TI também publica, desde 2004 [2], o Barómetro da Corrupção Global (BCG) baseado, não em «fontes especializadas», mas em inquéritos ao «público em geral» dos países. O BCG, ao contrário do IPC, não é uma pontuação única mas um conjunto de pontuações na escala de 1 = limpo a 5 = altamente corrupto, em várias categorias: sector público, sector privado, justiça, etc. Dado basear-se em inquéritos ao «público em geral», o «barómetro» poderá presumir-se como reflectindo uma opinião «popular».
  
II – O que as análises dos textos e dados revelam

A análise a que procedemos de textos e dados desde 2004 a 2015, do IPC e do BCG, suscitam-nos os seguintes comentários e observações:
  
1 – A «independência» dependente da TI
     
Apesar de se afirmar politicamente apartidária e independente, a TI é clara e intrinsecamente partidária e dependente da visão capitalista, mais concretamente partidária e dependente do grande capital americano e das suas instituições, incluindo a CIA.
  
Este aspecto vai-se tornar transparente na secção em que descrevemos as fontes.
  
Mas atente-se, para já, nas seguintes afirmações publicadas pela TI:
  
-- Em 2004: «O IPC costumava incluir inquéritos à opinião. Quando os inquéritos saíram do índice porque eram de três anos atrás a IT decidiu basear o IPC exclusivamente na opinião de peritos em corrupção. A razão disso é que enquanto os inquéritos não distinguem tipos de corrupção, sentiu-se que os peritos em negócios estariam melhor qualificados do que o público em geral para comentar com precisão a grande corrupção».
  
-- A partir de 2004 a TI publicou o barómetro baseado em inquéritos ao «público em geral» e sobre vários «tipos de corrupção». Isto desmente as suas afirmações anteriores. Mas a TI manteve a óptica central de se basear nos «peritos em negócios». A ideia de que «estariam melhor qualificados do que o público em geral para comentar com precisão a grande corrupção» não faz sentido. O «público» conhece bem a «grande corrupção» que os media divulgam em grandes parangonas, quanto mais não seja porque ajudam a vencer a concorrência à custa de sensacionalismo. Quanto à maior qualificação dos «peritos em negócios», sabe-se que também os qualifica para melhor esconder, minimizar e branquear as causas da corrupção. De facto, a causa principal da corrupção é precisamente «os negócios» (ver nosso artigo sobre a Ernst&Young).
  
-- «Organismos internacionais como o G20 devem reprimir a lavagem de dinheiro, tornar as corporações mais transparentes e obrigar à devolução de activos roubados».
Quem é que a TI procura mistificar com estas palavras? Será que julgam estar a falar para ingénuos, que irão acreditar que os representantes dos bancos e monopólios – os representantes dos principais responsáveis de lavagens e roubos, amplamente divulgados, que continuam e continuarão impunes porque são eles os patrões – embarcarão numa possível «repressão» das manigâncias desses mesmos banqueiros e monopolistas?
  
-- «O IPC incide na corrupção do sector público e define a corrupção como o abuso do serviço público para obter ganhos privados».
Isto é, para a TI os «maus» são os funcionários públicos, não os capitalistas. Mas a TI esquece-se de dizer de onde é que os «serviços públicos» obtêm ganhos. Se há «ganhos privados» de onde é que eles vêm? Quem os alimenta? Ao contrário do que a TI afirma, as massas trabalhadoras do «público em geral» conhecem a resposta.
  
2 – Segundo a TI, só interessam «percepções», evidência factual não
  
«Porque razão o IPC só se baseia em percepções? É difícil basear afirmações comparativas dos níveis de corrupção de diferentes países em dados empíricos concretos, p. ex., comparando o número de processos ou de casos em tribunal. Tais dados inter-países não reflectem os actuais níveis de corrupção; reflectem em vez disso a qualidade dos procuradores, dos tribunais, e/ou dos media na denúncia da corrupção. O único método de compilar dados comparativos é, portanto, basearmo-nos na experiência e percepções dos mais directamente confrontados com as realidades de corrupção de um país».

A TI diz:

-- «É difícil basear afirmações comparativas… em dados… concretos, p. ex.,… número de processos ou casos em tribunal».
É simplesmente disparatado dizer que é difícil basear comparações em dados concretos. O número de processos de corrupção é uma evidência factual que deveria ser sempre tida em conta, para evitar erros grosseiros (vide IV-3).

-- «O único método de compilar dados comparativos é…» – o «único» (!), nada de povo nem de dados concretos – «basearmo-nos na experiência e percepções dos mais directamente confrontados com as realidades de corrupção de um país» – isto é, segundo a TI e como veremos, opiniões subjectivas dos representantes das corporações dos EUA, UK e Alemanha; se os representantes forem da CIA, ainda melhor.

3 – Segundo a TI, instantâneos sim, evoluções não

A preocupação central da TI é o instantâneo, que se pode resumir assim: saber num dado ano e em dada região onde se situa um dado país quanto ao IPC ou BCG. Como diz a TI: «Qual é a pontuação do seu país?».
  
Contudo – e apesar da enorme qualidade que a TI vê nos seus peritos dos negócios –, o instantâneo sofre do mal das populações de diferentes países terem interpretações e valorizações diferentes da corrupção, conforme as tradições históricas, o sistema socioeconómico, o tipo de corrupção que mais as afecta, etc., e a existência ou não de progresso no combate efectivo à corrupção.
  
Os «peritos dos negócios» não são deuses acima das populações que põem os instantâneos como deve ser. Também têm as suas idiossincrasias. Tenderão, por exemplo, a classificar como corrupção quaisquer dificuldades levantadas pelo sector público aos seus negócios. Tendência reforçada no caso de países socialistas ou com fortes sectores de empresas públicas; países que só põem entraves aos negócios!
  
Quando a TI diz «os [países] mais desenvolvidos revelam claramente como a transparência apoia a prestação de contas e pode travar a corrupção» manifesta apenas a sua fé nos países capitalistas desenvolvidos. Mas, de facto, esses países têm enormes corrupções ao nível das relações íntimas Estado-monopólios que são simplesmente digeridas pelos «peritos» da TI como não-corrupções.
   
Um exemplo concreto: a Ernst & Young, PwC, KPMG e Deloitte – as quatro maiores multinacionais em auditoria e consultoria – estiveram envolvidas no escândalo do «Luxemburgo leaks»: a organização pelo Estado do Luxemburgo em conluio com os monopólios da enormíssima evasão fiscal de 340 multinacionais entre 2002 e 2010. Enormíssima corrupção de um país desenvolvidíssimo. Contudo, o IPC do Luxemburgo não sofreu com isso. De 2004 para 2010 até melhorou, de 8,4 para 8,5! Os «peritos» desprezaram completamente o «Luxemburgo leaks».
  
4 – Mais importante que os instantâneos são as tendências temporais
  
A corrupção não nasce por geração espontânea ou porque os funcionários públicos são maus. A grande corrupção é filha da ganância de lucro das grandes multinacionais. Em tempos de crise do capitalismo a fraude e corrupção tendem a aumentar. Apesar de todas as insuficiências do IPC a tendência da corrupção pós-crise determinada a partir do IPC de 16 países capitalistas desenvolvidos piorou em 9 (ver IV-1).
  
