quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Milosevitch ilibado pelo tribunal de Haia e os hodiernos belicistas

Em 18 de Julho passado o Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia em Haia (ICTY) ilibou o ex-Presidente e dirigente da Liga dos Comunistas da Sérvia, Slobodan Milosevitch, de todas as acusações de crimes de guerra, limpeza étnica, etc. Esta notícia merece-nos os seguintes aditamentos e comentários:
   
-- O veredicto, extremamente incómodo para o Império Ianque & C.ª, não foi noticiado pelos media imperiais: as grandes cadeias internacionais e nacionais de notícias que o Império controla. Incluindo a TV portuguesa. Eis aqui mais uma demonstração das virtudes da «liberdade de informação» proporcionada aos cidadãos pelos que detêm os sacos de dinheiro: Quando uma notícia não agrada ao Império… é omitida.
   
-- O veredicto do tribunal surge dez anos depois da morte de Milosevitch em Haia, morte para a qual contribuiu a sua prisão desde Janeiro de 2002. Dez anos! Foram precisos dez anos para oficialmente inocentar Milosevitch. Isto, apesar de pouco depois da sua morte, em 24 de Março de 2016, já o ICTY ter emitido uma declaração de que não tinha encontrado «suficiente» evidência dos crimes de que era acusado. Uma conclusão inescapável que se tira de tudo isto é de que os dez anos foram precisos não porque andaram durante esse tempo à cata de evidência total e não apenas «suficiente». Não, os dez anos foram necessários para que o caso fosse esquecido pela opinião pública, podendo então o veredicto ser impunemente silenciado pelos media imperiais. Quem se lembra ainda ou se interessa por Milosevitch?
   
-- Afinal, Milosevitch, que o Império encabeçado por Bill Clinton e Tony Blair demonizou como o «carniceiro dos Balcãs», não foi carniceiro nenhum. Pelo contrário, o ICTY reconheceu que ele sempre se tinha oposto às limpezas étnicas, à violência de Karadzic, etc.
   
-- O veredicto do ICTY é como que a última peça do puzzle que torna perfeitamente claro ter sido o desmembramento violento da Jugoslávia – a «aniquilação de uma nação», conforme o título preciso de um excelente livro de Michael Parenti – o resultado de uma orquestração bem sucedida do Império, com excelente desempenho da Alemanha e do Vaticano.
   
-- Orquestração que se tornou um dos modelos da ingerência imperial Ianque & C.ª – demonização de dirigentes, protestos «populares», etc. – reaplicado noutras partes do globo com governos que incomodam(vam) o Império, nomeadamente na Líbia, Síria, Ucrânia, etc., e, actualmente com os devidos ajustes, na Venezuela.
   
-- Quanto à Líbia e Síria temos que fazer um mea culpa relativamente aos nossos anteriores artigos sobre a «Primavera Árabe». Na Líbia e Síria a ingerência imperial surgiu logo no início (documentos revelados recentemente comprovam-no) e não apenas numa fase avançada, como na altura julgávamos e escrevemos. Isso não exclui que várias forças autenticamente populares e progressistas se tenham desde o início oposto a Khadafi e Assad, e sacrificado a vida por uma causa que não era a imperial.
   
-- De tudo isto se confirma mais uma vez a seguinte conclusão (expressa por Che Guevara, embora não nos lembremos as palavras exactas): é preciso desconfiar de toda a informação que provém do Império, cujas afirmações mentirosas são constantes; com particular acuidade quando se refere a países que o incomodam.
*    *    *
Sobre estes temas apresentamos a tradução de um recente artigo de John Pilger que consideramos de muito interesse.
*    *    *
Incitando à Guerra Nuclear através dos media
   
John Pilger, 23 de Agosto de 2016, "Information Clearing House" - "RT"
   
A ilibação de um homem acusado dos piores crimes não apareceu nos títulos dos jornais. Nem a BBC nem a CNN a noticiaram. O Guardian só lhe concedeu um breve comentário. Uma tão rara ilibação oficial foi, como se compreenderá, enterrada ou suprimida, já que diria demasiado sob a forma de como os reis do mundo reinam.
   
