sábado, 24 de junho de 2017

Monopólios | Monopolies

Uma análise cientificamente fundamentada da actual fase do capitalismo – o capitalismo monopolista de Estado (CME) – exige precisar o conceito de monopólio. É este o tema do presente artigo.
*   *   *
Definição de monopólio: entidade económica que concentra e centraliza uma larga massa de capital que lhe permite uma posição de domínio económico e político, e obter assim, por tempo apreciável, uma taxa de lucro acima da taxa de lucro média das entidades não monopolistas do mesmo sector de actividade. ||

Nesta definição há três aspectos a esclarecer:
-- A entidade económica pode apresentar-se sob várias formas concretas, que já descrevemos noutro artigo [1].
-- A concentração e centralização de capital ([1]) não ocorrem por mero capricho ou «sede de poder» dos monopolistas. Elas emergem necessariamente do capitalismo de livre concorrência. Já vimos que é possível provar matematicamente para um modelo de pura e ingénua concorrência, sem intervenção do Estado e sem motivação para acumular e centralizar, que qualquer conjunto de agentes económicos com capitais diferentes converge com o tempo para uma situação monopolista por simples agravamento das diferenças (ainda que inicialmente pequenas) [2]. Mas a concorrência realmente existente exerce uma pressão para a formação de monopólios bem maior que nesse simples e ingénuo modelo matemático. Marx mostrou a necessidade de acumulação de capital na produção capitalista, logo da concentração e centralização de capital, por força das leis coercivas da concorrência [3]. Mostrou também a posição de domínio económico dos monopólios, por via do crédito [4], e em certa medida, o poder político [5]. No imperialismo acentua-se o poder político dos monopólios, devido à super-exploração de nações oprimidas, conforme mostrou Lenine extensamente [6].
-- Por tempo apreciável entende-se um tempo que excede largamente o de um ciclo de negócios (digamos, 8 ± 2 anos). Actualmente, há muitos exemplos de monopólios com uma longevidade de 50 anos e mais [7].
  
Existem três tipos de monopólios conforme o sector de actividade económica: monopólios do sector produtivo [8], do sector financeiro e do sector comercial. Os dois últimos tipos dependem do primeiro – a produção de bens pelo trabalho humano (com a correspondente formação de valor no capitalismo) é a base de toda a economia, e a acumulação capitalista na produção é a pré-condição de todos os monopólios. Mas, ao longo do desenvolvimento capitalista e particularmente no CME, os dois últimos sectores vieram a tornar-se proeminentes face ao primeiro o que denuncia o grau de parasitismo a que chegou o capitalismo.
  
-- Os monopólios do sector produtivo [9] obtêm uma taxa de lucro bastante acima da média das taxas de lucro dos capitais não monopolistas (obtendo assim super-lucros) não estando sujeitos por um tempo apreciável à lei da concorrência: lei tendencial de equalização da taxa de lucro mostrada por Marx, com base na lei do valor. Contudo, as tendências básicas da concorrência não desaparecem, já que o contexto social da produção é mediado pela competição dos inúmeros capitais individuais não monopolistas com a tendência imanente de gerar uma taxa de lucro média e preços de produção médios. Simplesmente, esta tendência é contrariada em certa medida pelo capital monopolista que distorce, assim, as leis da concorrência. Há ainda que ter em conta dois processos que contribuem para diminuir o impacto dos monopólios nas leis da concorrência: a concorrência entre os próprios monopólios: «O monopólio nega a concorrência mas reprodu-la a um novo nível como concorrência monopolística» [10]; o monopólio dura um tempo apreciável mas não é eterno -- constantemente há capitais monopolistas que perdem essa qualidade (impacto de crises, falências, perda de mercados, divisões, etc.).
  
Assim, a teoria marxista dos monopólios bem como a teoria leninista do imperialismo e do CME, assentam no fundamento teórico sólido da lei do valor. A essência do capitalismo em todos os seus estádios de desenvolvimento permanece a mesma e não mudou nem mudará quer pelo facto de haver monopólios quer por intervenção do Estado.
  
Para além da super-exploração imperialista que já tratámos noutros artigos, existem vários meios pelos quais os monopólios do sector produtivo obtêm super-lucros devido ao domínio económico [11]: melhores condições de financiamento por ligações estreitas aos monopólios do sector financeiro, com acesso a créditos vultuosos em condições mais favoráveis que as PMEs; domínio de mercados de matérias-primas e meios de produção; melhor acesso a novas tecnologias (muitos monopólios têm os seus próprios centros de I&D) e a processos de produção economicamente mais favoráveis; facilidade de aquisição de pequenas firmas pioneiras de produtos inovadores; maior capacidade de expansão, através de melhores estudos de mercado, publicidade e diferenciação de produtos; capacidade de arruinar PMEs concorrentes, através de bloqueamento de fornecimentos e de créditos, bem como de baixas temporárias de preços (dumping) [12]; maior capacidade de atrair e fidelizar clientes bem como de contratar o pessoal técnico melhor habilitado (engenheiros e economistas).
  
-- O sector comercial vive da apropriação de parte do valor produzido no sector produtivo. Para além dos meios de obtenção de super-lucros já mencionados para o sector produtivo, os monopólios do sector comercial obtêm super-lucros impondo, através do seu domínio de mercados, baixos preços de aquisição de produtos a associações de pequenos e médios produtores, a campanhas de dumping de preços e à super-exploração da produção em outsourcing [13].
  
-- O sector financeiro vive da concessão de crédito aos outros sectores e da especulação financeira – apostas sobre títulos de propriedade da produção futura [14]. Para além da super-exploração imperialista, os monopólios do sector financeiro obtêm super-lucros através da hegemonização sobre os outros sectores (dependentes do crédito), o controlo de grandes fundos especulativos, o controlo de fundos sociais e estatais com o consequente domínio político que daí advém, e a definição e imposição de regras de crédito à sociedade em geral.

O domínio político dos monopólios exerce-se de vários modos, nomeadamente: contratos com o Estado para desenvolvimento e produção de armamento, independentemente do fornecimento ou não! [15]; contratos com o Estado para construção de infra-estruturas, sempre em termos favoráveis aos monopólios; financiamento de partidos políticos burgueses e respectivas campanhas eleitorais; interligação dos monopólios com órgãos estatais e governamentais, através de agentes seus nessas órgãos, definindo e aplicando directivas favoráveis aos monopólios; formação de grupos políticos de influenciamento e pressão sobre governos, em particular através de confederações patronais; articulação com governos e instituições supranacionais para defender e conduzir políticas imperialistas, violentas ou não violentas, que sustentem a super-exploração capitalista; articulação com governos para reduzir impostos dos monopólios e fechar os olhos aos vários meios de evasão fiscal, descarregando o financiamento do Estado sobre as classes trabalhadoras e estratos da burguesia não monopolista; articulação com governos para propocionar as melhores condições de exploração do trabalho (baixos salários, cortes de direitos).
  
É claro que todos estes (e outros) meios têm como objectivo central a perpetuação do CME, logo a perpetuação da oligarquia monopolista que controla o globo.

Todos os monopólios, independentemente do sector e da área de negócio, estão interligados entre si através das chamadas redes corporativas. Já vimos isso em [1] no que se refere à interligação proprietária através de controlo de capital (controlo accionista). Mas a interligação monopolista não é só a nível de capital, mas também a nível de membros de conselhos de administração (direcção): interligação directorial. Os poucos estudos que encontrámos sobre o tema são bem elucidativos sobre o montante de interligações directoriais (membro da direcção de A é também membro da direcção de B). Limitamo-nos aqui a alguns resultados: em meados dos anos noventa existiam elevadas percentagens de interligações em cinco países europeus (DEU, GBR, FRA, CHE, NLD), que atingiam 236% na Alemanha (1456 interligações em 616 grandes firmas), bem como de interligações de monopólios do sector financeiro com outros (86% na Holanda) [16]; o número de interligações nos EUA em 1999-2003 crescia com a dimensão do monopólio [17]; no Citigroup dos EUA em 2005, 13 dos 15 membros da direcção eram também membros de direcções de 25 monopólios, e o monopólio de produtos de consumo Sara Lee tinha uma direcção de 10 membros ligados a 31 «grandes companhias», estas por sua vez interligadas a 297 [18].
   
As leis burguesas não admitem que membros do governo sejam membros de grupos privados. Essa disposição é, contudo, uma débil folha de parra para enganar o povinho. Todos os dias há escândalos de favorecimento a grupos privados por membros de governos burgueses, que ficam largamente impunes. Por outro lado, mesmo sem escândalos, há evidências do que se passa atrás dos bastidores. O estudo [18] revela vários membros de administrações americanas que quando deixaram o cargo oficial se tornaram membros de direcções de corporações; certamente, como recompensa de bons serviços gerais aos monopólios enquanto agentes governamentais e bons (ou mesmo excelentes) serviços específicos às corporações que logo depois os contrataram para altos cargos. Exemplos disso abundam. Também em Portugal. A ex-ministra das Finanças (2013-2015), enquanto ministra, ocultou o «buraco» do Banif; logo que deixou o cargo o “buraco” foi revelado pelo novo governo, mas ela alegou «desconhecimento»; foi, porém, contratada para alto cargo na Arrow Global, uma grande corporação que lucrou bastante com a compra de crédito mal-parado ao Banif... É claro que a justificação da Arrow foi a de sempre: qualidades ímpares da nova contratada!
  
No CME a promiscuidade entre monopólios e governos burgueses é absoluta.
A scientifically grounded analysis of the present stage of capitalism – the State monopoly capitalism (SMC) – demands a precise concept of monopoly. This is the topic of the present article.
*   *   *
Definition of monopoly: economic entity concentrating and centralizing a large mass of capital which allows it a position of economic and politic domination, thus obtaining during a considerable time a rate of profit above the average rate of profit of the non-monopolist entities in the same sector of activity. ||

Three aspects in this definition  need clarification:
-- The economic entity may appear under several concrete forms, which we have already described elsewhere [1].
-- The concentration and centralization of capital ([1]) do not occur by mere whim or “thirst for power” of the monopolists. They emerge as a necessity out of the capitalism of free competition. We already saw that it is possible to mathematically prove  for a model of pure and naive competition, without State intervention and without motivation to accumulate and centralize, that any assembly of economic agents with differing capitals will converge along time towards a monopolist situation by the mere escalation of the differences (though initially small) [2]. However, the real-world competition exerts a pressure towards monopoly formation far larger than in that simple and naive mathematical model. Marx has shown the necessity of capital accumulation in the capitalist production, and thereby of capital concentration and centralization, under the influence of the coercive laws of competition [3]. He also showed the position of economic domination of monopolies, mediated by the role of credit [4], and to a certain extent the political power [5]. Imperialism intensifies the political power of monopolies, linked to the super-exploitation of oppressed nations, as extensively shown by Lenin [6].
-- By considerable time is understood a period of time largely exceeding the duration of a business cycle (say, 8 ± 2 years). There are, presently, many examples of monopolies with a lifetime of 50 years and more [7].
  