A insuficiência do IPC é revelada pela análise de tendência no caso de Portugal. A figura abaixo mostra que a tendência do IPC pós-2009 é de decréscimo da corrupção (*), quando é bem conhecido o grande aumento da alta corrupção em Portugal com montes de processos judiciais, dos bancos e empresas (ver IV-3).
(*) Infelizmente, por má escolha de escala da TI, um IPC crescente corresponde a corrupção decrescente.
I – Introduction
  
The Corruption Perceptions Index (CPI) is often cited by the media. The CPI was developed by TI - Transparency International [1], which introduces itself as a “movement” created in 1993 by a group of persons led by a retired officer of the World Bank (WB). It also asserts being nonpartisan and independent, free of interference from “donators” in the determination of TI policies, and with transparent financing funds and accounting. The first CPI data were published in 1995.
  
In the presentation of the CPI 2013 brochure to the press, TI chairman said: "It is time to stop those who get away with acts of corruption. The legal loopholes and lack of political will in government facilitate both domestic and cross-border corruption, and call for our intensified efforts to combat the impunity of the corrupt".
We agree. It all remains to be seen in which way these efforts are carried into practice. Now, it is precisely here that alarm bells ring; starting with the CPI sources, as we shall see below.
  
The CPI is a numerical value in the 0 to 100 or 0 to 10 scale (0 = highly corrupt, 10 = clean) which allegedly scores the “perceived levels of public sector corruption in countries worldwide” (our emphases in all quotations). It is derived from scores of several “expert opinion sources” with which TI has connections. From the start, a question can be raised: why the public sector only? Isn’t the private sector, after all, the corruption driving force behind the public sector? Several CPI sources, in spite of their main focus on the public sector – we shall see why – allege, nevertheless, that they also measure the corruption in the private sector.

TI also publishes since 2004 [2] the Global Corruption Barometer (GCB) based on surveys of the “general public” of the countries, instead of “expert opinion sources”. Contrary to the CPI, the GCB is not a single score, but rather a set of scores in the scale from 1 = clean to 5 = highly corrupt in several categories: public sector, private sector, justice, etc. Given the fact that the “barometer” is based on surveys of the “general public”, it may be presumed as reflecting a “popular” opinion.

II – What the analyses of texts and data reveal

The analyses that we carried out of texts and data from 2004 to 2015, from both the CPI and the GCB, raise the following comments and observations:
  
1 – TI dependent “independence”
    
In spite of the fact that it asserts being nonpartisan and independent, TI is clear and intrinsically partisan and dependent of the capitalist viewpoint, and more precisely partisan and dependent of the big American capital and its institutions, including the CIA.
  
This aspect will become transparent in the section where we describe the sources.
  
But let’s for the moment draw attention here to the following statements published by TI:
  
-- In 2004: “The CPI used to include public opinion surveys. When these surveys dropped out of the index because they were more than three years old, TI decided to focus the CPI exclusively on expert opinion on corruption. The reason for this is that while the surveys themselves don’t distinguish between types of corruption, it was felt that business experts would be better qualified than the public at large to comment accurately on grand corruption.”
  
-- TI published after 2004 the barometer based on surveys of the “general public” on several “corruption types”. This belies its previous statements. But TI maintained its pivotal policy of being based on “business experts”. The idea that they “would be better qualified than the public at large to comment accurately on grand corruption” is senseless. The “public” knows well the “grand corruption”, which is exposed by the media in large headlines, if for nothing else because they afford leverage over the concurrency for their sensationalism. As regards the higher qualification of the “business experts”, as we know, it also qualifies them to better hide, minimize and white-wash the causes of corruption. As a matter of fact, the main cause of corruption is precisely the “businesses” (see our article on the Ernst & Young study).
  
-- “International bodies like the G20 must crack down on money laundering, make corporations more transparent and pursue the return of stolen assets”.
Who is TI trying to mystify with these words? Do they think they’re addressing naïve people, who will believe that the representatives of banks and monopolies – that is, representatives of the main responsible figures of widely exposed launderings and robberies, who remained and will remain unpunished because they are the bosses – will engage in an eventual “repression” of the trickeries of exactly those same bankers and monopolists?
     
-- “The CPI focuses on corruption in the public sector and defines corruption as the abuse of public office for private gain.”
Thus, to TI, the “bad guys” are the civil servants, not the capitalists. But the TI forgets telling us from where come the gains going to the “public office”. If there are “private gains” from where do they come? Who feeds them? Contrary to TI assertions the working masses of the “general public” know the answer.

2 – According to TI, only “perceptions” are of interest, not the factual evidence

“Why is the CPI based only on perceptions? It is difficult to base comparative statements on the levels of corruption in different countries on hard empirical data, e.g. by comparing the number of prosecutions or court cases. Such cross-country data does not reflect actual levels of corruption; rather it highlights the quality of prosecutors, courts and/or the media in exposing corruption. The only method of compiling comparative data is therefore to build on the experience and perceptions of those who are most directly confronted with the realities of corruption in a country.”
  
TI says:
  
-- “It is difficult to base comparative statements… on hard empirical data, e.g. … number of prosecutions or court cases”.
It’s sheer nonsense to say that it is difficult to base comparisons on hard data. The number of court prosecutions on corruption should always be taken into account in order to avoid blatant errors (see IV-3).

-- “The only method of compiling comparative data is…” – the “only” one (!), with no people and no hard data – “to build on the experience and perceptions of those who are most directly confronted with the realities of corruption in a country” – that is, according to the TI and as we shall see, subjective opinions of the representatives of the US, UK and German corporations; if the representatives are from the CIA, it is even better.

3 – According to TI, yes to snapshots, no to along the time analyses

The main concern of TI is the snapshot, which in short amounts to know in a given year how a country ranks in a given region with respect to the CPI or the GCB. In TI words: “How does your country score?”
  
Nonetheless – and in spite of the enormous quality that TI sees in its “business experts” –, a snapshot is plagued by the shortcomings that populations of different countries have different interpretations and valorizations of corruption, depending on historical traditions, socio-economic system, most hardly felt type of corruption, etc., and the existence or not of progress in the struggle against corruption.

The “business experts” are no gods above the populations, setting the record straight on snapshots. They also have their idiosyncrasies. They will tend, for instance, to classify as corruption any difficulties the public sector raises to their businesses. A tendency reinforced in the case of socialist countries or countries with strong sectors of public enterprises; countries that set all sorts of obstacles to their businesses!
  
When TI states that "The top performers clearly reveal how transparency supports accountability and can stop corruption” it is merely manifesting its principled faith in the developed capitalist countries. Yet, such countries also have huge corruptions at the level of the State-monopolies intimate relations, which are simply digested by the TI “experts” as non-corruptions.
   
A concrete example: the Ernst & Young, PwC, KPMG and Deloitte – the four biggest multinationals in auditing and consultancy services – were involved in the “Luxembourg leaks” scandal: the organization by the Luxembourg State in collusion with monopolies of a huge fiscal evasion of 340 multinationals between 2002 and 2010. A gigantic corruption of a very developed country. Nevertheless, the CPI of Luxembourg didn’t suffer any influence from that. From 2004 to 2010 it even improved, from 8.4 to 8.5! The “experts” completely neglected the “Luxembourg leaks”.
  
4 – Temporal trends are more important than snapshots
  
Corruption isn’t born out by spontaneous generation or because civil servants are evil persons. The grand corruption is daughter of the profit greed of the big multinationals. Fraud and corruption tend to increase in times of capitalist crisis. In spite of all CPI insufficiencies, the post-crisis corruption trend computed with the CPI in 16 countries of developed capitalism worsened in 9 (see IV-1).
  
The insufficiency of CPI is revealed by trend analysis in the case of Portugal. The figure below shows a CPI decreasing trend of corruption (*) post-2009; this, when the rise of grand corruption with piles of court processes, involving banks and firms, is a well-known fact (see IV-3).
(*) Unfortunately, due to TI poor choice of scale, a CPI increase corresponds to a corruption decrease.
  