O Tribunal Penal Internacional para a Antiga Jugoslávia (ICTY) ilibou silenciosamente o último presidente sérvio Slobodan Milosevitch de crimes de guerra cometidos durante a Guerra da Bósnia em 1992-95, incluindo o massacre de Srebrenica.
   
Longe de conspirar com o culpado dirigente bósnio-sérvio Radovan Karadzic, Milosevitch, na realidade, «condenou a limpeza étnica», opôs-se a Karadzic e procurou pôr um fim à guerra que desmembrou a Jugoslávia. Esta verdade encontra-se inserta perto do trecho final de um veredicto de 2.590 páginas sobre Karadzic, do passado mês de Fevereiro. Ela destrói ainda mais a propaganda justificativa do ataque ilegal da Nato à Sérvia em 1999.
   
Milosevitch morreu de ataque do coração em 2006, sozinho na sua cela em Haia, no que constituiu uma farsa de julgamento num «tribunal internacional» inventado pelos americanos. Foi-lhe negada cirurgia do coração que lhe poderia ter salvo a vida. O seu estado piorou, tendo sido monitorizado e mantido em segredo por funcionários dos EUA, conforme já revelou a WikiLeaks.
   
Milosevitch foi vítima da propaganda de guerra que hoje jorra às catadupas nos nossos ecrãs e jornais, ameaçando-nos a todos de grande perigo. Ele era o protótipo do demónio, vilipendiado pelos media ocidentais como o «carniceiro dos Balcãs», responsável por genocídio, especialmente na província separatista do Kosovo. O primeiro-ministro Tony Blair assim o declarara, invocando o holocausto e pedindo acção contra «este novo Hitler».
   
O Embaixador-Geral dos EUA para Crimes de Guerra (sic!), David Scheffer, declarara que no mínimo «225.000 homens da etnia albanesa entre 14 e 59 anos» podiam ter sido assassinados pelas forças de Milosevitch.
   
Foi esta a justificação para o bombardeamento da Nato, liderado por Bill Clinton e Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão, destruindo a infra-estrutura económica da Sérvia. Uma acção gritantemente movida por razões ideológicas. Milosevitch foi confrontado com Madeleine Albright, secretária de estado dos EUA, numa notória «conferência de paz» em Rambouillet, França. Uma Albright que atingiria a infâmia quando declarou que as mortes de meio milhão de crianças iraquianas tinham «valido a pena».
   
Albright apresentou uma «oferta» a Milosevitch que nenhum dirigente nacional poderia aceitar. Só se ele concordasse com a ocupação militar do seu país, com forças de ocupação agindo «fora do procedimento legal», e com a imposição de um «mercado livre» neo-liberal, é que a Sérvia não seria bombardeada. Estes ditames constavam de um «Apêndice B» que os media ou não leram ou suprimiram. O objectivo era esmagar o último estado europeu independente e «socialista».
   
Assim que a Nato começou a bombardear deu-se a debandada de refugiados kosovar «fugindo do holocausto». Quanto o bombardeamento terminou, equipas internacionais de polícias foram despejadas no Kosovo para exumar as vítimas. Os polícias do FBI não conseguiram encontrar uma única vala comum e regressaram a casa. A equipa espanhola de exame forense fez o mesmo; o respectivo chefe denunciou indignadamente «a pirueta semântica das máquinas de propaganda de guerra». A contagem final de mortos no Kosovo foi de 2.788 e incluía combatentes de ambos os lados, bem como sérvios e ciganos assassinados pela pró-Nato Frente de Libertação do Kosovo. Não tinha havido qualquer genocídio. O ataque da Nato tinha sido simultaneamente uma fraude e um crime de guerra.
    
Dos tão aclamados mísseis americanos de «orientação precisa», exceptuando uma parte, quase todos eles atingiram alvos civis -- e não militares --, incluindo os estúdios da Rádio e Televisão Sérvia em Belgrado. Dezasseis pessoas morreram, incluindo operadores de câmara, produtores e maquilhadores. Blair qualificou profanamente os mortos, como fazendo parte do «comando e controlo» da Sérvia.
   
Em 2008 a Procuradora do ICTY, Carla Del Ponte, revelou que tinha sido pressionada no sentido de não investigar os crimes da Nato.
   