There are three main types of monopolies according to the sector of economic activity: monopolies of the productive sector [8], of the financial sector and of the commercial sector. The last two types depend of the first one – the production of goods by human labor (and corresponding formation of value in the capitalist system) is the basis of the whole economy, and the capitalist accumulation in the production the pre-condition of all monopolies. Yet, the capitalist development and particularly the SMC, led the last two sectors to prominence over the first one, which denounces the degree of parasitism attained by capitalism.
  
-- The monopolies of the productive sector [9] achieve a rate of profit well above the average of the rates of profit of the non-monopolist capitals (thus pocketing super-profits) without being subject for a considerable time to the law of competition: the tendential law of equalization of rate of profit shown by Marx with basis on the law of value. Nevertheless, the basic tendencies of the competition do not disappear, since the social context of the production is mediated by the competition of countless individual capitals, with the immanent tendency to produce the average rate of profit and average production prices. Such tendency is simply blocked to a certain extent by the monopolist capital, which thus distorts the laws of competition. One has also to take into account two processes which contribute to decreasing the impact of monopolies in the laws of competition: the competition among the monopolies themselves: "The monopoly negates the competition but it reproduces it on a new stage as monopolistic competition" [10]; though the monopoly lasts for a considerable time it is not eternal – there are constantly monopolist which cease having that quality (impact of crises, bankrupts, loss of markets, divisions, etc.).
  
Briefly, the Marxist theory of monopolies as well as the Leninist theory of imperialism and of SMC is grounded in the solid theoretical foundation of the law of value. The essence of capitalism in all its periods of development remains the same and has neither changed or will change by the monopoly, nor by the intervention of the State.
  
In addition to imperialist super-exploitation which we discussed in other articles, there are other means through which the monopolies of the productive sector obtain super-profits due to economic domination [11]: better financing conditions given their close ties to the monopolies o the financial sector, with access to voluminous credits with more favorable conditions than the SMEs; domination of markets of raw-materials and means of production; better access to new technologies (many monopolies have their own R&D centres) and to more economically favorable processes of production; facility in purchasing small pioneer firms in innovating products; better capacity of expansion, through better studies of markets, advertisement and differentiation of products; capability to ruin competitor SMEs, by blocking supplies and credits and by temporary price dumping [12]; better capability to attract and retain customers, and also to contract the better endowed technical personnel (engineers and economists).
  
-- The commercial sector feeds itself on the appropriation of part of the value produced by the productive sector. Besides the means of achieving super-profits already mentioned for the productive sector, the monopolies of the commercial sector obtain super-profits by imposing low prices, through their market domination, in the purchase of goods from associations of small and medium producers, by campaigns of price dumping, and through the super-exploitation of production in outsourcing [13].
  
-- The financial sector thrives on the concession of credit to the other sectors and on the financial speculation – bets on ownership titles of future production [14]. Besides the imperialist super-exploitation, the monopolies of the financial sector obtain super-profits through the hegemonization over the other, credit-dependent, sectors, the control of large speculative funds, the control of social and state funds with the consequent political domination derived from that, and the definition and imposition of credit regulations to the society in general.

The political domination of monopolies is exercised in several ways, namely: contracts with the State for the development and production of armaments, independently of their being supplied or not! [15]; contracts with the State for the construction of infrastructures, always in terms favorable to the monopolies; financing of bourgeois political parties and their respective electoral campaigns; interlocking of monopolies with state and governmental organs, through their agents in those organs, defining and applying directives favorable to the monopolies; formation of lobbying political groups to influence and pressurize governments, namely through  confederations of employers; liaisons with governments and supranational  institutions to defend and conduct imperialist policies, violent and non-violent, in support of capitalist super-exploitation; liaisons with governments to reduce monopoly taxation and closing the eyes to the various ways of fiscal evasion, discharging the financing of the State on the shoulders of the working classes and strata of non-monopolist bourgeoisie; liaisons with governments in order to provide for the best conditions of labor exploitation (low wages, cuts on labor rights).
  
The pivotal objective of all these (and other) means is, of course, the perpetuation of the SMC, and thereby the perpetuation of the monopolist oligarchy which controls the globe.

All monopolies, independently of their sector and branch of business, are linked among them through the so-called corporate networks. We saw that already in [1] as regards the proprietary interlocking through control of capital (stock control). But more than that, monopolist interlocking is not only at capital level but also at the level of board of directors: directorate interlocking. The few studies we found out on this topic are quite enlightening on the volume of directorate interlocks (a member of the board of A is also a member of the board of B). We will limit ourselves here to a few results: high percentages of interlocks did exist in five European countries (DEU, GBR, FRA, CHE, NLD) in the middle of the nineties, reaching 236% in Germany (1456 interlocks in 616 big firms), and also of monopolies of the financial sector with others (86% in Holland) [16]; the number of interlocks in the USA in the period 1999-2003 grew with the size of the monopoly [17]; 13 of 15 members of the 2005 board of directors of the US Citigroup were also members of directions of 25 monopolies, and the monopoly of consumer products Sara Lee had 10 members in the board of directors, all linked to 31 “large companies”, and these on their turn to 297 [18].
  
The bourgeois laws do not allow members of governments being members of private groups. Such regulation is, however, a weak fig leaf destined to fool the common people. Every day pop up scandals of governmental members having favored private groups, which fade down with large impunity. On the other hand, even without scandals, there are evidences of what goes on behind the curtains. The study [18] reveals several members of American administrations who became members of corporate directorates as soon as they left the respective official charge; certainly, as reward for good services to the overall monopolies in their position of governmental officers, and good (or even outstanding) specific services to the corporations wasting no time to contract them afterwards to high positions. Examples of this abound. Also in Portugal. The former Minister of Finances (2013-2015), during her term as Minister, concealed the “hole” in the bank Banif; when she left the office the “hole” was revealed by the new government but she alleged “lack of knowledge”; she was, however, contracted to a high position in the Arrow Global a large corporation which got a handsome profit with the purchase of non-performing loans from Banif... To be sure, Arrow’s justification was the standard one: unique qualities of the new employee!
  
The promiscuity between monopolies and governments in the SMC is absolute.

Notes and References
[3] Em O Capital encontram-se explicações e demonstrações deste tema. Cingimo-nos aqui a curtas citações do vol. I:
Adopção de novas tecnologias: «A lei da determinação do valor pelo tempo de trabalho, que leva o capitalista individual a aplicar um novo método de produção, ao compeli-lo a vender os seus produtos abaixo do seu valor social esta mesma lei age como lei coerciva da concorrência, forçando os seus concorrentes a adoptar o novo método.» (cap.12)
Concorrência-acumulação: «... cada capitalista individual sente as leis imanentes da produção capitalista, como leis coercivas externas, através da concorrência. Esta compele-o a constantemente expandir o capital com vista a preservá-lo, mas só pode expandi-lo por meio da acumulação gradual.» (cap. 24, sec. 3)
Acumulação-concentração: «Todo o capital individual é uma maior ou menor concentração de meios de produção... Toda a acumulação torna-se o meio de nova acumulação. Com a crescente massa de riqueza que funciona como capital a acumulação aumenta a concentração dessa riqueza nas mãos de capitalistas individuais, dessa forma alargando a base de produção em maior escala e em métodos específicos da produção capitalista.» (cap. 25, sec. 2)
Centralização: «… Esta última [atracção de capitais individuais] não significa a simples concentração de meios de produção... É concentração de capitais já formados, a destruição da sua independência individual, expropriação de capitalista por capitalista, transformação de muitos pequenos em poucos grandes capitais. Este processo difere do anterior na medida em que só pressupõe uma mudança de distribuição de capitais já existentes e a operar... Isto é propriamente centralização, distinta da acumulação e concentração.» (cap. 25, sec. 2)
One finds in Capital explanations and demonstrations of this topic. We’ll limit ourselves to a few citations from vol. I:
Adoption of new technologies: “The law of the determination of value by labour-time, a law which brings under its sway the individual capitalist who applies the new method of production, by compelling him to sell his goods under their social value, this same law, acting as a coercive law of competition, forces his competitors to adopt the new method.” (ch. 12)
Competition-accumulation: “… competition makes the immanent laws of capitalist production to be felt by each individual capitalist, as external coercive laws. It compels him to keep constantly extending his capital, in order to preserve it, but extend it he cannot, except by means of progressive accumulation.” (ch. 24 sect. 3)
Accumulation-concentration: “Every individual capital is a larger or smaller concentration of means of production, with a corresponding command over a larger or smaller labour-army. Every accumulation becomes the means of new accumulation. With the increasing mass of wealth which functions as capital, accumulation increases the concentration of that wealth in the hands of individual capitalists, and thereby widens the basis of production on a large scale and of the specific methods of capitalist production.” (ch. 25, sect. 2)
Centralization (our italics): “…This last [attraction of individual capitals] does not mean simple concentration of the means of production... It is concentration of capitals already formed, destruction of their individual independence, expropriation of capitalist by capitalist, transformation of many small into few large capitals. This process differs from the former in this, that it only presupposes a change in the distribution of capital already to hand, and functioning... This is centralisation proper, as distinct from accumulation and concentration. ” (ch. 25, sect. 2)
[4] Ibid.: «A batalha da concorrência trava-se com o embaratecimento dos bens produzidos. Este embaratecimento exige, caeteris paribus, a produtividade do trabalho e também a escala da produção. Por isso, os maiores capitais vencem os mais pequenos... [Estes] povoam os sectores de produção de que a indústria moderna só esporadicamente ou incompletamente se apropriou. Aí a sanha da concorrência é em proporção directa do número e inversa das grandezas... Termina sempre pela ruína de muitos pequenos capitalistas, cujos capitais em parte passam para as mãos dos seus conquistadores, e noutra parte desaparecem. Para além disso... uma força inteiramente diferente intervém – o sistema de crédito que nos estádios iniciais rasteja furtivamente como humilde assistente da acumulação...; mas cedo se torna uma nova e terrível arma na batalha da concorrência e se transforma finalmente num enorme mecanismo social de centralização de capitais.» (cap. 25, sec. 2)
Ibid.: “The battle of competition is fought by cheapening of commodities. The cheapness of commodities demands, caeteris paribus, on the productiveness of labour, and this again on the scale of production. Therefore, the larger capitals beat the smaller… [These] crowd into spheres of production which modern industry has only sporadically or incompletely got hold of. Here competition rages in direct proportion to the number, and in inverse proportion to the magnitudes... It always ends in the ruin of many small capitalists, whose capitals partly pass into the hands of their conquerors, partly vanish. Apart from this... an altogether new force comes into play – the credit system, which in its first stages furtively creeps in as the humble assistant of accumulation…; but it soon becomes a new and terrible weapon in the battle of competition and is finally transformed into an enormous social mechanism for the centralisation of capitals.” (ch. 25, sect. 2)
[5] Ibid.: «Alguns sectores de produção exigem, logo no início da produção capitalista, um mínimo de capital que ainda não está disponível em simples indivíduos. Isto origina em parte os subsídios estatais a pessoas privadas, como em França no tempo de Clobber, e em muitos estados alemães até ao presente a formação de companhias com o monopólio legal de exploração de certaos ramos de indústria e comércio, precursores das modernas sociedades anónimas.» (cap. 11)
Ibid.: “Certain spheres of production demand, even at the very outset of capitalist production, a minimum of capital that is not as yet found in the hands of single individuals. This gives rise partly to state subsidies to private persons, as in France in the time of Clobber, and as in many German states up to our own epoch, partly to the formation of societies with legal monopoly for the exploitation of certain branches of industry and commerce, the forerunners of our modern joint stock companies.(ch. 11)
[6] V.I. Lenine, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (1916) | V.I. Lenin, Imperialism the Highest Stage of Capitalism (1916).
[7] Datas de fundação de algumas companhias que cedo se tornaram monopólios até hoje | Foundation dates of some companies which soon became monopolies until today: Barclays: 1896, Krupp: 1903, IBM: 1911, Corticeira Amorim (cork products): 1952, WalMart: 1962.
[8] Sector produtivo: actividades económicas em que há formação de valor pelo trabalho humano: agricultura e pescas, indústrias extractivas, indústrias transformadoras, construção, produção de energia, tratamento de água, transportes de mercadorias.
Productive sector: economic activities where there is formation of value by human labour: agriculture and fisheries, mining and quarrying, manufactures, construction, production of energy, water treatment, transport of commodities.
[9] Sobre a teoria dos monopólios do sector produtivo, ver | On the theory of monopolies of the productive sector, see: Jörg Huffschmid, Begründung und Bedeutung des Monopolbegriffs in der marxistischen politischen Ökonomie (Fundaments and Meaning of the Concept of Monopoly in Marxist Political Economy). In: Zur Theorie des Monopols. Staat und Monopole (I), Argument-Sonderbande AS 6, Argument-Verlag GmbH, Berlin, 1975, pp. 4-92; Elmar Altvater, Wertgesetz und Monopolmacht (Law of Value and Monopoly Power). Ibid., pp. 129-198.
[10] Citação em | Citation in: Elmar Altvater, Wertgesetz und Monopolmacht, de | from Horst Heininger, Peter Hess, Die Aktualität der Leninschen Imperialismuskritik, Frankfurt/M. 1970.
[11] Existe abundante literatura sobre domínio monopolista. Seguimos aqui dois clássicos | There is an abundant literature on monopolistic domination. We follow here two classics: Eugen Varga, Politico-Economic Problems of Capitalism, Progress Pubs, Moscow, 1968; Paul Baran, Paul Sweezy, Monopoly Capital, Pelican Books, 1975.
[12] Estas práticas podem ser combinadas por acordos entre monopólios da mesma área de negócio. Tais acordos frequentemente também distribuem mercados e definem outras matérias.
These practices can result from agreements among monopolies of the same business area. Such agreements often comprise a distribution of markets and understandings on other matters.
[14] Ver a série de artigos sobre especulação financeira que publicámos, em particular o artigo Jogos com derivados (5). Ver também a revisão de T. Le Corre do livro de Durand, C., Le capital fictive: comment la finance s’approprie notre avenir, Paris, 2015.
See the series of articles on financial speculation posted by us, particularly the article Jogos com derivados (5). See also the review by T. Le Corre of the book: Durand, C., Le capital fictive: comment la finance s’approprie notre avenir, Paris, 2015.
[15] Há vários casos em que um novo armamento é desenvolvido mas já está obsoleto quando pronto a ser produzido. O respectivo monopólio nada sofre quanto a isso. Os lucros dos monopólios armamentistas são sempre garantidos e colossais.
There are several cases of a new weapon being developed but becoming obsolete when it is ready to be mass produced. The respective monopoly suffers no losses with that. The profits of the armament monopolies are always assured and colossal.
[16] Paul Windolf, Corporate Networks in Europe and United States, Oxford University Press, 2002.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Solidariedade com a luta do povo brasileiro, JÁ!