   
Neste e noutros casos vemos como é importante a avaliação de tendências. Note-se que as tendências estão livres das dificuldades acima mencionadas de comparação de instantâneos de países.

Os relatórios da TI fazem alguma menção de evoluções, mas de uma forma simplista (do tipo «na região X houve melhoria face ao ano anterior»). Na realidade, os dados da TI não proporcionam facilmente análises evolutivas, por várias razões: as «fontes especializadas» variam; a escala de mensuração do CPI e barómetro são diferentes (sem necessidade); países avaliados em alguns anos não são avaliados noutros; as categorias das respostas do BCG têm variado; e – para cúmulo – no relatório do BCG de 2016 para a Europa e Médio Oriente nenhuma mensuração é incluída!
 
Disse assim a TI em 2004 (e esta filosofia, parece continuar válida a julgar pelos relatórios): «Podem as pontuações do IPC de 2004 ser comparadas com as do passado? O índice fornece primariamente um instantâneo das percepções de homens de negócios e de analistas de países, e menos atenção das tendências ano após ano… Contudo, mudanças ao longo dos anos na pontuação de um país resultam não só de uma mudança de percepção do desempenho de um país mas também de uma mudança de amostra e metodologia».
A TI menciona depois causas de mudanças: variação de fontes, das amostras de inquiridos, e «metodologias ligeiramente diferentes».
 
Mas, ao mesmo tempo, a TI afirma peremptoriamente que «o IPC é um sólido instrumento de mensuração».
Deixando de lado o facto de que o IPC não é um «instrumento», se o IPC fosse uma medida «sólida», então deveria ser muito pouco influenciável por uma amostragem diferente e «metodologias ligeiramente diferentes». Não haveria então qualquer razão impeditiva do seu uso para avaliar a tendências. Em suma, a TI contradiz-se.
  
Por outro lado, se o IPC é significativamente influenciável por «uma mudança de amostra e metodologia», de tal forma que não pode ser usado para avaliar evoluções ao longo do tempo, temos de perguntar: o que é que ele, afinal, mede? Para que serve, afinal, o IPC, esta medida estatística que depende significativamente da amostra e da metodologia?! Desde há muitos anos que se conhecem metodologias científicas apropriados para obter medidas estatísticas insignificantemente influenciáveis por mudanças de amostras. Porque razão os «peritos» da TI não as usaram?
  
5 – A subtil diferença para a TI entre IPC e BCG
  
Diz a TI sobre a diferença entre IPC e BGC: «O IPC tem como objectivo avaliar níveis de corrupção de países, enquanto o Barómetro Global de Corrupção se preocupa com as atitudes que o público em geral forma relativamente a esses níveis de corrupção».
  
Portanto, quer o IPC quer o BCG têm a ver com «níveis de corrupção». Se olharmos para os dados do BCG, vemos que são também níveis de corrupção «de países. Portanto, toda a diferença, segundo a TI, se resume a que o BCG se preocupa «com as atitudes que o público em geral forma». Os dados mostram que as respostas do público se referem à avaliação temática da corrupção. Da avaliação temática pode sempre obter-se uma avaliação agregada. Aliás, é exactamente isso que supostamente fazem os «peritos» do IPC. Para concluir, dado que o público «forma» é sinónimo do que o público percepciona, onde está, afinal, a diferença entre o IPC e o BCG?
  
A diferença reside apenas naquilo que a TI não quis dizer, apesar de ser claríssima: o IPC baseia-se em percepções de peritos; o BCG em percepções do público em geral. Dizer isto claramente seria desvalorizar os peritos dos «negócios» face  ao «público em geral», o que não convém aos que apoiam financeiramente a TI.
  
Incidentalmente, apesar da afirmação da TI de o BCG se basear no «público em geral», as amostras usadas são bem pequenas, da ordem de 1.000 inquiridos para grandes países (p. ex., EUA). A TI não diz uma palavra sobre a metodologia usada para assegurar que as amostras reflectem o «público em geral». Que entenderá a TI por «público em geral»? Não sabemos. Logo, não sabemos qual o grau de democraticidade do BCG. Só podemos presumir que é mais “popular” que os “peritos”.
  
6 – As fontes dos peritos
  
As fontes do IPC, como se mostra abaixo, são esmagadoramente ligadas aos interesses das multinacionais americanas; e, subsidiariamente, das multinacionais inglesas e alemãs. Quatro fontes, pelo menos, têm ligações directas à CIA. Duas estão ligadas ao capital britânico (The Economist, The Financial Times); uma (Bertelsmann Stiftung) ao capital alemão e aos serviços secretos alemães (BND).
  
Em suma, as fontes do IPC avaliam inescapavelmente os graus de submissão económica dos países ao imperialismo Ianque & C.ª Elas tenderão sempre a considerar como baixa a corrupção de um país submetido às agendas neo-liberais das organizações imperiais: BM, FMI, Comissão Europeia, etc. E sempre considerarão como altamente corruptos os países que se posicionam contra os interesses imperiais, como demonstramos em IV-2.
   
7 – IPC e BCG em desacordo
  
Partindo do princípio que, apesar de tudo, IPC e BCG medem em geral o que dizem medir – no engano de outros as instituições imperiais não estão obrigadas a enganar-se a si próprias em tudo –, seria de aceitar pequenos desacordos entre os dois índices em alguns anos. Mas não é de aceitar que numa análise evolutiva de vários anos as divergências entre os dois sejam significativas.
  
Procedemos a uma análise evolutiva do IPC e BCG para os dados de 2004 a 2012. Não pudemos incluir os dados de 2015-16 pela razão apontada no comentário 4 acima. Os resultados da análise, que explicamos em IV-3, mostram a total falta de correspondência entre o IPC e o BCG, com probabilidade nula de ser devida ao acaso. Isto é, a divergência entre os dois é muito significativa, destruindo a ideia de que ambos medem «níveis de corrupção».
  
Também comparámos o BCG nos vários sectores temáticos de corrupção. Só encontrámos uma concordância significativa entre os sectores público e privado. Isto é, a associação entre a corrupção nos dois sectores é tão clara que, apesar das limitações das amostras e metodologias, ela é detectada. Uma confirmação do que acima dissemos e infirmação de ideias dos «peritos em negócios» de que a corrupção reside no sector público e não, ou quase não, no sector privado.
  
III – As fontes do IPC
  
O Relatório do IPC de 2013 enumera 13 fontes que pontuam o IPC. Alegadamente com base em inquéritos, embora nada de substancial seja dito sobre quantos e quais são os inquiridos. As 13 fontes foram quase todas usadas em anos anteriores e são apresentadas com descrições cheias de «sinergia», «discussão por especialistas» «harmonização e alinhamento», etc. Dizem também dispor de centenas e de milhares de peritos. São descrições destinadas a «esmagar» o leitor com tanta erudição e volume de peritagem, ao mesmo tempo que escondem a natureza e objectivos concretos das instituições, bem como os seus métodos de análise.
 
Note-se que algumas fontes colocam perguntas pertinentes aos inquiridos, como por exemplo «Qual o acesso da sociedade civil à informação dos assuntos públicos» ou «Existem abusos gerais nos recursos públicos?»
  