Foi este o modelo [de intervenção militar] adoptado por Washington nas invasões subsequentes do Afeganistão, Iraque, Líbia e, por aviões furtivos, da Síria. Todas correspondem a «crimes proeminentes» segundo o padrão de Nuremberga. Todas dependeram da propaganda dos media. Ainda que o jornalismo tablóide tivesse desempenhado o seu papel tradicional, foi, porém, o jornalismo sério e credível, por vezes liberal [no sentido americano de «liberal», com um cheiro a «esquerda»], que desempenhou o papel mais eficiente: a promoção evangélica de Blair e das suas guerras feita pelo Guardian, as mentiras incessantes sobre as não existentes armas de destruição maciça de Saddam Hussein no Observer e no New York Times, e o assestado rufar de tambores da propaganda do governo na BBC.
   
No pico do bombardeamento, [a jornalista] Kirsty Wark da BBC entrevistou o general Wesley Clark, comandante da Nato. A cidade sérvia de Nis tinha acabado de ser polvilhada por bombas de fragmentação, matando mulheres, velhos e crianças num mercado aberto e num hospital. Wark não fez nenhuma pergunta sobre isto ou sobre quaisquer outras mortes de civis.
   
Outros [jornalistas] foram mais descarados. Em Fevereiro de 2003, no dia a seguir a Blair e Bush terem incendiado o Iraque, o editor político da BBC Andrew Marr esteve na Downing Street e pronunciou uma espécie de discurso da vitória. Disse euforicamente aos seus espectadores que Blair tinha «dito que seriam capazes de tomar Bagdade sem um banho de sangue e que no final os iraquianos estariam a celebrar isso. E Blair acertou totalmente em ambas as previsões». Hoje, com um milhão de mortos e uma sociedade em ruínas, as entrevistas de Marr na BBC são as recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres.
   
Os colegas de Marr juntaram-se «em defesa» de Blair. O correspondente em Washington da BBC, Matt Frei, disse que «não há dúvida de que o desejo de levar o bem, de levar os valores americanos ao resto do mundo e especialmente ao Médio Oriente… está hoje cada vez mais ligado à capacidade militar».
   
A obediência aos EUA e aos seus colaboradores como sendo uma força benigna que «leva o bem» está profundamente enraizada no jornalismo institucional do ocidente. Tal obediência assegura que a culpa pela catástrofe actual na Síria seja atribuída exclusivamente a Bashar al-Assad, que o Ocidente e Israel desde há muito conspiraram derrubar; não por razões humanitárias, mas sim para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas lançadas e armadas pelos EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia e seguidores da sua «coligação», servem para esse fim. São elas que fornecem a propaganda e vídeos que se transformam em notícias nos EUA e Europa, que permitem o acesso a jornalistas e que garantem uma «cobertura» unilateral da Síria.
   
A cidade de Alepo está nas notícias. A maior parte dos leitores e espectadores não tem ideia de que a maioria da população de Alepo vive na parte ocidental da cidade controlada pelo governo, e que sofre bombardeamentos diários de artilharia pela al-Qaida patrocinada pelo ocidente. Isso não vem nas notícias. Bombardeiros franceses e americanos atacaram uma vila na província de Alepo em 21 de Julho. Mataram pelo menos 125 civis. Isto foi relatado na página 22 do Guardian, mas sem fotografias.
    
Tendo criado e apoiado o jihadismo no Afeganistão nos anos 1980 como Operação Ciclone – uma arma para destruir a União Soviética – os EUA fizeram algo de semelhante na Síria. Tal como os mujahidin afegãos os «rebeldes» sírios são os soldados infantes da América e Grã-Bretanha. Muitos lutam em nome da al-Qaida e suas variantes; alguns, como a Frente Nusra, reformataram-se de forma a satisfazer as sensibilidades americanas sobre o 9/11. A CIA controla-os, com dificuldade, tal como controla os jihadistas em todo o mundo.
   
O objectivo imediato é destruir o governo de Damasco, o qual, segundo o inquérito mais credível (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoia ou pelo menos procura nele protecção, apesar do barbarismo nas suas sombras. O objectivo a longo prazo é negar à Rússia um aliado chave no Médio Oriente, como parte da guerra de desgaste da Nato contra a Federação Russa com vista a eventualmente a destruir.
   