Solidarity with the struggle of the Brazilian people, NOW! (see below)

As notícias que nos chegam do Brasil são preocupantes.

Ontem, as muitas dezenas de milhares de trabalhadores de todas as centrais sindicais, de estudantes e outro povo, na manifestação pacífica em Brasília que reclamavam “Fora Temer!” e “Eleições Directas Já!” foram duramente carregadas, por tropa de choque, cavalaria, polícia disparando bombas de gás lacrimogéneo, disparos de balas, bastonadas e finalmente o Temer convocou o exército... para repor a ordem em Brasília.

O golpista Michel Temer é neste momento um homem completamente desacreditado por provas indubitáveis de alta corrupção ligada a grandes companhias brasileiras. A tal ponto que até a rede noticiaria do regime, a Globo, teve de reconhecer isso mesmo. Mas Michel Temer e sua camarilha neoliberal aliada aos EUA quer esmagar por todas as formas as lutas populares, retirar todos os magros direitos que os anteriores governos Lula-Dilma concederam.

A luta vai continuar mas nota-se um desejo de Temer e camarilha aprovarem todas as leis anti-povo mesmo com os protestos, e não parecem pôr fora de hipótese passar o controlo da situação para os militares...

A ameaça de ditadura militar, com ou sem fachada “democrática”, paira sobre o Brasil.

É urgente a solidariedade com a luta do povo brasileiro! É necessário que por toda a parte se convoquem manifestações e outras iniciativas de solidariedade de sindicatos e partidos progressistas!

E deverá ser feito agora. Amanhã pode ser demasiado tarde.

Fora com o golpista e corrupto anti-povo Temer!
Eleições directas no Brasil, JÁ!

Solidarity with the struggle of the Brazilian people, NOW!

The news arriving us from Brazil are alarming.

Yesterday, tens and tens of thousands of workers of all trade-unions, of students, and other people, in a peaceful demonstration in Brasília demanding “Out with Temer!” and “Direct Elections Now!” were harshly charged by shock troops, cavalry, police shooting tear-gas grenades, real ammunition shootings, savage beatings, and if it wasn’t enough Temer called up the army… to restore order in Brasilia.

The coup enforcer Michel Temer is presently a totally discredited man, because of hard evidence of high corruption related to big Brazilian corporations. This became so patent that even the news network of the regime, the Globo, had to recognize that. But Temer and his neoliberal cronies allied to the US want to crush any and every form of popular struggle, to withdraw all meagre rights granted by the previous Lula-Dilma governments.

The struggle will keep on, but the desire of Temer and his cronies to approve all anti-people laws even with the protests is clearly seen, and they do not discard passing over the control of the situation to the military…

The threat of a military dictatorship, with or without a “democratic” façade hangs over Brazil.

The expression of solidarity with the Brazilian people is an urgent task! It is necessary to call up everywhere demonstrations and other initiatives of solidarity from trade-unions and progressive parties!

And it should be now. Tomorrow is perhaps too late.

Out with the coup plotter and corrupt anti-people Temer!
Direct elections in Brazil, NOW!

sábado, 20 de maio de 2017

A Super-Exploração na Produção Emigrada




A Super-Exploração na Produção Emigrada | The Super-Exploitation in the Emigrated Production


O Fenómeno
Evolução do fenómeno
O que o fenómeno significa
Notas finais
The phenomenon
How the phenomenon progressed
The meaning of the phenomenon
Final remarks

 


O Fenómeno
  
A super-exploração dos trabalhadores imigrantes, que analisámos num artigo anterior, é só uma das formas de super-exploração do actual capitalismo monopolista de Estado. Outra é a que tem lugar em países de baixos salários através do chamado outsourcing (externalização, terceirização): contrato estabelecido por uma transnacional (TNC) com empresas de países de baixos salários para a produção de bens ou serviços que requerem trabalho intensivo não qualificado [1]. A TNC retém o controlo e gestão do processo bem como tarefas de trabalho qualificado.
  
O recente e importante livro do economista John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century (Imperialismo no Séc. XXI ) [2] e um artigo do mesmo autor [3] analisam este tema de forma detalhada e bem fundamentada. Iremos socorrer-nos destes trabalhos na nossa apresentação, incluindo citações.
  
John Smith começa por apresentar no seu livro o exemplo da T-shirt feita no Bangladesh (BGD) vendida por 4,95 € na Alemanha pela TNC sueca de comércio a retalho Hennes & Mauritz (H&M). (O exemplo provém do economista Tony Norfield [4].) A H&M paga 1,35 € ao produtor do Bangladesh, em outsourcing, e é esse valor que aparece no PIB do Bangladesh; 6 ȼ por T-shirt são gastos no transporte para Hamburgo; os restantes 3,54 € são contabilizados no PIB alemão. A cadeia de valor é a seguinte:
The phenomenon
  
The super-exploitation of immigrant workers, analyzed in our previous article, is only one of the ways through which today’s State monopoly capitalism carries out super-exploitation. Another one takes place in low-wage countries through the so-called outsourcing (externalization): a contract established by a transnational (TNC) with firms of low-wage countries for the production of goods or services requiring unskilled intensive labor [1]. The TNC retains the control and management of the process, and skilled labor tasks as well.
  
The recent and important book of the economist John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century [2], and an article by the same author [3] analyze this subject in a well-grounded and detailed manner. We will take assistance from these works for our presentation, including quotations.
  
John Smith begins by presenting in his book the example of the T-shirt produced in Bangladesh (BGD) sold by €4.95 in Germany by the Swedish TNC of retail commerce Hennes & Mauritz (H&M). (The example is from the economist Tony Norfield [4].) H&M pays €1.35 to the outsource manufacturer in Bangladesh, and this value will figure in the GDP of Bangladesh; 6 ȼ per T-shirt are spent in the transport to Hamburg; the remaining €3.54 are accounted for in the German GDP. The chain of value is shown below.
(A comma is used instead of the decimal point.)


Item: T-Shirt (H&M)
% do preço a retalho
% of retail price
Valor que fica no Bangladesh pago pela H&M
Value retained in Bangladesh paid by H&M
1,35
27,3
-- Algodão (comprado aos EUA) | Cotton (bought from the US)
0,40
8,1
-- Proprietário da fábrica, trabalhadores, fornecedores de serviços, governo do BGD | Factory owner, workers, suppliers of services, BGD government
0,95
19,2
Custo de transporte | Shipping cost (*)
0,06
  1,2
Valor que fica na Alemanha | Value retained in Germany
3,54
71,5
--Transportadores alemães, grossistas, retalhistas, publicistas, etc. | German transporters, wholesalers, retailers, advertisers, etc.
2,00
40,4
-- Lucro da H&M | H&M profit
0,60
12,1
-- Retenção do Estado alemão (IVA 19%) | German State capture (VAT 19%)
0,94
19,0
Preço de retalho na Alemanha | Retail price in Germany
4,95
100,0
(*) Operador não revelado | undisclosed operator.

   
Portanto: o valor retido na Alemanha é 2,6 vezes maior do que o retido no Bangladesh; a H&M tem um lucro bastante bom mas que não se compara com o valor capturado pelo Estado alemão, já que a somar ao IVA há impostos de salários e sobre lucros da H&M e de fornecedores de vários serviços. O lucro da fábrica do Bangladesh é menor que o da H&M; dos 95 cêntimos há que subtrair imposto (33ȼ), salários, custos de energia, custos de materiais para além do algodão, depreciação de maquinaria e outros itens.
    