Outras perguntas denotam a natureza neoliberal da instituição, como esta da Freedom House dos EUA, ligada à CIA: «É o governo livre de regulamentos burocráticos excessivos, requisitos de registo e outros controlos que aumentam as oportunidades de corrupção?». Portanto, nada de regulamentos e controlos estatais porque são eles que aumentam as oportunidades de corrupção! Q. e. d.!
Da mesma instituição vem também esta pergunta que, vinda de onde vem, dá vontade de rir: «Os denunciantes, activistas anti-corrupção e jornalistas gozam de protecção legal que os faz sentir seguros quando reportam casos de suborno e corrupção?». Pois. Haja em vista a «protecção» dos EUA aos denunciantes.
 
Vejamos a verdadeira natureza e objectivos concretos das 13, de facto 12, fontes [3]:
  
1. Banco de Desenvolvimento Africano. Uma agência do BM. Representa multinacionais com interesses na exploração de recursos e mão-de-obra africanos. Usa os critérios do BM para avaliar a «qualidade do quadro institucional de um país [africano] em termos de quão conducente é em fomentar o uso efectivo de assistência no desenvolvimento».
Esta conversa imperial do BM traduz-se assim: quão facilmente um país africano se submete às multinacionais dos EUA, aí implantadas ou a implantar a pretexto de desenvolvimento.

2 e 3. Fundação Bertelsmann. É o ramo americano da alemã Bertelsmann Stiftung fundada por um magnate dos media. Declara-se como fundação privada, «independente e não partidária» acrescentando piedosamente que «As actividades da Fundação são guiadas pelo princípio de que ser proprietário de capital acarreta a obrigação de contribuir para a sociedade»! Uns capitalistas não-capitalistas. Também dizem: «Somos um motor da mudança social. Estamos comprometidos em promover a liberdade dos indivíduos e sociedades, e a compreensão internacional»!
Pontua os países europeus e da OCDE, quanto à «governação sustentável», isto é «Avaliam a necessidade e a capacidade de cada país levar a cabo reformas». Certamente como a defendida pelo nosso ex-presidente Cavaco e o PSD/CDS.
A Bertellsman está ligada aos serviços secretos alemães (BND) e esteve envolvida em, pelo menos, a organização de um putsch na Bielorrússia e a «revolução de Maidan» na Ucrânia onde fundou agora um pólo: o Forum Ucrânia [4].

4. A Unidade de Informação do The Economist. Produz «serviços de informação de negócios» para políticos de todo o mundo. O The Economist é um jornal inglês já antigo, sempre na linha da frente da agenda imperial. Pontua o risco financeiro de 140 países. O que isto tem a ver com corrupção não explicam.
O The Economist está infiltrado pelos serviços secretos britânicos [5].

5. Freedom House (= Casa da Liberdade). Descrita como uma ONG mas, de facto, fundada e apoiada pelo governo dos EUA. Diz ser «uma organização cão-de-guarda [vigilante] independente que apoia a expansão da liberdade em todo o mundo». «Liberdade de Negócio», conforme esclarece o respectivo portal. Diz ainda «apoiar a mudança democrática, monitorar a liberdade e defender a democracia e os direitos humanos».

A Casa da Liberdade é uma importante agência da CIA [6] que esteve envolvida em tudo que há de mais anti-democrático e contra os direitos humanos, em El Salvador, Nicarágua, etc. ; mais recentemente no derrube violento do governo legítimo da Ucrânia, democraticamente eleito segundo os próprios padrões dos EUA-UE.

6. Global Insight (= Perspectiva Global). Uma divisão da IHS (Information Handling Services) Markit Ltd, empresa sediada em Londres ligada à IHS dos EUA, que se apresenta como «uma corporação de informação que emprega mais de 5.100 pessoas em mais de 30 países».
Pontua o «risco de um país» em mais de 200 países. Diz avaliar a corrupção «particularmente na forma como afecta as actividades operacionais dos negócios». Diz ainda que os seus peritos apuram se «de uma perspectiva de negócio a corrupção merece atenção especial no que respeita à obtenção de alvarás e de decisões políticas e de planeamento favoráveis».
Vários artigos da Web sugerem que a IHS tem ligações estreitas com a CIA.

7. IMD World Competitiveness. «… uma escola de topo na área de negócios, qualificada para formar líderes mundiais através de uma educação para executivos de alto impacto». A forma como o Finantial Times aprecia o desempenho da IMD sugere uma ligação a este jornal inglês neoliberal.

8. Consultoria de Risco Político e Económico. Uma firma de serviços de consultoria sobre o risco de negócios em países asiáticos.

9. Internacional de Serviços de Risco Político. Mais uma agência da CIA (declaradamente) que produz pontuações de risco político, económico e financeiro de 140 países. Ganhou proeminência a seguir à Revolução Iraniana, passando a avaliar regularmente o risco para os interesses americanos de mudanças políticas [7].

10. Transparência Internacional. A casa-mãe do CPI que diz ser uma «organização global das sociedades civis» e que contratou em 2011 uma firma para inquirir «100 executivos de negócios de 30 países/territórios diferentes» sobre «suborno e corrupção», através de inquéritos que podiam ser por telefone [8]. Estamos mesmo a imaginar um Ricardo Salgado a ser inquirido por telefone sobre «percepção de suborno e corrupção»! Note-se a pequenez da amostra, da ordem de 3 inquiridos por país! Apesar dessa patente pequenez e do enorme risco de estar a inquirir corruptos sobre corrupção, a TI tem a lata de nos informar que a amostra incluiu corporações de um largo espectro de sectores com uma «sobre-amostragem de grandes corporações e pertencentes a estrangeiros»!

11. Banco Mundial. É uma instituição ao serviço do império, ligada ao FMI, embora com objectivos declarados como diferentes. O objectivo principal do BM é diminuir a pobreza. Em todos os países onde entrou o BM-FMI a desigualdade social e a pobreza aumentaram. A contribuição do BM é na «transparência, responsabilização e corrupção no sector público».
  
12. Fórum Económico Mundial. O organizador dos Encontros de Davos, onde os representantes do grande capital discutem as futuras linhas de orientação de salvação do capitalismo. Contribui para o CPI com inquéritos a executivos.
  
13. Projecto Mundial de Justiça. Esta organização dos EUA foi fundada em 2009 por William H. Neukom, um assessor jurídico de topo da Microsoft. Embora dizendo-se amante do estado de direito, o “Projecto” não se manifestou, p. ex., contra o golpe na Ucrânia. De facto, o «Projecto» é um defensor dos interesses imperiais. Tem como presidente honorário James Baker ligado aos negócios do petróleo e ao ramo da CIA destes negócios. Uma das maiores preocupações actuais do «Projecto» é o investimento dos EUA no Afeganistão [9].
  
IV – Apêndices

1 – A influência da crise

A evolução do IPC e do BCG é adequadamente medida pela inclinação da respectiva recta de regressão (ver figura no final). Dada a escala do IPC (0 = altamente corrupto, 10 = limpo) uma corrupção crescente traduzir-se-á numa inclinação negativa e uma corrupção decrescente numa inclinação positiva.
  
Calculámos e comparámos as inclinações do IPC no período 2000-2008 e 2008-2015 para 16 países de economia desenvolvida. Em princípio o IPC é mais confiável para os países do topo da pirâmide imperial.
  
A tabela da nota mostra os resultados: para 9 dos 16 países a tendência da corrupção revelou um aumento pós-crise: em 4 (Áustria, Japão, Suécia e Suíça) estava a decrescer antes de 2008 e passou a crescer, em dois (Holanda e Espanha) estava a crescer mas passou a crescer mais, em 3 (Bélgica, França e Alemanha) estava a decrescer e passou a decrescer menos.
Sem as insuficiências do IPC a tendência de aumento pós-crise seria quase de certeza mais visível.