O risco nuclear é óbvio, embora seja suprimido pelos media do «mundo livre». Os escritores editoriais do Washington Post, que promoveram a ficção das armas de destruição maciça no Iraque, pedem a Obama que ataque a Síria. Hillary Clinton, que publicamente se gabou do seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, tem repetidamente indicado que, como presidente, «irá ainda mais longe» que Obama.
   
Gareth Porter, um jornalista de Washington, revelou recentemente os nomes dos possíveis membros do governo Clinton que planeiam atacar a Síria. Todos têm historiais da beligerância da guerra fria; o ex-director da CIA Leon Panetta diz que «o próximo presidente terá de considerar a colocação de forças especiais adicionais no terreno».
   
O mais notável da propaganda de guerra, fluindo agora livremente, é a sua clara absurdidade e familiaridade. Estive a olhar para um filme de arquivo de Washington dos anos de 1950, quando diplomatas, funcionários públicos e jornalistas eram alvo de caça às bruxas e arruinados pelo senador Joe McCarthy, por terem desafiado as mentiras e paranóia acerca da União Soviética e da China. O culto anti-Rússia voltou, tal como um furúnculo recorrente.
   
Na Grã-Bretanha, Luke Harding do Guardian lidera os-que-odeiam-a-Rússia numa torrente de paródias que atribuem a Vladimir Putin todas as iniquidades terrestres. Quando os Panama Papers [«documentos do Panamá», revelados pela Wikileaks, contendo as provas de evasão fiscal de várias celebridades mundiais do grande capital] foram revelados a página da frente dizia que se tratava de Putin e trazia uma foto dele. Isto, apesar de Putin não ser mencionado nos Paper.
   
Tal como Milosevitch, Putin é o Demónio Número Um. Foi Putin que fez cair o avião malaio na Ucrânia. Título: «Quanto a mim, Putin matou o meu filho». Não interessam as evidências. Foi Putin o responsável pelo derrube do governo em Kiev em 2014, embora o derrube fosse agendado e pago por Washington. A campanha de terror das milícias fascistas que se seguiu, contra as populações de língua russa, foi também o resultado da «agressão» de Putin. Mais exemplos da «agressão» de Putin foram o ter impedido a Crimeia de se tornar uma base de mísseis da Nato, e a protecção da sua população, na maioria russa, que tinha votado num referendo para se reunir à Rússia – da qual tinha sido em tempos separada e anexada à Ucrânia.
   
Nos EUA a campanh anti-Rússia elevou-se a realidade virtual. O colunista Paul Krugman do New York Times (um economista com o Prémio Nobel) chamou Donald Trump de «candidato siberiano» porque, diz ele, Trump é o homem de Putin. Trump ousou sugerir, num momento de rara lucidez, que a guerra com a Rússia poderia ser uma má ideia. De facto, foi ainda mais longe, e retirou as entregas de armamentos à Ucrânia da proposta republicana. «Não é que seria bom se nos déssemos bem com a Rússia?» disse ele.
   
É por isso que a instituição liberal-belicista americana o odeia. E não por causa do racismo e baixa demagogia de Trump. O registo de racismo e extremismo de Bill e Hillary Clinton sobre-trombeteiam  [trocadilho: trump=trombeta] de longe o de Trump. (Esta semana é o 20-ésimo aniversário da «reforma» social de Clinton que lançou a guerra contra os afro-americanos.) Quanto a Obama: enquanto a polícia americana atira a matar os seus congéneres afro-americanos, a grande esperança destes na Casa Branca não fez nada para os proteger, nada para aliviá-los do empobrecimento, enquanto quatro guerras predadoras e uma campanha sem precedentes de assassinatos se desenrolava.
   
A CIA pediu que Trump não fosse eleito. Os generais do Pentágono pediram que ele não fosse eleito. Os pró-guerra do New York Times – quando em pausa da incessante campanha de aviltamento de Putin – pedem que não seja eleito. Algo cheira aqui mal. Estes tribunos da «guerra perpétua» estão aterrorizados pela perspectiva do negócio da guerra, de muitos milhões de milhões de dólares, pelo qual os EUA mantêm a sua hegemonia, ser minada se Trump fizer um acordo com Putin e depois com a China de Xi Jinping. O pânico deles pela possibilidade da maior potência mundial falar em paz – embora inverosímil – constituiria apenas uma farsa negra se as questões em jogo não fossem tão terríveis.
   