Os 95 cêntimos retidos no Bangladesh incluem o custo do trabalho. Qual é esse custo?
Segundo as melhores estimativas [4], é de 2 a 3 cêntimos: 0,4 a 0,6 % do preço de retalho!
Uma operária da fábrica do Bangladesh ganha 1,36 €/dia, trabalha 10 a 12 horas/dia (13,6 a 11,3 ȼ/hora), e a máquina que opera produz 250 T-shirts/hora; logo, 2.500 a 3.000 T-shirts/dia. Cada T-shirt incorpora, portanto, entre 0,045 a 0,054 cêntimos da sua força de trabalho, ou seja, um milésimo do preço final na Alemanha. O salário mínimo por hora na Alemanha em Dezembro de 2016 era de 8,84 € [5], 65 a 78 vezes maior que o da operária do Bangladesh.
  
Notar:
-- A fábrica do Bangladesh não é uma subsidiária da H&M. A H&M não tem títulos de propriedade sobre a fábrica. Esta e a H&M são «indepen-dentes»; a relação entre elas é dita «à distância».
-- O lucro da H&M parece resultar de uma actividade própria de valor acrescentado, e os super-explorados trabalhadores do BGD parecem não ter contribuído em nada para esse valor.
-- A contabilização de valor nos PIBs do Bangladesh e alemão é bastante artificial.
   
John Smith cita a seguinte passagem de um relatório da consultora McKinsey & Co. dos EUA sobre outsourcing no Bangladesh [2]: «o nível competitivo de preços [no BGD] é claramente a vantagem principal -- todos os CPOs [Chief  Purchasing Officers, Directores de Compras] que participaram no estudo apontaram o preço atractivo como a primeira e principal razão para comprar no Bangladesh». John Smith comenta ironicamente: «O preço que os CPOs acham tão atractivo é, de facto, o preço da força de trabalho, mas a McKinsey & Co. não querendo ofender as sensibilidades dos seus clientes de grandes negócios não mencionam os baixos salários em nenhuma parte do seu estudo».
  
A super-exploração dos operários do Bangladesh não se limita aos baixos salários. A fim de satisfazer as exigências das TNCs os patrões do Bangladesh, em feroz concorrência, procuram por todos os meios baixar o mais possível os custos de produção e extrair o máximo de mais-valia: o trabalho decorre em regime quase prisional; as disposições sanitárias e de segurança são infringidas impunemente, dado que muitos patrões têm os seus representantes no governo e relações com políticos e polícia; os activistas sindicais são agredidos, postos em listas negras e sujeitos a prisão arbitrária; os esquálidos edifícios das fábricas constituem ratoeiras mortais. Acidentes de trabalho e desastres ocorrem com frequência. Em Abril de 2013 ruiu em Daca um edifício de oito andares com várias fábricas têxteis. Morreram 1.133 operários e ficaram feridos 2.500, num dos maiores desastres laborais da história. No dia anterior tinham surgido grandes fendas estruturais no edifício; uma inspecção recomendou o seu fecho, mas na manhã seguinte ordenaram centenas de trabalhadores a voltar ao trabalho sob ameaça de despedimento.
  
O caso do Bangladesh não é único. O operariado de outros países de baixos salários também é super-explorado pelas TNCs da Europa, América do Norte, Japão, etc. E não se trata apenas de T-shirts. É também em sectores de alta tecnologia como automóveis, iPhones e laptops. Diz assim John Smith: «Os produtos da Apple, Dell, Motorola, e outras companhias dos EUA, Europa, Coreia do Sul e Japão -- qualquer coisa como 40% da electrónica de consumo mundial, segundo o New York Times -- são montados pela FoxConn, a maior subsidiária da Hon Hai Precision Industries sediada em Taiwan. O seu complexo de 14 fábricas em Shenzhen no Sul da China tornou-se famoso pela sua dimensão e pelos 14 suicídios dos seus trabalhadores em 2010; também pelas débeis mostras de preocupação da gestão, ao colocar redes para apanhar os trabalhadores que saltassem das janelas dos dormitórios».
  
Baixos salários e trabalho intenso em más condições são, na China como no Bangladesh, um atractivo para o outsourcing das TNCs. Em 2008 o custo total de produção do iPhone era de 178,96 US$ e era vendido a 500 US$; o trabalho dos operários chineses incorporado num iPhone correspondia a 6,5 US$, cerca de 3,6% do custo de fabrico e 1,3% do preço de retalho.
  
A China de hoje tem grandes TNCs privadas, como a gigante Alibaba do comércio retalhista e electrónico. A Alibaba oferece serviços a outras empresas, incluindo estrangeiras, para encontrar fornecedores chineses em outsourcing; disponibiliza a outros (mediante comissão) informação sobre os seus fornecedores com vista a escolher «parceiros fornecedores em outsourcing». Assim, a chinesa Alibaba associa-se a outros, incluindo os EUA, na super-exploração do proletariado chinês. A Alibaba tem 24 subsidiárias, mas só 3 no estrangeiro (duas nos EUA e uma em Singapura); estas, certamente não por razões de baixos salários. A Alibaba tem fartura disso em casa.
   
Encontram-se exemplos de outsourcing em países que verificam duas condições: são sede de TNCs com operações volumosas de trabalho intensivo e estão no topo em termos de salário mínimo, sendo fácil encontrar países com muito menor salário mínimo e condições laboriais precárias para onde externalizar a produção de bens e serviços [6]. Esses países têm «economias desenvolvidas» e situam-se no topo da pirâmide imperialista. Por exemplo, a Austrália e Israel satisfazem essas duas condições. E, efectivamente, encontramos aí exemplos de outsourcing. Em Julho de 2016 a Telstra da Austrália cortou 326 empregos de um call center deslocalizando-o para as Filipinas, onde já externaliza outras operações. A Delta-Galil Industries de Israel, uma grande companhia do sector de vestuário, tem fornecedores em outsourcing na Jordânia e Egipto.
  
Portugal também produziu e ainda produz em outsourcing bens de consumo como confecções e calçado, para grupos estrangeiros que exploram os nossos baixos salários e precariedade de emprego [7]. No calçado, só recentemente se regista uma tendência de libertação do capital estrangeiro, com registo de marcas próprias e fabrico de calçado específico. A libertação do capital estrangeiro acontece em grande medida porque os capitalistas portugueses são pressionados nesse sentido, pois os grupos estrangeiros, perante a melhoria salarial portuguesa e a luta contra a precariedade -- ambas consequência da luta forte e unida dos sindicatos --, deslocam a produção de Portugal total ou parcialmente para países de mais baixos salários. Um exemplo: O grupo dinamarquês ECCO, de produção e comércio retalhista de calçado, estabeleceu a sua primeira fábrica em outsourcing em Portugal em 1982, numa altura em que o salário mínimo dinamarquês era 14 vezes maior que o português [8]; durante muitos anos a fábrica portuguesa era a única em outsourcing da ECCO mantendo esta na Dinamarca um centro de I&D; em 2009 (a seguir à crise) a ECCO moveu o seu centro de I&D para Portugal e abriu fábricas em outsourcing na Eslováquia, Indonésia, Tailândia e China. Em 2009 o salário mínimo dinamarquês era inferior a 5,7 vezes o português [8].
   
Note-se que o outsourcing de produtos de alta tecnologia não traz, em geral, qualquer benefício em termos de desenvolvimento tecnológico ao país de baixos salários, ao contrário do que apregoam os porta-vozes do capitalismo. Um estudo de 2002 da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvi-mento) é esclarecedor (citado em [2]): «As taxas de crescimento das exportações dos países em desenvolvimento excedem em muito as das exportações mundiais por uma margem tanto maior quanto maior é a aptidão e intensidade tecnológica… contudo, isso não significa uma melhoria tecnológica rápida e sustentada das exportações dos países em desenvolvimento… A participação dos países em desenvolvimento é geralmente limitada aos estádios de trabalho intensivo do processo de produção».
   
Evolução do fenómeno
   
O outsourcing da produção industrial a nível global teve início nos anos de 1960-1970 por pressão das grandes cadeias de supermercados dos EUA e Europa Ocidental: Tesco (GBR), Walmart (USA), Aldi (DEU), Albert Heijn (NLD), Carrefour (FRA), etc. Os monopólios comerciais ganharam proeminência sobre os produtores industriais. Em vez dos últimos ditarem os preços como antes acontecia, passaram os comerciais a impor preços aos industriais. Esta pressão sobre as manufacturas levou-as a externalizar processos produtivos de trabalho intensivo, uma vez esgotadas as possibilidades domésticas de exploração do trabalho. Inicialmente foram externalizados o fabrico de brinquedos, confecções e calçado.
  
O outsourcing cresceu a partir da «crise do petróleo». Um gráfico com dados da UNCTAD sobre a fracção das «nações em desenvolvi-mento» nas exportações mundiais de bens manufacturados [2] mostra que, enquanto no período 1955-1975 essa fracção se manteve em torno de 6%, passou a partir de 1975 a crescer da ordem de cerca de 1% ao ano, atingindo 42% em 2012.
   
Cada vez mais os «países desenvolvidos» -- do «Norte» -- importam bens manufacturados dos «países em desenvolvimento» -- do «Sul». (Sobre estas designações, ver [9].) Dados da UNCTAD (ver [2]) mostram que os EUA têm tido uma importação crescente de bens manufacturados desde 1965, ao ritmo de cerca de 1%/ano, atingindo 56% do total de importações em 2012. O ritmo de crescimento do Japão é ainda maior, atingindo 70% do total de importações em 2012.
   
O outsourcing aumentou depois da crise de 2008. John Smith apresenta o exemplo da indústria automóvel dos EUA. Em 1995 os EUA importavam do Canadá quatro vezes mais valor acrescentado, relativo à indústria automóvel, do que do México. Em 2005 ainda importavam 10% mais do Canadá do que do México. Em 2009 a situação inverteu-se: o México tornou-se a fonte de 48% mais valor acrescentado que o Canadá. Vimos também acima o exemplo da ECCO.
   
Enquanto o volume de mão-de-obra industrial nas «países em desenvolvimento» tem crescido constante e enormemente, de 100 para 540 milhões entre 1965 e 2010, o mesmo não aconteceu nos «países desenvolvidos», onde cresceu moderadamente de 120 para 200 milhões entre 1950 e 1985, decrescendo depois para 140 milhões em 2010 [2].
   
O comércio mundial depende cada vez mais da força laboral das «regiões menos desenvol-vidas». A UNCTAD estimou em 2013 que «cerca de 80% do comércio mundial… está ligado às redes internacionais de produção das corporações transnacionais», quer como Inves-timento Estrangeiro Directo (IED) «da casa- mãe» -- o processo de produção é deslocado para subsidiárias ligadas à sede que controla todo o processo de produção e detém todos os lucros --, quer em relações «à distância» entre a «firma líder» e os seus fornecedores só formalmente independentes: estão obrigados contratualmente a produzir em condições técnicas e económicas definidas pelo «líder», embora retenham uma parte, geralmente pequena, dos lucros.
   