2 – Os «peritos» da TI pontuam significativamente pior os países que não se submetem ao Império, do que o «público em geral»

Nesta inferência e seguintes fizemos o seguinte:
-- Convertemos os valores do IPC (0 = altamente corrupto a 100 = limpo) para a escala do BCG (1 = limpo a 5 = altamente corrupto);
-- Tomando em conta as descrições dos inquéritos do BGC, pudemos seleccionar 7 anos para os quais IPC e BCG foram avaliados aproximadamente na mesma altura: 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2010, 2012; conforme vimos acima, os dados de 2015 do BCG não são utilizáveis;
-- Reduzimos as categorias do BCG, que a IT variou ao longo dos anos, às cinco categorias mais estáveis e melhor definidas: sector privado, sector público, política (partidos e parlamento), media e sistema de justiça.
-- Calculámos um BCG agregado como a média dos BCGs das cinco categorias.
  
A tabela da nota 11 mostra o IPC e o BCG de 11 países. Para estes onze países observa-se um total de 47 instâncias de anos com políticas governamentais consideradas hostis aos «interesses americanos». Em 41 dessas 47 instâncias, o IPC foi maior que o BCG agregado. Isto é, os «peritos» da TI disseram nessas 41 instâncias (87% do total) que o país era mais corrupto do que o «barómetro» da opinião agregada do respectivo «público em geral». Este é um resultado altamente significativo, com probabilidade nula de se dever ao acaso.
  
Notar que o Equador quando esteve alinhado com o Império nos anos de 2004 e 2005 teve um IPC igual (em 2005) ou pouco maior (em 2004) que o BCG. Em 2007, logo a seguir a Rafael Correa assumir a presidência, os «peritos» da TI, subitamente, acharam o Equador bem mais corrupto do que o seu «público em geral» (uma subida de 0,6)!

3 - IPC e BGC não acertam

Fizemos o seguinte para os valores de IPC e BGC na mesma escala 1-a-5:
-- Escolhemos os 46 países com mais valores disponíveis nos sete anos já indicados.
-- Calculámos, para esses anos e para cada um dos 46 países, a recta de regressão do IPC e do BCG agregado no período 2004-2012. O valor da inclinação, nas condições dos dados, está sempre no intervalo [-0,503, 0,503] e é uma medida estandardizada da tendência da corrupção: crescente (]0, 0,503]), decrescente ([-0,503, 0[) ou constante (0). Para os 46 países a inclinação variou em [-0,14, 0,11] e o valor absoluto da diferença das inclinações do BCG e IPC em [0, 0,11].
(*) corrupção alegadamente medida pelo IPC e BCG.
  
A tabela da nota 12 mostra as inclinações do IPC e d oBCG agregado, bem como os valores absolutos das diferenças das inclinações (coluna F). Escolhemos 0,15 como limiar de diferença significativa em valor absoluto (0,15 é mais de um décimo da máxima diferença). Com este limiar, 35 dos 46 países (76%) revelam diferença significativa entre o IPC e o BCG agregado. Se tomarmos como limiar 0,25 (mais de um quarto da máxima diferença) ainda assim quase metade dos países (22) revelam diferenças significativas.
 
Uma melhor avaliação da discrepância entre IPC e BCG obtém-se ordenando os valores de cada um deles e atribuindo a cada país os respectivos graus de ordem. Estes graus também são mostrados na tabela. Contamos, depois, o número de vezes que esses graus coincidem, o chamado n.º de «encontros».
Se o IPC e BCG agregado correspondessem entre si de alguma forma, esperaríamos obter um número de encontros muito maior do que o devido ao acaso. A probabilidade de encontros devida ao acaso tem uma fórmula conhecida. Para 46 itens só com 5 ou mais encontros se obtém uma suficientemente baixa probabilidade (menor que 0,003) que leva a rejeitar a hipótese de «devido ao acaso). Por outras palavras, seria necessário 5 ou mais encontros para aceitarmos a existência de uma correspondência
No caso presente obtivemos 2 encontros, com uma muito confortável probabilidade de ocorrerem devido ao acaso: 0,184. Isto é, as coincidências nas ordenações de países pelo IPC e BCG são perfeitamente explicáveis pelo acaso.
Não há qualquer correspondência entre o IPC e BCG agregado.

As conclusões são as mesmas para o IPC e cada um dos BCG sectoriais, incluindo os sectores público e privado em que alegadamente os «peritos» da TI deviam ser fortes. O IPC só tem 2 encontros com o sector privado e com o público apenas… 1 encontro!
  
Note-se, incidentalmente, que o IPC de Portugal pouco aumentou de 2004 a 2012 (0,021) e inclusive baixou no período pós-crise, quando é bem conhecido o enorme aumento pós-crise da grande corrupção do sector privado, incluindo a do sector bancário. O BCG do sector privado de Portugal também não reflecte a situação pós-crise bem conhecida do «público em geral» português.
  
4 - BGC dos sectores público e privado acertam
  
O número de encontros do BCG dos sectores público e privado, calculados como fizemos acima, é significativamente de 6 encontros: probabilidade de 0,001 de se dever ao acaso. Mostra que o «público em geral» e dos países em geral não se engana ao detectar a associação dos dois sectores quanto à corrupção.
Nenhum número de encontros significativos foi encontrado para os 9 restantes pares possíveis dos 5 sectores.
In this and in other cases we see how important trend assessment is. Note that trends are free of the aforementioned difficulties of comparing snapshots across countries.

TI reports include a few mentions on along time changes, but in a simplistic way (of the type “there was an improvement in region X compared with last report”). To be sure, TI data do not easily afford change along time analyses, due to a number of reasons: the “expert sources” change; the measurement scales of CPI and GBC are different (though they didn’t have to); countries assessed in some years are not assessed in other ones; the response categories of the GCB have been changing; and – on top of it all – the 2016 GCB brochure for Europe and Middle East does not provide any measurement at all!
 
TI sated in 2004 (and this statement seems to be still valid judging from its reports): “Can country scores in the CPI 2004 be compared to those in past CPIs? The index primarily provides an annual snapshot of the views of businesspeople and country analysts, with less of a focus on year-to-year trends. ... However, year-to-year changes in a country’s score result not only from a changing perception of a country’s performance but also from a changing sample and methodology.”
TI then mentions the causes of changes: differing sources, respondent samples, and “slightly differing methodologies”.
  
But with all this TI also peremptorily states that “the CPI is a solid measurement tool”.
Leaving aside the fact that the CPI is not a “tool”, if the CPI were a “solid” measurement it would then be very little influenced by differing samples and “slightly differing methodologies”. Briefly, it would “solidly” measure what it is supposed to measure: level of corruption. There would then be no hindrance on its use in trend analyses. In this whole issue TI is contradicting itself.
  
On the other hand, if the CPI is significantly influenced by differing samples and “slightly differing methodologies”, to the point that it cannot be used in year-to-year trend analyses, we need to ask: what does it measure, after all? For what purpose can it be used, this CPI which as a statistical measure significantly depends on the sample and on the methodology?! Adequate scientific methodologies providing statistical measures which are insignificantly influenced by differing samples are known since many years ago. Why the TI “experts” did not use them?
  
5 – The subtle difference between CPI and GBC according to TI
  
TI says about the difference between CPI and GCB: “The CPI aims at assessing levels of corruption across countries, while the Global Corruption Barometer is concerned with attitudes the general public forms vis-à-vis these levels of corruption.”
  