O vice-presidente Joe Biden gritou num comício de Hillary Clinton: «Trump teria gostado de Estáline!». Com a aprovação de Clinton, gritou: «nós nunca nos curvaremos. Nunca nos dobraremos. Nunca nos ajoelharemos. Nunca nos entregaremos. A meta final é nossa. É assim que nós somos. Nós somos América!»
   
Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha também excitou a histeria dos belicistas do partido trabalhista e dos media, que o querem pôr no caixote do lixo. Lord West um ex-almirante e ministro trabalhista colocou claramente a questão: Corbyn estava a tomar uma «infame» posição anti-guerra «porque tal posição lhe valia os votos das massas que não pensam».
   
Num debate com Owen Smith, o rival à liderança, o moderador perguntou a Corbyn: «Como agiria se Vladimir Putin violasse um estado membro da Nato?», Corbyn respondeu: «Primeiro que tudo procurar-se-ia evitar que tal acontecesse. Construir-se-ia um bom diálogo com a Rússia… Procurar-se-ia introduzir a desmilitarização das fronteiras da Rússia com a Ucrânia e de outros países que estão na fronteira entre a Rússia e a Europa de Leste. O que não se pode permitir é uma série de concentrações calamitosas de tropas de ambos os lados, que só podem conduzir a um grande perigo».
Pressionado a dizer se autorizaria uma guerra contra a Rússia «se tivesse de ser», Corbyn respondeu: «Não quero ir para a guerra; o que quero é construir um mundo onde não se tenha de ir para guerra». A forma como as perguntas foram colocadas tem muito a ver com a ascensão dos belicistas liberais ingleses. O partido trabalhista e os media já há muito tempo que lhes vêm oferecendo oportunidades de carreira. Durante um certo tempo o tsunami moral do grande crime no Iraque deixou-os a patinhar, e as suas inversões da verdade constituíram um embaraço temporário. Apesar de Chilcot [refere-se ao inquérito oficial britânico que reconheceu a falsidade das razões apresentadas para a invasão do Iraque] e da montanha de factos incriminatórios, Blair continua a ser a inspiração desses belicistas porque foi um «vencedor».
   
O jornalismo e as posições académicas discordantes têm sido sistematicamente banidas ou aprisionadas, as ideia democráticas esvaziadas de conteúdo e preenchidas por uma «política de identidade» que confunde género com feminismo, ansiedade geral pelo estado do mundo com libertação, e que ignora intencionalmente a violência estatal e os aproveitadores de armamentos que destroem inumeráveis vidas em lugares distantes, como o Iémen e a Síria, ao mesmo tempo acenando com uma guerra nuclear na Europa e em todo o globo.
   
A movimentação popular de todas as idades em torno da subida espectacular de Corbyn contrapõe-se, em certa medida, a isso. Corbyn tem esclarecido o horroroso da guerra ao longo da sua vida. O problema para Corbyn e seus apoiantes é o partido trabalhista. O problema na América para os milhares de seguidores de Bernie Sanders foi o partido democrático, bem como a traição final de Sanders.
   

Nos EUA as raízes de uma versão moderna dos grandes movimentos pelos direitos civis e anti-guerra estão a ser lançadas pelo movimento Black Lives Matter e por movimentos afins do Codepink [Mulheres pela Paz]. Só um movimento que encha as ruas, atravesse as fronteiras e não desista pode parar os belicistas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Os EUA em escalada imperial

O aumento das agressões e provocações dos EUA com a administração Obama, os crimes impunemente cometidos em todo o mundo, o rufar dos tambores de guerra em sintonia com o aumento das despesas em armas sofisticadas, incluindo as nucleares, são temas expostos no artigo abaixo recentemente publicado (tradução nossa) do jornalista Johm Pilger.
   