Cada vez mais a produção emigrada é feita «à distância», o que levou inclusive a uma redefinição de TNC: «firma que tem o poder de coordenar e controlar operações em mais de um país, mesmo se não detém a sua propriedade» [10]. As razões porque as TNCs preferem o outsourcing «à distância», são as seguintes [2]:
   
1) «[F]orçar os produtores externos a intensa competição entre si é um meio mais eficiente de fazer baixar os salários e intensificar o trabalho, do que fazê-lo por subsidiárias através de gestores nomeados».
   
2) Externalizar «à distância» significa mãos limpas: «a firma que externaliza não externaliza apenas o risco comercial e o baixo valor acrescentado do processo produtivo; externaliza também a responsabilidade directa pela poluição, salários de miséria e supressão de sindicatos» [11].
  
3) Permite às TNCs «descartar-se de muitos dos custos e riscos associados às flutuações cíclicas na procura com largas perturbações nos mercados mundiais».
   
4) Dado que a externalização «à distância» não envolve fluxos «Norte-Sul» de capitais e activos, liberta fundos para investimento em mercados financeiros para financiar especulação e concentração de capital (através de aquisições e recompra de acções) alimentando a financialização das economias imperialistas.
   
O que o fenómeno significa
   
«A globalização da produção e a sua deslocalização para países de baixos salários é a alteração mais significativa e mais dinâmica da era neoliberal. A sua principal força impul-sionadora é o que alguns economistas chamam “arbitragem do trabalho global”» [2]. A «arbi-tragem» em economia significa obter vantagem de diferenças de preços em mercados distintos: comprar barato aqui para vender caro acolá. É usado, p. ex., no comércio de divisas. No capitalismo a força de trabalho é uma mercadoria vendida em mercados laborais. Na «arbitragem do trabalho global» trabalhadores de altos salários aqui são substituído por trabalhadores de qualidade semelhante e baixos salários acolá, com o «aqui» e «acolá» correspondendo a mercados laborais distintos.
  
Substituir força de trabalho cara aqui por força de trabalho barata acolá, ou de acolá, «é conseguido ou por emigração da produção (“outsourcing” como entendido aqui) ou por imigração dos trabalhadores» ([2], itálicos nossos). 
   
A imigração do trabalho e a emigração da produção são os dois métodos que o actual Capitalismo Monopolista de Estado utiliza para obter super-lucros e perpetuar o sistema. A lógica capitalista dos dois métodos é a mesma: super-exploração do trabalho. Na primeira, são os trabalhadores que vêm ao Estado dos monopólios e formam «colónias internas». Na segunda, são os capitalistas do Estado dos monopólios que descem às «colónias externas».
  
A própria «UNCTAD avisou em 2004 que as ZPEs [Zonas de Processamento de Exportações. Zonas especiais em outsourcing dos países não desenvolvidos] manufactureiras estavam a reproduzir formas coloniais de “crescimento de enclaves” com “um sector relativamente rico de exportação de bens, bem ligado a estradas, portos, e apoiado por serviços auxiliares, existindo lado a lado com um interior subdesenvolvido onde vive a maioria da população”» (citado de [2], itálicos nossos).
  
Marx já tinha considerado em O Capital a possibilidade da super-exploração, isto é de um salário inferior ao valor da força de trabalho, mas não dedicou muita atenção a isso por ser na sua época uma situação excepcional. Lenine expôs claramente os mecanismos de opressão imperiais através do IED mas não os relacionou com a teoria do valor de Marx. «Até à primeira década do séc. XXI quer os analistas convencionais [burgueses] quer os marxistas tenderam, como observou William Milberg, “a ver a globalização na óptica do investimento estrangeiro directo”» [2].
  
Quando Lenine escreveu sobre o imperialismo, nomeadamente num Prefácio de 1920 à sua obra Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (escrito em 1916), refere-se às receitas proporcionadas pelas exportações de capital nestes termos: «… gigantesco super-lucro (visto ser obtido para além do lucro que os capitalistas extraem aos operários do seu «próprio» país». Não está a considerar nesses super-lucros a super-exploração do trabalho barato [12], mas a captura de mais-valias através de empréstimos bancários cobrando juros usurários e com cláusulas de aquisição de bens produzidos nas metrópoles [13] ou, no caso do IED, da aquisição de materiais específicos para construção de infra-estruturas no estrangeiro (p. ex., vias férreas) [13].
  
«[O economista] Andy Higginbottom explica porque razão Lenine atribuía tanta importância a isto: com a sua ênfase na exportação de capital como característica do novo estádio, Lenine identificou um ponto de partida vital para aprofundar a análise… A exportação de capital significa que tem de haver um novo tipo de relação capital-trabalho, entre o capital do Norte e o trabalho do Sul, significa a exportação da relação capital-trabalho sob condições de opressão nacional» [2].
  
A óptica do IED foi ultrapassada pelo outsourcing na fase actual do imperialismo. Conforme afirma Andy Higginbottom em The Third Form of Surplus Value Increase [15]: «A super-exploração é uma condição específica dentro do modo de produção capitalista… a essência oculta e comum que define imperialismo. A classe trabalhadora das nações oprimidas/Terceiro Mundo/Sul Global é sistematicamente paga abaixo do valor da força de trabalho da classe trabalhadora das nações opressoras/Primeiro Mundo/Norte Global. Isto não porque a classe trabalhadora do Sul produz menos valor, mas sim porque é mais oprimida e mais explorada» (itálicos nossos).
   
Note-se que esta definição de super-exploração é na sua essência a mesma que apresentámos na nossa análise da super-exploração dos trabalhadores imigrantes.
  
Há várias razões porque a classe operária do «Sul» é mais oprimida, é a presa do imperialismo: os respectivos países chegaram mais tarde ao capitalismo e chegaram por via da exploração colonial ou semi-colonial que instalou as condições de sujeição económicas e políticas propícias à reprodução da sujeição uma vez alcançada a independência; os modos de produção nesses países, antes do ascenso ao capitalismo, assentavam na agricultura como fonte quase exclusiva de rendimento; o desenvolvimento capitalista dependeu dos colonizadores e criou burguesias locais em situação de dependência; esse desenvolvimento disponibiizou enormes massas de camponeses na miséria e analfabetos, que migraram para as cidades onde enfrentaram altas taxas de desemprego tornando-se presa fácil das burguesias locais; os países opressores tudo fizeram (e fazem) para manter nesses países uma burguesia dependente, vitalmente interessada em manter baixos salários e baixos custos de condições de trabalho, bem como opressão política dirigida contra as organizações laborais.
    
Quando em certas cidades ou regiões as condições laborais melhoram, devido às lutas e fortalecimento das organizações laborais, o outsourcing das TNCs desloca-se para regiões mais favoráveis à super-exploração. É o que está a acontecer na China com a deslocação de outsourcing para regiões rurais do interior.
  
Notas finais
-- A super-exploração imperialista por outsourcing não significa que a super-exploração imperialista «tradicional» -- saque de recursos naturais e IED -- não continue. Ela continua bem viva! [16]
   
-- É a super-exploração de centenas de milhões de trabalhadores do «Sul global» (bem como dos trabalhadores imigrantes) que alimentam os lucros das TNCs, sustentam o consumismo insustentável dos países imperialistas, inúmeros serviços em prol do capitalismo (publicidade, segurança, call-centers, etc.) mantêm a azáfama dos brilhantes centros comerciais do Norte, e as respectivas classes operárias em relativa apatia [17].
   
-- As «economias desenvolvidas» são «desenvolvidas» à custa do brutal subdesenvolvimento dos outros. É bem sabido que a desigualdade entre países atingiu níveis inauditos.
   
-- É a super-exploração das centenas de milhões de trabalhadores do «Sul global» (bem como dos trabalhadores imigrantes) que, em grande parte, permitem aos governos imperiais (através do IVA sobre bens de consumo fabricados no «Sul», IRC, taxas aduaneiras, etc.) financiar benefícios sociais, órgãos de repressão e guerras. (Lembrar o exemplo da T-shirt.) Benefícios sociais que, ainda que a encolher, acalmaram até agora os trabalhadores de muitos países do «Norte», levaram os sindicatos do «Norte» a esquecer os do «Sul» e a fazer reinar uma fachada de hipocrisia «Nortenha»» [18].
   
-- É a pilhagem de recursos do «Sul» e a super-exploração das centenas de milhões dos seus trabalhadores que permitem níveis espantosos de especulações financeiras que não são mais que jogos de casino baseados em títulos de propriedade sobre futuros recursos a pilhar e sobre bens a produzir no futuro, em ambos os casos no «Sul».
   
-- Apesar do enorme revés que representou para a luta libertadora dos povos oprimidos o colapso da URSS e de outros países socialistas, apesar da marcha da China para o imperialismo, a pilhagem de recursos e a super-exploração do «Sul» têm os dias contados. Aí se formarão constantemente «elos mais fracos» que se rebelarão contra o imperialismo. Quando essas rebeliões se consolidarem em regimes socialistas e se acumularem em escala significativa, uma mudança dialéctica irá inevitavelmente ocorrer. Nessa altura os sinos não tocarão dobres a finados apenas para a super-exploração do trabalho do «Sul»; tocarão também para os da exploração do trabalho do «Norte».
Thus: the value retained in Germany is 2.6 times greater than what is retained in Bangladesh;  H&M has a quite good profit, though dwarfed by the value captured by the German State, since in addition to VAT there are taxes on wages, on H&M profits and on suppliers of various services.
The factory profit in Bangladesh is smaller than the one of H&M, since from the 95 cents are subtracted taxes (33ȼ), wages, energy costs, costs of materials besides cotton, machinery depreciation and other items.
  
The labor cost is comprised in the 95 cents retained in Bangladesh. What is that cost?
According to the best estimates [4], it is from 2 to 3 cents: 0.4 to 0.6 % of the retail price!
A worker of the Bangladesh factory earns 1.36 €/day, works 10 to 12 hours/day (13.6 to 11.3 ȼ/hour), and the machine she operates produces 250 T-shirts/hour; i.e., 2.500 a 3.000 T-shirts/day. Therefore, each T-shirt embodies between 0.045 to 0.054 cents of her labor power, which amounts to one thousandth of the final price in Germany. The minimum hourly wage in Germany was €8.84 in December 2016 [5], 65 to 78 times higher than the one of the Bangladesh worker.
  
Notice that:
-- The Bangladesh factory is not a subsidiary of H&M. H&M has no ownership titles on the factory. H&M and the factory are “independent”; their relation is at “arm’s length”.
-- The H&M profit appears to be the result of its own value added activity, whereas the super-exploited workers of BGD appear as not having made any contribution to that value.
-- The value accounting in the Bangladesh and in the German GDPs is quite artificial.
   
John Smith cites the following excerpt of a report by the US-based consultancy company McKinsey & Co. as concerns the outsourcing in Bangladesh [2]: “competitive price level [of Bangladesh] is clearly the prime advantage -- all CPOs [Chief  Purchasing Officers] participating in the study named price attractiveness as the first and foremost reason for purchasing in Bangladesh.” John Smith comments this excerpt with irony: “The price that CPOs find so attractive, of course, is the price of labor-power, but McKinsey & Co., not wishing to offend the sensibilities of their big business clients, make no mention of low wages anywhere in their study.”
  