Thus, both the CPI and GCB have to do with “levels of corruption”. If one looks to the GCB data it is also clear that it pertains to levels of corruption “across countries”. Therefore, the difference, according to TI, boils down to the fact that the GCB is concerned “with attitudes the general public forms”. The data shows that the responses of the public refer to thematic assessment of corruption. From the thematic assessment one can always obtain an aggregate assessment. This is precisely what the CPI experts supposedly do. Finally, since what the general public “forms” is a synonym of what the general public “perceives”, where lies, after all, the difference between the CPI and the GCB?
  
The difference rests only on that thing that TI didn’t want to say, though it is pretty clear: the CPI is based on perceptions of experts; the GCB on perceptions of the general public. To say this would clearly be to devalue the “business experts” w.r.t. the “general public”, which is not convenient to those financially supporting TI.    
 
Incidentally, though the TI informs us that the GCB is based on the “general public”, the samples being used are quite small, on the order of 1.000 respondents for large countries (e.g., in US). TI does not say a word on the methodology being used to assure that the samples reflect the “general public”. What is the TI understanding of “general public”? It is not known. Therefore, it is not known the democraticity degree of the GCB. We can only surmise that is more “popular” than the “experts”.
  
6 – The expert sources
  
The CPI sources, as shown below, are overwhelmingly connected to the interests of the American multinationals; in a subsidiary way, to the English and German ones. Four sources, at least, are directly tied to the CIA. Two are linked to the British capital (The Economist, The Financial Times); one (Bertelsmann Stiftung) to the German capital and the German secret services (BND).
  
In short, the CPI sources inescapably assess the degrees of economic submission to the Yankee & Co. imperialism. They will always tend to consider as low the corruption of a country submitted to the neoliberal agendas of the imperial organizations: WB, IMF, European Commission, etc. And they will always consider as high the corruption of those countries standing against the imperial interests, as we demonstrate in IV-2.
  
7 – CPI and GCB do not match
  
Assuming that, despite everything, the CPI and the GCB measure in general what they say they measure – in fooling others the imperial institutions aren’t obliged to fool themselves in everything –, one would be ready to accept minor mismatches of the two indices in a few years. But one cannot accept that in an along time change analysis, comprising several years, there are significant divergences between them.
  
We performed a temporal analysis of the CPI and GCB data from 2004 through 2012. We couldn’t include the 2015-16 data because of the reason pointed in the above comment 4. The analysis is explained in IV-3. The results provided by the analysis show the complete lack of correspondence between the CPI and the GCB, with zero probability of that being due to chance. That is, their divergence is very significant, destroying the idea that both indices measure “levels of corruption”.
 
We also compared the GCB for the several categories of corruption. A significant match was only found between the private and public sectors. That is, the association of the two sectors in terms of corruption is clear enough to be detected in spite of sampling and methodology insufficiencies. This confirms what we said above and goes against the ideas of the “business experts”, that corruption is something of the public sector, and not, or almost not, of the private sector.
  
III – The CPI sources
  
The 2013 CPI report enumerates the 13 sources that score the CPI; they do that allegedly based on surveys, though who and how many are the respondents nothing of substance is said about it. The 13 sources were almost all used in previous years. They are presented with descriptions full with “synergy”, “peer discussion”, “harmonization and alignment”, and so on. They also say that they have at their service hundreds and thousands of experts. These are descriptions intended to “crush” the reader with so much erudition and volume of expertise, at the same time hiding the nature and concrete aims of the institutions, as well as their analytic methods.
   
To be sure, some sources formulate pertinent questions to the respondents, whoever they are, such as “How is the access of civil society to information on public affairs” or “Are there general abuses of public resources?
  
Other questions betray the neoliberal nature of the institution, such as this one from Freedom House, a US institution linked to the CIA: “Is the government free from excessive bureaucratic regulations, registration requirements, and other controls that increase opportunities for corruption?” Thus, no regulations and state controls because they increase opportunities for corruption! Q. e. d.!
Another question also presented by the same institution raises some sort of laughter, if one takes into account the alma mater of the institution: “Do whistleblowers, anti-corruption activists, investigators, and journalists enjoy legal protections that make them feel secure about reporting cases of bribery and corruption? See? Do they mean the protection provided by the US government to the whistleblowers?
  
Let us observe the true nature and concrete aims of the 13, but indeed 12, sources [3]:
 
1. African Development Bank. A WB agency. Represents the multinationals with interests in exploiting African labor power and resources. Uses the WB criteria to assess the “quality of a [African] country’s institutional framework in terms of how conducive it is to fostering the effective use of development assistance.”
The translation of this imperial parlance is: how easily an African country will yield to the US multinationals, already in place or about to be placed, under the development pretext.

2 e 3. Bertelsmann Foundation. The American branch of the German Bertelsmann Stiftung founded by a mogul of the media. Presents itself as a private foundation, “independent and nonpartisan” adding piously that “The Stiftung's activities are guided by the principle that ownership of capital brings an obligation to contribute to society”! Some non-capitalist capitalists. They also say: “We are a driver of social change. We are committed to promoting the freedom of individuals and societies, and international understanding”!
They score the European and OECD countries in what regards “sustainable governance”, that is, they “evaluate each country's need for, and ability to carry out, reform”. Surely as the reform our former president Cavaco and our PSD and CDS right-wing political parties battled for.
The Bertellsman is linked to the German secret services (BND) and was involved in, at least, the organization of a putsch in Belarus and in the “Maidan revolution” in Ukraine, where it has now founded a pole: the Forum Ukraine [4].

4. The Economist Intelligence Unit Produces “business information services” for politicians all around the globe. The Economist is an old English newspaper, always in the frontline of the imperial agenda. The Unit scores the financial risk of 140 countries. What this has to do with corruption is not explained.
The Economist is infiltrated by the British secret services [5].

5. Freedom House. Described as a NGO but, in fact, founded and supported by the US government. Introduces itself as “an independent watchdog organization that supports the expansion of freedom around the world”. “Freedom of Business” as the respective web site clarifies. It also states tat it “supports democratic change, monitors freedom, and advocates for democracy and human rights”.

The Freedom House in an important CIA agency [6] that has been involved in everything of the most anti-democratic and against human rights, in El Salvador, Nicaragua, etc.; more recently, in the violent crush down of the legitimate government of Ukraine, democratically elected according to the US-EU own standards.

6. Global Insight. A division of IHS (Information Handling Services) Markit Ltd. a company based in London, connected to the IHS in USA, which presents itself as “a global information company employing more than 5,100 people in more than 30 countries around the world”.
Scores the “country risk” in more than 200 countries. They say that they assess corruption “particularly as it affects operational activities for businesses”. They also say that their experts assess whether “From a business perspective, corruption is a particular concern in relation to obtaining business permits and favorable policy and planning decisions.”
Several web articles suggest that IHS has close links to the CIA.

7. IMD World Competitiveness. “…a top-ranked business school with expertise in developing global leaders through high-impact executive education.” The way the Finantial Times appraises IMD performance suggests a link to that neoliberal English newspaper.

8. Political and Economic Risk Consultancy. A risk consultancy firm of business risk in Asian countries.

9. Political Risk Services International. One more CIA agency (declaredly) which produces political, economic and financial risk scores of more than 140 countries. Got prominence in the aftermath of the Iranian Revolution, engaging afterwards on regular risk assessments for the American interests resulting from political changes [7].