John Pilger, de quem já falámos em artigos anteriores, descreve ainda, com conhecimento e perspicácia, a propaganda anestesiante que os governos americanos têm feito, criando no seu povo (e não só) a convicção de que «o que aconteceu não aconteceu», e outras convicções que evidenciam ser a «liberdade de expressão» ao serviço dos monopólios uma farsa sinistra. Tal como as constantes violações dos direitos do homem daqueles que se autopraclamam os seus mais lídimos defensores. Violações, aliás, que não são só no plano externo; internamente os EUA são actualmente e destacadamente o país com a maior população prisional de todo o mundo, sendo a maior parte desta da minoria afro-americana. Prisões geridas por privados; logo, quanto mais presos têm mais lucram com subsídios do Estado. Os EUA transformaram-se num gigantesco Estado Policial, onde os maus-tratos, a tortura, os longos encarceramentos muitas vezes por motivos políticos – sim, há muitos presos políticos nos EUA -, a pena de morte, os linchamentos, o atirar a matar sobre negros e outras minorias, tornaram-se rotinas diárias.
   
Os dois candidatos das próximas eleições presidenciais são «faces da mesma moeda». Os monopólios já escolheram: apoiam masivamente Hillary Clinton, melhor posicionada para levar a cabo a agenda imperial. Tudo aponta para que esta mulher – o ser mulher é tão irrelevante como o Obama ser negro – venha a dirigir uma administração ainda mais reaccionária do que a de Obama.
   
Será que isto são temas de somenos importância para os portugueses? De forma nenhuma. Por trás dos EUA, intimamente ligados a eles, estão a UE e a NATO. Uma UE cada vez mais à direita, mais tolerante a até incentivadora de limitações de direitos, de comportamentos fascizantes. E uma NATO que é cada vez mais uma ameaça à paz mundial (vide última reunião em Varsóvia). Uma NATO que cada vez mais parece empenhada em desencadear uma conflagração em larga escala. Repetindo a história imperialista: guerra em prol do aumento da taxa de lucro das multinacionais. Portugal (ainda) é um país da UE e da NATO.
*    *    *
   
Silenciando a América Quando se Prepara para a Guerra
   
http://www.informationclearinghouse.info/article45196.htm
John Pilger, 29/07/2016
   
De regresso aos EUA em ano de eleições fico espantado com o silêncio. Cobri quatro campanhas presidenciais desde 1968; estive com Robert Kennedy quando ele foi baleado e vi o seu assassino preparando-se para o matar. Foi o meu baptismo da «maneira americana» (American way), juntamente com a violência espumante da polícia de Chicago na Convenção falsificada do Partido Democrático. A grande contra-revolução tinha começado.
   
O primeiro a ser assassinado nesse ano, Martin Luther King, ousara relacionar o sofrimento dos afro-americanos com o povo do Vietname. Quando Janis Joplin cantou «A liberdade é apenas uma palavra para tudo que não se tem a perder» falou, talvez sem se aperceber, para milhões de vítimas da América em lugares distantes.
   
«Perdemos 58.000 jovens soldados no Vietname que lutaram pela nossa liberdade.» Assim dizia o guia do Serviço Nacional de Parques quando filmava na semana passada o Memorial de Lincoln em Washington. Ele arengava a um grupo escolar de jovens adolescentes em brilhantes T-shirts cor de laranja; como, se por distracção, tivesse invertido a verdade sobre o Vietname numa mentira incontestada.
   
Os milhões de vietnamitas que morreram, ficaram deficientes, envenenados e sem recursos, devido à invasão americana, não figuram na história das jovens cabeças; isto para já não falar dos 60.000 veteranos que, segundo estimativas, se suicidaram. A um amigo meu, um fuzileiro que ficou paraplégico no Vietname, perguntavam-lhe muitas vezes «Por que lado combateu?»
   
Alguns anos atrás estive numa exposição muito visitada, «O Preço da Liberdade», no venerável Smithsonian Institution em Washington. Às filas de gente do povo, na maioria crianças empurrando-se numa cave de atracções revisionistas, eram fornecidas uma variedade de mentiras: as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki tinham salvo «um milhão de vidas»;  o Iraque tinha sido «libertado [por] ataques aéreos de precisão sem precedentes». O tema era sem qualquer dúvida heróico: só os americanos pagam o preço da liberdade.
   
A campanha eleitoral de 2016 foi notável, não só pela ascensão de Donald Trump e Bernie Sanders como pela manutenção de um silêncio persistente sobre uma auto-outorgada divindade assassina. Um terço dos membros da ONU sentiram a bota americana: governos derrubados, democracia subvertida, imposição de boicotes e bloqueios. A maior parte dos presidentes responsáveis por isso eram liberais: Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.
   