The super-exploitation of the workers of Bangladesh is not confined to low wages. In order to satisfy the demands of the TNCs the Bangladesh bosses, operating under fierce competition, strive to lower production costs in any way they can, and to extract the maximum of surplus value: labor takes place in an almost penitentiary regime; health and security regulations are violated with impunity, because many of the bosses have representatives in the government and relations with politicians and the police; trade-union activists are beaten down, placed in black lists and subject to arbitrary jailing; the rickety factory buildings constitute death-traps. Labor accidents and disasters at the workplace are a frequent occurrence. In April 2013 an eight-storey building housing several textile factories collapsed in Dhaka. This was one of the biggest labor disasters in the history, which caused the death of 1.133 workers and injured 2.500. The day before, cracks had opened up in the building’s structure and an inspection recommended its closing, but next morning thousands of workers were ordered back to work on pain of dismissal.
  
The case of Bangladesh is not an isolated one. The working class of other low wages countries is also super-exploited by the TNCs of Europe, North America, Japan, etc. And not only with respect to T-shirts. Also in high technology sectors, such as autos, iPhones and laptops. John Smith exemplifies: “Apple’s products, and those of Dell, Motorola, and other U.S., European, South Korean, and Japanese companies -- an estimated 40 percent of the world’s consumer electronics, according to the New York Times -- are assembled by FoxConn, the major subsidiary of Taiwan-based Hon Hai Precision Industries. Its complex of fourteen factories at Shenzhen in southern China became famous both for its sheer size and for the fourteen suicides among its workers in 2010 – and for the management’s ham-fisted attempts to show its concern, by erecting nets to catch workers jumping from dormitory windows”.
  
In China as in Bangladesh low wages and intense work in bad conditions are attractive features for TNC outsourcing. In 2008 the total production cost of the iPhone was US$ 178.96 and it was sold at US$ 500; the work of the Chinese workers embodied in an iPhone amounted to US$ 6.5, which was about 3.6% of the production cost and 1.3% of the retail price.
  
There are huge private TNCs in today’s China, such as the giant Alibaba of e-commerce and retail commerce. Alibaba offers services to other firms, including foreign ones, so they can find Chinese suppliers for outsourcing; makes available to others (on a commission payment) information about its suppliers having in view the selection of “outsourcing partner suppliers”. This way, the Chinese Alibaba associates itself with others, including the USA, in the super-exploitation of the Chinese proletariat. Alibaba has 24 subsidiaries, but only 3 are located abroad (two in the USA and one in Singapore); these 3, to be sure, not on grounds of lower wages. Alibaba has plenty low wage at home.
   
Examples of externalization are found in countries verifying two conditions: they are headquarters of TNCs with voluminous labor-intensive operations, and they are placed at the top in terms of minimum wage, being then easy to find countries with much lower wages and precarious labor conditions where to offshore production of goods or services [6]. Such countries have “developed economies” and occupy the top of the imperialist pyramid. For instance, Australia and Israel satisfy these two conditions. And, indeed, we find in these countries examples of outsourcing. In July 2016 Telstra of Australia cut 326 employments of a call-center, externalizing it to the Phillipines where it already outsources other operations. The Delta-Galil Industries of Israel, a large company of the garment sector, has outsourced suppliers in Jordan and Egypt.
   
Portugal has also produced and still produces consumer goods in outsourcing, such as garments and shoes, to foreign groups exploring Portuguese low wages and labor precariousness [7]. As regards the shoe industry, it is only recently that a tendency toward freeing up from foreign capital is observed, with the registration of own brands and the manufacture of specific types of shoes. This freeing up from foreign constraints occurs largely because the Portuguese capitalists are pressured in that direction, since the foreign groups, facing the wage improvement and the fight against precariousness in Portugal -- both a consequence of the strong and united trade union struggles --, displace totally or partially the production in Portugal to lower wage countries. An example: ECCO, a Danish shoe manufacturer and retailer group, established its first factory in outsourcing in Portugal in 1982; this was at a time the Danish minimum wage was 14 times higher than the one of Portugal [8]; during many years the Portuguese factory was the only one ECCO had in outsourcing; ECCO maintained in Denmark an R&D centre. In 2009 (just after the crisis onset) ECCO moved its R&D centre to Portugal and opened factories in outsourcing in Slovakia, Indonesia, Thailand and China. In 2009 the Danish minimum wage was below 5.7 times the Portuguese one [8].
   
Let us note that the outsourcing of high technology products doesn’t bring along with it, in general, any benefit to the low-wage countries in terms of technological development, contrary to what the mouthpieces of capitalism proclaim. A 2002 study by UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development) is clear on this (cited in [2]): “Strikingly, the growth rates of exports from developing countries exceed those of world exports by a higher margin the greater is the skill and technology intensity of the product category… however, this does not signify a rapid and sustained technological upgrading in the exports of developing countries… The involvement of developing countries is usually limited to the labor-intensive stages in the production process.”
   
How the phenomenon progressed
   
The outsourcing of industrial production at a global level began in the years 1960-1970, under the pressure of the large chains of hypermarkets of US and Western Europe: Tesco (GBR), Walmart (USA), Aldi (DEU), Albert Heijn (NLD), Carrefour (FRA), etc. The commercial monopolies conquered the upper hand over the industrial producers. Instead of the latter dictating the prices as had previously happened, the commercial capitalists became the price enforcers to the industrial ones. This pressure over the manufactures led them to outsource labor-intensive production processes, once the domestic possibilities of labor exploitation were exhausted. Initially, were outsourced the manufactures of toys, garments, and shoes.
  
Production offshoring started growing after the “oil crisis”. A chart based on UNCTAD data on the share of the “developing nations” in the world exports of manufactured goods [2] shows that, whereas in the period from 1955 to 1975 that share stood around 6%, it started growing after 1975 at a rate of about 1% per year, rising to 42% in 2012.
   
The “developed countries” – of the “North” – are increasingly importing manufactured goods from the “developing countries” – of the “South”. (As regards these designations see [9].) The respective data from UNCTAD (see [2]) show that USA has increasingly imported manufactured goods since 1965, at a rate of about 1%/year, reaching 56% of the total imports in 2012. The growth rate of Japan is even higher, reaching 70% of the total imports in 2012.
   
Production offshoring increased after the 2008 crisis. John Smith presents the example of the US automobile industry. In 1995 US imported four times as much automobile-related value added from Canada as it did from Mexico. In 2005 US still imported 10% more from Canada than from Mexico. In 2009 the situation was reversed: Mexico became the source of 48% more value-added than Canada. We have also seen above the example of ECCO.
   
Whereas the global industrial workforce of the “developing countries” has increased steadily and enormously, from 100 to 540 millions between 1965 and 2010, the same did not happen in the “developed countries”, where it grew moderately from 120 to 200 millions between 1950 and 1985, and then decreased to 140 millions in 2010 [2].
   
The world trade depends more and more on the workforce of the “less developed regions”. UNCTAD  estimated in 2013 that “about 80 per cent of global tradeis linked to the international production networks of transnational corporations”, either as “in-house” Foreign Direct Investment (FDI) -- the production process is offshored to subsidiaries attached to the headquarter, which controls the whole production process and detains the profits --, or as “arm’s-length” relations between “lead firms” and their formally independent suppliers; formally, because they are legally bound by contract to produce in technical and economical conditions defined by the “leader”, though they retain a share, usually small, of the  profits.
   
The emigrated production is increasingly done at “arm’s length”, and this even led to a redefinition of TNC: “a firm that has the power to coordinate and control operations in more than one country, even if it does not own them.” [10]. The reasons why TNCs prefer “arm’s length” outsourcing are the following ones [2]:
   
1) “[F]orcing outsourced producers into intense competition with one another is a more effective way of driving down wages and intensifying labor than doing so in-house through appointed managers.”
   
2) “Arm’s length” outsourcing means hands clean: “the outsourcing firm externalizes not only commercial risk and low value-added production processes, it also externalizes direct responsibility for pollution, poverty wages, and suppression of trade unions [11].
   
3) It allows TNCs “to offload many of the costs and risks associated with cyclical fluctuations in demand and with much larger disruptions in world markets.”
   
4) Since “arm’s length” outsourcing does not involve “North-South” flows of capitals and assets, it releases funds to be invested in financial markets to finance speculation and concentration of capital (through acquisitions and share buyback), feeding the financialization of the imperialist economies.
   
The meaning of the phenomenon
   
“The globalization of production and its shift to low-wage countries is the most significant and dynamic transformation of the neoliberal era. Its fundamental driving force is what some economists call ‘global labor arbitrage’.” [2] “Arbitrage” in economics means obtaining advantage from differences of prices in distinct markets: buying cheap here in order to sell expensive there. It is used, e.g., in forex trading. In capitalism labor power is a commodity traded in labor markets. In “global labor arbitrage” workers with high wages here are replaced by workers of similar quality and low wages there, with the “here” and “there” corresponding to distinct labor markets.
   
The replacement of expensive labor power here by cheap labor power there, or from there, is “achieved either through emigration of production (“outsourcing,” as used here) or through immigration of workers” ([2], our italics). 
   
The immigration of labor and the emigration of production are the two methods that today’s State Monopoly Capitalism utilizes in order to obtain super-profits and perpetuate the system. The capitalist rationale of the two methods is the same: super-exploitation of labor. In the first method, the workers come to the State of the monopolies where they form “internal colonies”. In the second method, the capitalists of the State of the monopolies who go down to the “external colonies”.
    
Note that even “UNCTAD warned in 2004 that the manufacturing EPZs [Export Processing Zones] were reproducing colonial forms of ‘enclave-led growth’ in which ‘a relatively rich commodity-exporting sector, well connected to roads, ports and supported by ancillary services, exist side by side with large undeveloped hinterlands where the majority of the population live’.” (Cited from [2], our italics.)
  
Marx had already considered in Capital the possibility of super-exploitation; that is, of a wage below the value of the labor power, but he did not pay much attention to it because it was in his time an exceptional occurrence. Lenin clearly described the contraptions of imperial oppression through FDI, but did not relate them to Marx’s theory of value. “Until the first decade of the twenty-first century, both mainstream [bourgeois] and Marxist analysts tended, as William Milberg observed, ‘to see globalization through a foreign direct investment lens.’” [2].
  
When Lenin wrote about imperialism, namely in a Preface dating from 1920 to his work Imperialism, the Highest Stage of Capitalism (written in 1916) he refers to revenues coming from capital exports in this way: “… enormous super-profits (since they are obtained over and above the profits which capitalists squeeze out of the workers of their “own” country)…” He is not considering super-exploitation of cheap labor [12] in the super-profits, but the capture of surpluses  through bank loans charging usurer interests  and with clauses of acquisition of goods produced in the metropolises [13] or, in the case of FDI, the acquisition of specific materials for infrastructure construction abroad  (e.g., railways) [14].
   