10. Transparency International. The CPI creator and provider, which states being a “global civil society organization”. TI contracted in 2011 a company to survey 100 “100 business executives from 30 different countries/territories” on “bribery and corruption”, through enquiries that could be done by phone call [8]. Just figure some Ricardo Salgado (a Portuguese banker involved in a huge corruption and fraud affair) being interviewed by phone call on “perception of bribery and corruption”! Worth noticing is the smallness of the sample, of the order of 3 interviewees per country! In spite of this blatant smallness  and the high risk of conducting interviews of corrupt people on corruption, TI has the nerve to inform us that the sample includes corporations of a broad spectrum of sectors with an “an oversampling of large and foreign-owned companies”!

11. World Bank. An institution servicing the empire, connected to the IMF, though with differing declared objectives. The pivot aim of the WB is to reduce poverty. In all countries where the WB-IMF stepped in the social inequality and the poverty have increased. The WB contribution is on the “transparency, accountability and corruption in the public sector.”

12. World Economic Forum. The organizer of the Davos meetings, where the representatives of big capital discuss the future guidelines on the salvation of capitalism. Contributes to the CPI with the “Executive Opinion Survey”.
  
13. World Justice Project. This US organization was founded in 2009 by William H. Neukom, a top juridical consultant of Microsoft. In spite of saying to be a lover of a State of Law, the “Project” did not demonstrate against the coup in Ukraine. In truth, the “Project” is one more defender of the imperial interests. Its honorary chairman is James Baker connected to the oil businesses and to the CIA branch of those businesses. One of the present main worries of the “Project” is the US investment in Afghanistan [9].
  
IV – Appendices
  
1 – The influence of the crisis
  
The change along time of the CPI and the GCB is adequately measured by the slope of the respective regression line (see figure at the bottom). Given the CPI scale (0 = highly corrupt, 10 = clean) an increasing corruption will correspond to a negative slope and a decreasing corruption to a positive slope.
  
We computed and compared the CPI slopes in the periods 2000-2008 and 2008-2015 for 16 countries with developed economy. In principle the CPI is more reliable for the countries on the top of the imperial pyramid.
  
The table of note 11 shows the results: for 9 countries out of the 16 the corruption trend revealed a post-crisis increase: in 4 of them (Austria, Japan, Sweden and Switzerland) it changed from decreasing before 2008 to increasing, in two (Holland and Spain) it was already increasing but changed to a steeper increase, in 3 (Belgium, France and Germany) it was decreasing but changed to a slower decrease.
Were the CPI free of the discussed insufficiencies, the post-crisis increasing trend would almost certainly be more visible.

2 – Compared to the “general public” the TI “experts” score significantly worse those countries that do not yield to the Empire

For this inference and following ones we proceeded this way:
-- We converted the CPI values (0 = highly corrupt to 10 = clean) to the GCB scale (1 = clean to 5 = highly corrupt);
-- Taking into account the descriptions of the GCB surveys, we were able to select 7 years for which the CPI and the GCB were assessed approximately at the same time: 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2010, 2012;  as explained above, the 2015 GCB data are not usable;
-- We restricted the GCB categories, which IT has changed over the years, to the most stable and better defined categories: private sector, public sector, politics (parties and parliament), media, and justice system.
-- We computed an aggregate GCB as the average of the GCB values in the five categories.
 
The table of note 11 shows the CPI and the GCB of 11 countries. For these eleven countries one observes a total of 47 year instances with government policies considered hostile to the “American interests”. In 41 of those 47 instances the CPI was higher than the aggregate GCB. That is, in those 41 instances (87% of the total) the TI “experts” said that the country was more corrupt than the “barometer” of the aggregate opinion of the respective “general public”. This is a highly significant result, with zero probability of being due to chance.
  
Notice that Ecuador had in the years 2004 and 2005 of alignment with the Empire a CPI equal (in 2005) or slightly higher (in 2004) than the GCB. In 2007, just after Rafael Correa became president, the TI “experts”, suddenly, found Ecuador to be quite more corrupt than its “general public” thought. A 0.6 higher CPI!

3 - IPC e BGC do not match

We did the following with the CPI and GCB data in the same 1-to-5 scale:
-- We selected the 46 countries with the most available data in the mentioned seven years.
-- We computed, for those years and for each of the 46 countries, the regression line of the CPI and of the aggregate GCB. The value of this slope, in the conditions of the data, lies always in the [-0.503, 0.503] interval and is a standardized measure of the corruption (*) trend: increasing (]0, 0.503]), decreasing ([-0.503, 0[) and constant (0). For the 46 countries the slope varied in [-0.14, 0.11] and the absolute value of the difference between the GCB slope and the CPI slope in [0, 0.11].
(*) corruption as allegedly measured by the CPI and GCB.
  
The table of note 12 shows the slopes of the CPI and of the aggregate GCB, and also the absolute values of the slope differences (column F). We chose 0.15 as a threshold of a significant difference in absolute value (0.15 is more than one tenth of the maximum difference). With this threshold, 35 of the 46 countries (76%) exhibit a significant difference between the CPI and the aggregate GCB. If we set the threshold to 0.25 (more than a quarter of the maximum difference) still almost half of the countries (22) exhibit significant differences.
  
A better assessment of the discrepancy between CPI and GCB can be obtained by sorting the values of each of the indexes and assigning to each country the corresponding order ranks. These ranks are also shown in the table. We now count the number of times there ranks are coincident, the so-called number of “encounters”.
If the CPI and aggregate GCB had some sort of correspondence, one would expect to obtain a number of encounters much larger than what would be obtained by chance alone. The probability of encounters due to chance has a known formula. For 46 items only with 5 or more encounters does one have a sufficiently low probability (less than 0.003) leading to the rejection of the “chance alone” hypothesis. In other words, one would have to observe 5 or more encounters to accept the existence of a correspondence.
In the present case we obtained 2 encounters, with a very comfortable probability for the “chance alone” hypothesis: 0.184. That is, the country rank coincidences corresponding to the CPI and aggregate GCB are perfectly explained by chance.
There isn’t any correspondence between the CPI and the aggregate GCB.

The same conclusion applies to the CPI with any of the category-based GCB, including the public and private sectors which were allegedly the strong point of the TI “experts”. The CPI has only 2 encounters with the private sector GCB, and with the public sector only… 1 encounter!
  
Let us incidentally notice that the CPI of Portugal has increased very little between 2004 and 2012 (slope = 0.021) and it has even lowered is the post-crisis period, in spite of the fact of the large post-crisis increase of the grand corruption in the private sector, including the banking sector. The private sector GCB of Portugal also does not reflect the post-crisis situation that the Portuguese “general public” knows well.
  
4 – GCB of public and private sectors do match
  
The number of encounters of the GCB of the public and private sectors, computed as we did above, is significantly of 6 encounters with a probability of 0.001 of being due to chance. It shows that the “general public” of the countries in general, does not fail in detecting the association of the two sectors regarding corruption.
No other significant number of encounters was found for the remaining 9 possible pairings of the 5 sectors.


Notas | Notes

  
[2] A TI diz que é desde 2003. Não encontrámos. TI says that the first issue is from 2003. We didn’t find it.
  
[3]
  
  
[5] Calder Walton, Empire of Secrets: British Intelligence, the Cold War, and the Twilight of Empire, Peter Mayer Pub. Inc., 2013.
   
[6] Robert Parry, CIA’s Hidden Hand in ‘Democracy’ Groups, Global Research, January 09, 2015.
   
[7] H.L. Lax, Political Risk in the International Oil and Gas Industry, Kluwer, 1983; CIA - The World Factbook – Belgium February 2007 / Political Risk Yearbook: Belgium Country Report; 2011, preceding pPRI-1.
   