O registo impressionante de perfídia está tão alterado na consciência pública que, como escreveu o falecido Harold Pinter [actor inglês progressista] , isso «nunca aconteceu …Nada aconteceu de facto. Mesmo quando estava a acontecer, não estava a acontecer. Não teve importância. Não teve qualquer interesse. Não teve importância...» Pinter exprimiu uma admiração irónica por aquilo que chamou de «uma manipulação bastante clínica do poder a nível mundial, que se mascara de força em prol do bem universal. É um acto de hipnose muito bem sucedido, brilhante e astuto.»
   
Considere-se Obama. Está-se a preparar para deixar a administração e a adulação já recomeçou. Ele é «fixe». Obama, um dos presidentes mais violentos, deu rédea solta ao aparelho de fazer guerra do Pentágono, aparelho desacreditado pelo seu antecessor. Obama perseguiu mais denunciantes (whistleblowers) – os que dizem a verdade – do que qualquer outro presidente. Sentenciou Chelsea Manning como culpada ainda antes de ter sido julgada. Obama, actualmente, leva a cabo uma campanha mundial sem precedentes de terrorismo e assasinato com drones.
   
Em 2009, Obama prometeu «livrar o mundo de armas nucleares» e obteve o Prémio Nobel da Paz. Ora, nenhum presidente americano construiu mais mísseis nucleares do que Obama. Ele «modernizou» o arsenal americano do dia do juízo final, incluindo uma nova arma «mini» nuclear cuja dimensão e tecnologia «inteligente» é tal que o seu uso «já não é impensável», assegura-nos um general de topo.
   
James Bradley, o escritor da obra mais vendida Flags of Our Fathers, filho de um dos fuzileiros dos EUA que içou a bandeira em Iwo Jima, disse: «[Um] grande mito que vemos ser apresentado é o de Obama como uma espécie de fulano pacífico, que está a procurar livrar-se de armas nucleares. Ele é o maior guerreiro nuclear que existe. Está a empenhar-nos numa corrida ruinosa de gastos de triliões [milhões de milhões] de dólares em mais armas nucleares. De uma forma ou de outra, as pessoas vivem nesta fantasia, de que pelo facto de ele dar vagas conferências de imprensa e prelecções, bem como mostras fotográficas do tipo «está tudo bem», tal fantasia corresponde à política que é seguida. Não corresponde.»
   
Sob o cuidado de Obama está a ser preparada uma nova guerra fria. O presidente russo é um vilão de pantomina; os chineses ainda não estão sob a forma caricatural e sinistra da longa trança – quando todos os chineses foram banidos dos EUA – mas os guerreiros dos media já estão a trabalhar nisso.
   
Nem Hillary Clinton nem Bernie Sanders se referiram a qualquer destes temas. Para eles não há riscos nem perigos para os EUA e todos nós. Para eles a maior concentração de tropas nas fronteiras da Rússia desde a Segunda Guerra Mundial não aconteceu. A 11 de Maio a Roménia apareceu nos ecrãs com uma base NATO de «mísseis de defesa», com os seus mísseis americanos de primeiro-ataque apontados ao coração da Rússia, a segunda potência nuclear mundial.
   
Na Ásia o Pentágono está a enviar navios, aviões e forças especiais para as Filipinas, para ameaçar a China. Os EUA já cercam a China com centenas de bases militares que fazem um arco da Austrália à Ásia e através do Afeganistão. Obama chama um «pivot» a isto.
   
Em consequência directa disto a China reportou ter alterado a sua política de armas nucleares de não-primeiro-ataque para um alerta elevado e colocou armas nucleares em submarinos. A escalada acelera-se.
   
Foi Hillary Clinton quem, como Secretária de Estado em 2010, trasnformou em questão internacional a competição por reivindicações territoriais de rochedos e recifes no Mar do Sul da China. Seguiram-se a histeria da CNN e BBC; a China estaria a construir pistas nas ilhas disputadas. Nos seus enormes jogos de guerra em 2015, a Operação Sabre Talismã, os EUA praticaram no «entupimento» do Estreito de Malaca, através do qual passa a maior parte do petróleo e comércio chinês. Mas isto não foi notícia.
   