“[The economist] Andy Higginbottom explains why Lenin attached such importance to this: with his emphasis on the export of capital as a characteristic of the new stage, Lenin has already identified a vital starting point from which to deepen the analysis… The export of capital means that there must be a new type of capital-labour relation, between Northern capital and Southern labour, it means the export of the capital-labour relation under terms of national oppression.” [2]
  
The FDI optics was outpaced by outsourcing in the present stage of imperialism. The economist Andy Higginbottom states in The Third Form of Surplus Value Increase [15] (our italics): “Super-exploitation is a specific condition within the capitalist mode of production… the hidden common essence defining imperialism. The working class of the oppressed nations/Third World/Global South is systematically paid below the value of labor power of the working class of the oppressor nations/First world/Global North. This is not because the Southern working class produces less value, but because it is more oppressed and more exploited.”
   
Note that this definition of super-exploitation is in its essence the same we have presented in our analysis of the super-exploitation of the immigrant workers.
   
There are several reasons why the working class of the “South” is more oppressed, i.e., fell prey of imperialism: the respective countries arrived later to capitalism and arrived under colonial or semi-colonial exploitation which installed the economical and political subjection conditions conducive to the reproduction of the subjection once independence was achieved; the modes of production of those countries, before the rise to capitalism, were based on agriculture as the almost unique source of income; the capitalist development depended on the colonists and created local bourgeoisies in a dependent situation; the said development availed huge masses of peasants living in misery and illiterate, which migrated to the towns where they faced high rates of unemployment and became easy prey of the local bourgeoisies; the oppressing countries have done everything (and still do everything they can) to maintain in those countries a dependent bourgeoisie, vitally interested in maintaining low wages and low costs of the working conditions, accompanied by political oppression targeted against labor organizations.
   
When labor conditions improve in certain towns or regions, due to the struggle and strengthening of worker organizations, the TNC outsourcing is displaced to regions more favorable to super-exploitation. This is just happening in China with the displacement of outsourcing to rural regions of the hinterland.
  
Final remarks
  
-- Imperialist super-exploitation through outsourcing doesn’t mean that “traditional” imperialist super-exploitation – viz. plundering of natural resources and FDI – has stopped. It goes on very much alive! [16]
   
-- It is the super-exploitation of hundred of millions of workers from the “Global South” (and from immigrant workers as well) which feed up the TNC profits, sustaining an unsustainable consumerism in the imperialist countries, a multitude of services for the support of capitalism (advertisement, security, call-centers, etc.), maintain the bustling of the shining Northern commercial malls, and the respective working classes in relative apathy [17].
   
-- The “developed economies” are “developed” at the cost of the appalling underdevelopment of others. Is a well-known fact that the inequality among countries has raised to astonishing levels.
   
-- It is the super-exploitation of hundred of millions of workers from the “Global South” (and from immigrant workers as well) which, in large measure allow the imperial governments (through VAT over consumer goods produced in the “South”, corporate taxes, customs taxes, etc.) finance social benefits, repression bodies and wars. (Recall the example of the T-shirt.) Social benefits which albeit shrinking have until now appeased the workers of many countries in the “North” [18].
   
-- It is the plundering of resources from the “South” and the super-exploitation of hundred of millions of its workers that allow awesome levels of financial speculations which are nothing else than casino gambles based on ownership titles of future resources to be plundered and of future goods to be produced, ones and the others from the “South”.
  
-- In spite of the huge setback that the collapse of USSR and other socialist countries represented to the liberation struggle of the oppressed peoples, in spite of the march of China towards imperialism, the days are numbered for the plundering of resources and super-exploitation of the workers of the “South”. “Weakest links” will time and again emerge there, rebelling against imperialism. When those rebellions consolidate in socialist regimes and add up to a significant scale a dialectical change is bound to take place. At such a time the chimes will not toll in death knell for the super-exploitation of the “Southern” work alone; they will also toll for the exploitation of the “Northern” work.

   
Notas e Referências | Notes and References
   
[1] O termo «trabalho intensivo» é usado para designar indústrias ou processos que requerem investimento significativo em força de trabalho face ao investimento em capital constante (edifícios, máquinas, etc.).
O termo «outsourcing» é agora também usado para designar a contratação de serviços ou trabalho qualificado nos moldes normais da exploração capitalista. Não é este, porém, o actual modo proeminente de outsourcing aqui considerado.
The term “labor intensive” applies to industries or processes requiring significant investment in labor power compared to the investment in constant capital (buildings, machines, etc.).
The term “outsourcing” is now being used to designate the contracting of services and skilled labor in the usual mode of capitalist exploitation. This is not, however, today’s prominent outsourcing mode which is here considered.
   
[2] John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century: Globalization, Super-Exploitation, and Capitalism’s Final Crisis, Monthly Review Press, U.S., 2016.
   
[3] John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century, Monthly Review, vol. 67, Issue 3, 2015.
   
[4] Tony Norfield, What the ‘China Price’ really means, 4 June 2011, https://economicsofimperialism.blogspot.pt/2011/06/what-china-price-really-means.html
   
   
[6] Alguns países não têm formalmente salário mínimo. Este pode, por vezes, estimar-se com base no salário médio. Some countries do not formally have a minimum wage. This can, sometimes, be estimated from the average wage.
   
[7] Não por acaso as fábricas de têxteis, confecções e calçado concentraram-se no litoral Norte. Para além do porto de Leixões, havia e há aí abundância de pequenos camponeses(as) pobres, com mais de 5% de analfabetismo, pouco sindicalizados, e obedientes à Igreja ligada aos empresários.
It is no accident that the Portuguese plants of textile, garments, and shoes, concentrate in the Northern coastal area. Besides the harbour of Leixões, there were and still are there a multitude of poor petty peasants (men and women), with over 5% illiteracy, scarcely trade-unionized, and obedient to the Church attached to the big entrepreneurs.
   
[8] A Dinamarca não tem formalmente um salário mínimo e o leque salarial é estreito (ao contrário de Portugal). Um estudo da UE (http://aei.pitt.edu/60343/1/DENMARK.pdf ) mostra que o salário mínimo dinamarquês era de cerca de 80% do salário médio em 1982 e abaixo de 70% da média em 2009. Os salários médios na Dinamarca encontram-se em https://autopica.com/statistics/denmark-054ece92/macro-economics-4b815b12/value-annual-average-wages-and-salaries-nonpublishable-and-confidential-value-macro-economics-c190b9c4/. As taxas de IRS na Dinamarca são elevadas: cerca de 66% em 1982 e 62,5% em 2009. Os dados para Portugal podem encontrar-se em http://www.pordata.pt/Portugal/Sal%C3%A1rio+m%C3%ADnimo+nacional-74. Com estes dados, obtivemos para os salários mínimos mensais nominais em euros para a Dinamarca e Portugal, respectivamente: 750,7 e 53,4 em 1982; menor que 2.549,5 e 450 em 2009.
Formally, Denmark has no minimum wage and its wage scale is narrow, contrary to what happens in Portugal. An EU study (http://aei.pitt.edu/60343/1/DENMARK.pdf ) shows that the Danish minimum wage was about 80% the average wage in 1982 and below 70% the average in 2009. The average wages in Denmark can be found in https://autopica.com/statistics/denmark-054ece92/macro-economics-4b815b12/value-annual-average-wages-and-salaries-nonpublishable-and-confidential-value-macro-economics-c190b9c4/. The IRS rates in Denmark are high: around 66% in 1982 and 62.5% in 2009. The respective data for Portugal can be found in http://www.pordata.pt/Portugal/Sal%C3%A1rio+m%C3%ADnimo+nacional-74. With these data we obtained the nominal monthly minimum wages in Euros for Denmark and Portugal, resp.: 750.7 and 53.4 in 1982; less than 2.549.5 and 450 in 2009.
   
[9] Encontra-se na literatura uma profusão de classificações dos países (nações ou economias): «desenvolvidos», «não desenvolvidos», «menos desenvolvidos», «emergentes», etc. Tais classificações podem ter a ver com índices de desenvolvimento humano ou apenas com indicadores económicos. Infelizmente o significado não é geralmente esclarecido na literatura.
No âmbito da arbitragem global do trabalho, que é o que aqui nos interessa, a classificação terá de ter em conta o nível salarial. Consideramos aqui como países (nações ou economias) «desenvolvidos» os de maior salário mínimo e médio e que são sedes accionistas de TNCs de produção de bens e serviços, nomeadamente os seguintes 22 países: 15 da Europa: AUT, BEL, CHE, DEU, DNK, ESP, FIN, FRA, GBR, IRL, MAL, NLD, NOR, SVN, SWE; 2 da América: CAN, USA; 5 da Ásia: AUS, ISR, JPN, KOR, NZL. Estes países estão no topo da pirâmide imperialista. Todos os outros – pondo de lado excepções óbvias (LUX, LIE, SAU, OMN, etc.) --, são países de economias «emergentes», «menos desenvolvidos» ou «não desenvolvidos», potenciais candidatos a produção em outsourcing. Parece ser este o entendimento de John Smith e de outros autores, ou pelo menos muito próximo.
Do ponto de vista das relações imperialistas baseadas em outsourcing, os primeiros constituem o grupo dos opressores e os segundos o grupo dos oprimidos. Como quase todos os primeiros países se situam no hemisfério Norte, John Smith e outros economistas designam -- pensamos que por razões de tradição ou simplicidade -- o grupo dos opressores por «Norte» ou «Norte global» e o grupo dos oprimidos por «Sul» ou «Sul global». Embora estas designações sejam de facto incorrectas (não é a geografia que importa; além disso, para dar exemplos, a Austrália, do grupo dos opressores, está no Sul e o Bangladesh, do grupo dos oprimidos, está no Norte) mantemo-las.
One finds in the literature an abundance of classifications of countries (nations or economies): “developed”, “undeveloped”, “less developed”, “emergent”, etc. Such classifications may have to do with human development indexes or simply with economic indicators. Unfortunately, the meaning is usually not clarified in the literature.
In the context of global labor arbitrage, which interests us here, the classification has to take the wage level into account. We consider in this context as “developed” countries (nations or economies) those with the highest minimum and average salaries and which are shareholding headquarters of TNCs supplying goods or services, namely the following 22 countries: 15 from Europe: AUT, BEL, CHE, DEU, DNK, ESP, FIN, FRA, GBR, IRL, MAL, NLD, NOR, SVN, SWE; 2 from America: CAN, USA; 5 from Asia: AUS, ISR, JPN, KOR, NZL. These countries are at the top of the imperialist pyramid. The remaining ones – setting aside obvious exceptions (LUX, LIE, SAU, OMN, etc.) --, are countries with “emerging”, “less developed” or “undeveloped” economies, potential candidates to production in outsourcing. This seems to be the understanding of John Smith and of other authors, or at least pretty close.
From the point of view of outsourcing-based imperialist relations, the first ones constitute the group of the oppressors and the second ones the group of the oppressed. Since almost all the oppressor countries are located in the Northern hemisphere, John Smith and other economists name the group of the oppressors -- we believe out of tradition or simplicity sake -- as “North” or “Global North”, and the group of the oppressed as “South” or “Global South”. Though these designations are, in fact, incorrect (geography is not what matters here; moreover, to give examples, Australia, in the group of the oppressors, is located in the South, and Bangladesh, in the group of the oppressed, is located in the North) we keep them. 
   