[8] «A Transparência Internacional comissionou um Inquérito a Pagadores de Suborno para um público específico. Trata-se de um inquérito de executivos de negócios em 30 países/territórios em todo o mundo que apura percepções de suborno e corrupção quer no país em causa quer de companhias de outros países com os quais têm negócios. Foi levado a cabo pelo grupo de inquérito IPSOS em 2011. 100 executivos de negócios de 30 países/territórios diferentes foram inquiridos em 2011, por telefone, ou pessoalmente, oi ainda por entrevistas online, sobre o tema do suborno e corrupção. […] A amostra incluía companhias de um largo leque de sectores em cada país/território, com uma sobre-amostragem de grandes companhias e pertencentes a estrangeiros.»
“Transparency International commissioned the tailor-made Bribe Payers Survey. This is a survey of business executives in 30 countries/territories around the world which probes perceptions of bribery and corruption both in their country of operation and by companies from other countries that they do business with. It was conducted by the IPSOS polling group in 2011. 100 business executives from 30 different countries/territories were surveyed in 2011, through phone, face-to-face and online interviews on the subject of bribery and corruption. […] The sample included companies from a broad range of sectors in each country/territory, with an oversampling of large and foreign-owned companies.”
  
[9] H. L. Lax, Political Risk in the International Oil and Gas Industry, Kluwer, 1983.
  
[10] Dada a escala do IPC (0 = altamente corrupto, 10 = limpo) uma corrupção crescente traduzir-se-á numa inclinação negativa e uma corrupção decrescente numa inclinação positiva.
Given the CPI scale (0 = highly corrupt, 10 = clean) an increasing corruption will correspond to a negative slope and a decreasing corruption to a positive slope.
  
In this and following tables a comma is being used instead of the decimal point.


Inclinação do IPC em
CPI slope in
Tendência da corrupção face a 2008
Corruption trend w.r.t. 2008
País
Country
2000-08
2008-15
Decrescia antes
cresceu depois

Ante decrease Post increase
Crescia antes cresceu mais depois
Ante increase
Post stronger increase
Decrescia antes decresceu menos depois
Ante decrease
Post weaker decrease
AUT
0,080
-0,1298
1


BEL
0,108
0,0774


1
DNK
-0,038
-0,0167



FIN
-0,097
-0,0071



FRA
0,090
0,0583


1
DEU
0,072
0,006


1
ITA
-0,017
-0,0155



JPN
0,102
-0,0107
1


LUX
-0,052
-0,0405



NDL
-0,005
-0,0762

1

NOR
-0,063
0,0607



ESP
-0,057
-0,1321

1

SWE
0,003
-0,0798
1


CHE
0,082
-0,0667
1


GBR
-0,067
0,0345



USA
-0,065
0,0286




[11] Os 11 países da tabela são os únicos com atitude bem definida contra o império e com valores simultaneamente para o IPC e o BCG. Os valores a amarelo correspondem a anos de alinhamento com o império. As entradas vazias correspondem a anos em que a TI não apurou valores do BCG para o respectivo país.
The 11 countries on the table are the only ones with well-defined stances against the empire and with values for both the CPI and the GCB. The values in yellow correspond to years of alignment with the empire. The blank entries correspond to years that the TI didn’t assess the GCB for the respective country.

País
Country
BGC agregado
Aggregate GCB

IPC convertido à mesma escala do BCG
CPI converted to the GCB scale
2004
2005
2006
2007
2008
2010
2012

2004
2005
2006
2007
2008
2010
2012
Argentina
3,9
3,9
3,7
3,9
4,0
3,4
3,8
4,0
3,9
3,8
3,8
3,8
3,8
3,3
Belarus




3,3
3,3





4,2
4,0

Bolivia
3,5
3,8
3,6
3,5
3,9
3,7
3,6
4,1
4,0
3,9
3,8
3,8
3,9
3,6
Ecuador
3,9
4,0

3,6



4,0
4,0

4,2



Nepal





2,93
3,84





4,12
3,92
Russia
3,5
3,7
3,7
3,8
3,9
3,5
4,1
4,2
4,2
4,1
4,0
4,0
4,1
3,9
Sri Lanka





2,99
2,75





3,72
3,4
Ukraine
3,9
3,7
3,8
3,8
4,3
3,9
4,1
3,9
4,0
4,0
4,1
4,2
4,2
3,9
Venezuela
4,0
3,4
3,7
3,2
3,9
3,4
4,0
4,1
4,0
3,9
3,9
4,0
4,0
4,0
Vietnam



2,08

2,75
3,11



3,96

3,92
3,72
Zimbabwe





3,66
3,85





4,04
4,2
   
[12]
    
País
Country
A
Inclin. IPC
CPI slope
B
Grau de IPC
CPI rank
C
Inclin. GCB
GBC slope
D
Grau de BCG
GBC rank
E
Encontros
Encounters
F

|A – C|
G

F > 0,015?
ALB
-0,047
38
0,061
3
0
0,108
1
ARG
-0,049
39
-0,028
39
1
0,022
1
BOL
-0,038
35
0,002
31
0
0,040
1
BIH
-0,037
34
-0,012
37
0
0,025
1
BGR
0,021
10
0,006
29
0
0,016
1
CMR
-0,017
26
-0,004
33
0
0,012
0
CAN
-0,009
22
0,018
25
0
0,027
1
HRV
-0,051
40
0,030
14
0
0,081
1
CZE
-0,015
24
0,049
5
0
0,064
1
DNK
0,019
14
0,025
21
0
0,006
0
FIN
0,031
5
0,048
6
0
0,017
1
FRA
0,026
7
0,015
27
0
0,011
0
GEO
-0,139
46
-0,076
45
0
0,063
1
DEU
0,012
19
0,029
16
0
0,017
1
GHA
-0,044
36
0,021
22
0
0,065
1
GRE
0,054
4
0,098
1
0
0,044
1
IND
-0,025
29
-0,008
34
0
0,017
1
IDN
-0,057
42
-0,011
36
0
0,045
1
ISR
0,018
15
0,029
17
0
0,011
0
ITA
0,057
3
0,043
11
0
0,014
0
JPN
-0,031
32
0,045
9
0
0,076
1
KEN
-0,017
27
-0,034
41
0
0,017
1
LTU
-0,025
30
0,020
23
0
0,045
1
LUX
0,013
17
0,065
2
0
0,052
1
MKD
-0,090
45
-0,048
44
0
0,042
1
MYS
0,031
6
0,046
7
0
0,015
1
MEX
0,019
13
0,005
30
0
0,014
0
MDA
-0,034
33
0,019
24
0
0,053
1
NIG
-0,046
37
-0,010
35
0
0,036
1
NOR
0,012
18
0,000
32
0
0,012
0
PAK
-0,025
31
-0,020
38
0
0,005
0
PER
-0,010
23
-0,041
43
0
0,031
1
PHL
-0,021
28
-0,037
42
0
0,016
1
PRT
0,021
11
0,025
20
0
0,005
0
ROU
-0,061
43
0,027
18
0
0,088
1
RUS
0,006
20
0,041
13
0
0,035
1
ZAF
0,020
12
0,041
12
1
0,021
1
KOR
-0,052
41
-0,029
40
0
0,023
1
ESP
0,061
2
0,026
19
0
0,035
1
CHE
0,025
8
0,017
26
0
0,007
0
TWN
-0,015
25
0,045
8
0
0,061
1
TUR
-0,069
44
-0,089
46
0
0,020
1
UKR
0,004
21
0,030
15
0
0,026
1
GBR
0,066
1
0,059
4
0
0,007
0
USA
0,016
16
0,044
10
0
0,028
1
VEN
0,023
9
0,007
28
0
0,016
1