[10] O World Investment Report 2011 da UNCTAD define assim as relações contratuais «à distância» (citado em [2]): «[Um] modo de operação transfronteira das TNCs não baseado em capitais próprios [pelo qual] a TNC externaliza parte das suas operações num parceiro de um país hospedeiro relativamente ao qual não tem qualquer relação de propriedade, mas mantendo um nível de controlo sobre a operação através da especificação contratual de como deve ser conduzida… a característica distintiva dos MNCs [Modos Não baseados em Capitais próprios] como forma de controlo da cadeia global de valor da TNC é o controlo sobre a entidade negocial do país hospedeiro por outros meios que não títulos de capital».
UNCTAD’s World Investment Report 2011 defines as follows arm’s-length, contractual relationships (cited in [2]): “[A] cross-border nonequity mode of TNC operation [in which] a TNC externalizes part of its operations to a host-country-based partner firm in which it has no ownership stake, while maintaining a level of control over the operation by contractually specifying the way it is to be conducted… the defining feature of cross-border NEMs [Non_Equity Mode], as a form of governance of a TNC’s global value chain, is control over a host-country business entity by means other than equity holdings.”
   
[11] John Smith apresenta o exemplo da Coca-Cola que super-explora através de terceiros os trabalhadores da Colômbia, pivot do império da Coca-Cola na América Latina. Os terceiros pagam salários de miséria e usam esquadrões da morte para assassinar activistas sindicais. Os directores da Coca-Cola nos EUA lavam daí as mãos. Responderam assim aos protestos: «A Coca-Cola não possui nem opera quaisquer fábricas de engarrafamento na Colômbia». Cita também os exemplos da Gap e da Nike que externalizaram a produção para países «em desenvolvimento» onde os operários trabalham em condições desumanas; os patrões da Gap e da Nike lavam daí as mãos. Há também inúmeros exemplos de forte poluição de firmas em outsourcing, nomeadamente na China.
John Smith presents the example of Coca-Cola, which super-exploits in arm’s length outsourcing the workers of Colombia, the hub of Coca Cola’s Latin American empire. The firms in Colombia pay misery wages to the workers and employ death squads to assassinate trade-union activists. The US Coca-Cola directors wash their hands. They answered this way to the protests: “Coca-Cola does not own or operate any bottling plants in Colombia.” The examples of Gap and Nike, who outsourced their production to factories in the developing world, where the workers operate in inhuman conditions, are also presented; the bosses of Gap and Nike or Gap also wash their hands. There are also numerous examples of heavy pollution by firms producing in outsourcing, namely in China.
   
[12] Lenine em Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (VIII – Parasitismo e Decomposição do Capitalismo) menciona, de facto, a previsão (em 1902) do economista inglês John Hobson (Professor da Universidade de Oxford e defensor do imperialismo) de que na evolução futura do imperialismo «os principais ramos da indústria desapareceriam, e os produtos alimentares de grande consumo e os artigos semi-acabados correntes afluiriam como um tributo da Ásia e da África". Refere-se também à «redução da emigração dos países imperialistas e o aumento da imigração (afluência de operários e migrações) para estes últimos; a massa humana que a eles chega vem dos países mais atrasados, onde o nível dos salários é mais baixo.» Trata-se, respectivamente, de uma conjectura e de um fenómeno incipiente de pouco relevo na época.
Lenin in Imperialism, the Highest Stage of Capitalism (VIII – Parasitism and Decay of Capitalism) does, in fact, mention the 1902 forecast of the English economist John Hobson (Professor at the University of Oxford and defender of imperialism) that in the future evolution of imperialism “all the main arterial industries would have disappeared, the staple foods and manufactures flowing in as tribute from Asia and Africa.” Lenin also notices “the decline in emigration from imperialist countries and the increase in immigration into these countries from the more backward countries where lower wages are paid.” In the first case we have a conjecture; in the second case an incipient phenomenon of little relevance in his time.
   
[13] Lénine refere, p. ex., em Imperialismo (IV – A Exportação de Capitais): «É muito corrente que entre as cláusulas do empréstimo se imponha o gasto de uma parte do mesmo na compra de produtos ao país credor, em especial de armamentos, barcos, etc. A França tem recorrido frequentemente a este processo no decurso das últimas décadas (1890-1910). A exportação de capitais passa a ser um meio de estimular a exportação de mercadorias. As transacções que se efectuam nestes casos entre as maiores empresas têm um carácter tal que, segundo o eufemismo de Schilder, “confinam com o suborno”. Krupp na Alemanha, Schneider em França e Armstrong na Inglaterra constituem outros tantos modelos de firmas intimamente ligadas com bancos gigantes e com governos, dos quais é difícil “prescindir” ao negociar um empréstimo.»
An example is the following mention of Lenin in Imperialism… (4 – The Export Capital): “The most usual thing is to stipulate that part of the loan granted shall be spent on purchases in the creditor country, particularly on orders for war materials, or for ships, etc. In the course of the last two decades (1890-1910), France has very often resorted to this method. The export of capital thus becomes a means of encouraging the export of commodities. In this connection, transactions between particularly big firms assume a form which, as Schilder ‘mildly’ puts it, ‘borders on corruption’. Krupp in Germany, Schneider in France, Armstrong in Britain are instances of firms which have close connections with powerful banks and governments and which cannot easily be ‘ignored’ when a loan is being arranged.”
   
[14] Ibidem: «Num relatório do cônsul austro-húngaro em São Paulo (Brasil) diz-se: “A construção dos caminhos-de-ferro brasileiros realiza-se, na sua maior parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães; os referidos países, ao efectuarem as operações financeiras relacionadas com a construção das vias férreas, reservam para si próprios as encomendas de materiais de construção ferroviária.»
Ibidem: “A report from the Austro-Hungarian Consul at San-Paulo (Brazil) states: ‘The Brazilian railways are being built chiefly by French, Belgian, British and German capital. In the financial operations connected with the construction of these railways the countries involved stipulate for orders for the necessary railway materials.’”
   
[15] A Terceira Forma de Aumento da Mais-Valia; as duas primeiras são as descritas por Marx como mais valia absoluta e relativa. The first two forms are those described by Marx as absolute and relative surplus.
   
[16] Saque de recursos: a Royal Dutch Shell dos dois países imperialistas Holanda e Inglaterra saqueiam petróleo da Nigéria deixando um desastre ambiental atrás deles e pagam migalhas aos trabalhadores locais. IED: as Confissões de um Assassino Económico de John Perkins (descarregável da net) contêm muitos exemplos da moderna super-exploração por FDI.
Resource plunder: the Royal Dutch Shell, owned by the two imperialist countries Netherlands and England, plunders the Nigerian oil leaving behind an environmental disaster and paying crumbs to local workers. FDI: the Confessions of an Economic Hit Man by John Perkins (downloadable from the net) contains many examples of modern FDI super-exploitation.
   
[17] Relativamente ao argumento que o outsourcing tende a diminuir os salários na metrópole, John Smith diz: «Talvez a investigação mais aprofundada sobre este efeito foi a conduzida por dois professores de Chicago Christian Broda e John Romalis que estabeleceram uma «correspondência» entre duas enormes bases de dados, uma sobre a evolução de quantidades e movimentos de preços entre 1994 e 2005 de centenas de milhares de diferentes bens consumidos por 55.000 agregados familiares dos EUA, a outra sobre importações classificadas em 16.800 categorias diferentes de produtos. A conclusão central: “embora a expansão do comércio com países de baixos salários ocasione uma diminuição nos salários relativos dos não qualificados dos EUA, também resulta numa queda dos preços dos bens que são fortemente consumidos pelos pobres. Mostramos que este efeito benéfico do preço mais do que compensa o efeito negativo sobre os salários relativos.”»
Quanto à relativa apatia dos trabalhadores dos países opressores ela é também fruto do oportunismo que contamina as organizações dos trabalhadores e partidos, já diagnosticada por Lenine na obra citada.
As regards the claim that outsourcing presses down the domestic wages, John Smith says: “Perhaps the most in-depth research into this effect was conducted by two Chicago professors, Christian Broda and John Romalis, who established a “concordance” between two giant databases, one tracking the quantities and price movements between 1994 and 2005 of hundreds of thousands of different goods consumed by 55,000 U.S. households, the other of imports classified into 16,800 different product categories. Their central conclusion: “while the expansion of trade with low wage countries triggers a fall in relative wages for the unskilled in the United States, it also leads to a fall in the price of goods that are heavily consumed by the poor. We show that this beneficial price effect can potentially more than offset the standard negative relative wage effect.”
As regards the relative apathy of the workers of the oppressing countries, it is also a fruit of the opportunism which contaminates the workers’ organizations and parties, already diagnosed by Lenin in the cited work.
   
[18] John Smith apresenta exemplos de falta de solidariedade sindical «Norte-Sul». Diz também: «Dirigentes sindicais e políticos sociais-democratas dos países imperialistas têm procurado desde há muito proteger os seus trabalhadores da “competição desleal” dos trabalhadores de países pobres, escondendo-se atrás da preocupação pelos direitos humanos das nações oprimidas. Esta hipocrisia foi denunciada por Palash Baral, um representante da UBINIG (Investigação de Políticas para Alternativas de Desenvolvimento), uma ONG do Bangladesh, em comentários num seminário em Londres […]: As questões dos “padrões laborais” e dos “direitos dos trabalhadores” têm sido levantadas não por preocupação pelos nossos trabalhadores, e também não por constituírem uma preocupação pelos direitos humanos. [Essas questões] são slogans neo-proteccionistas e reflectem esforços da classe dominante do Norte de escamotear a causa real da crise económica que o Norte atravessa… O Banco Mundial e o FMI criaram as condições de “afundamento social”… [agora] algumas NGOs bem como sindicatos propõem-se “civilizar-nos”… castigando-nos quando vimos vender os nossos produtos aos mercados deles. Eles não têm nada a dizer contra o Banco Mundial, nenhumas quaixas sobre Reformas Estruturais e [não fazem] nenhum esforço para compreender as transnacionais e o seu comportamento… se se quer ser realmente sério acerca de padrões laborais e direitos dos trabalhadores, então há que juntar as mãos com os trabalhadores do Bangladesh.”
John Smith presents examples of trade-union “North-South” lack of solidarity. He also says: “Union officials and social-democratic politicians in imperialist countries have long sought to protect their workers from “unfair competition” from workers in poor countries, hiding behind feigned concern for human rights in oppressed nations. Their hypocrisy was exposed by Palash Baral, a representative of UBINIG (Policy Research for Development Alternatives), a Bangladeshi NGO, in remarks to a seminar in London […]: The issues of “labor standards” and “workers rights” have been raised out of no concern for our workers, neither do they constitute any concern for human rights. They are neo-protectionist slogans and reflect attempts by the ruling class of the North to smokescreen the real cause of the economic crisis the North is going through… The World Bank and IMF create the conditions for “social dumping”… [then] some NGOs as well as some trade unions propose to “civilise” us… by twisting our arms when we come to sell our products to their markets. They have nothing to say against the World Bank, no complaints about Structural Adjustment and no attempt to understand the transnationals and their behaviour… if one is really serious about labor standards and workers’ rights, then one should join hands with the workers of Bangladesh.