Clinton declarou que a América tem um «interesse nacional» nas águas asiáticas. As Filipinas e o Vietname foram encorajados e subornados para fazer valer as suas reivindicações e velhas inimizades com a China. Na América, o povo está a ser preparado para ver uma ofensiva em qualquer posição defensiva da China, preparando assim o terreno para rápida escalada. Uma estratégia semelhante de provocação e propaganda está a ser aplicada à Rússia.
   
Clinton, a «candidata feminina», deixou um rasto de golpes sangrentos: nas Honduras, na Líbia (acrescido do assassínio do presidente líbio), e na Ucrânia. Esta última é agora um parque temático da CIA, enxameado de nazis, e linha da frente de uma guerra apontada à Rússia. Foi através da Ucrânia  – literalmente, país fronteira  – que os Nazis invadiram a URSS, que perdeu 27 milhões de seres humanos. Esta catástrofe épica permanece presente na Rússia. A campanha presidencial de Clinton recebeu dinheiro de todos menos um dos dez maiores fabricantes de armamentos. Não houve nenhum outro candidato que ficasse perto disso.
   
Sanders, a esperança de muitos jovens americanos, não é muito diferente de Clinton na sua visão de propretário do mundo. Apoiou Bill Clinton no bombardeamento ilegal da Sérvia. Apoiou Obama no seu terrorismo por drones, na provocação e no re-envio de forças especiais (esquadrões da morte) ao Iraque. Não teve nada a dizer nas ameaças à China e na aceleração do risco nuclear. Concorda que Edward Snowden deveria ser julgado e chama a Hugo Chavez – um social-democrata como ele – «um ditador comunista morto». Promete apoiar Clinton se esta for nomeada.
   
A eleição de Trump ou Clinton é a ilusão da escolha que não é escolha: duas faces da mesma moeda. Ao transformar minorias em bodes escapatórios ou prometer «fazer de novo grande a América», Trump é o populista doméstico de extrema-direita; Clinton, porém, pode ser mais letal para o mundo.
«Só Donald Trump disse algo de significativo e crítico da política estrangeira dos EUA», escreveu Stephen Cohen, professor emérito de História da Rússia da Universidade de Princeton e NY, um dos poucos peritos americanos sobre a Rússia que falou sobre o risco de guerra.
   
Cohen referiu-se numa emissão da rádio a questões críticas que só Trump tinha levantado. Entre elas: porque razão estão os EUA «em todo o lado no globo»? Qual é a verdadeira missão da NATO? Porque razão os EUA sempre procuraram mudar os regimes no Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia? Porque razão Washington trata a Rússia e Vladimir Putin como inimigos?
   
A histeria dos meios de comunicação liberais sobre Trump serve como ilusão de um «debate livre e aberto», de «democracia em acção». As ideias de Trump sobre os imigrantes e muçulmanos são grotescas; contudo, o deportador-mor de pessoas vulneráveis não é Trump mas Obama, cuja traição à população de cor é o seu legado, bem como o armazenamento nas prisões de uma população de maioria negra, que é agora mais numerosa que o Gulag de Estáline.
   
A campanha presidencial pode não ser sobre populismo, mas sobre liberalismo americano, uma ideologia que se auto-considera moderna e, por isso, superior, e única via verdadeira. Os que se situam à sua direita têm uma semelhança com os imperialistas cristãos do séc. XIX, com o dever divino de converter, co-optar ou conquistar.
   
Na Inglaterra isto é Blairismo. O criminoso de guerra cristão Tony Blair não foi incomodado por causa da sua preparação secreta da invasão do Iraque em grande medida porque a classe política liberal e os meios de comunicação apoiaram o seu «Britannia é fixe». O aplauso do  Guardian era ensurdecedor; ele foi chamado de «místico». Uma diversão importada dos EUA, conhecida como identidade política, ficou facilmente ao seu cuidado.
   
A História foi declarada terminada, as classes foram abolidas, e o género promovido a feminismo; inúmeras mulheres tornaram-se deputadas do Novo Partido Trabalhista: votaram no primeiro dia no Parlamento em cortes de benefícios de pais sozinhos – mães na maioria – conforme tinham sido instruídas a fazer, e uma maioria votou pela invasão que produziu 700.000 viúvas iraquianas.
   

O equivalente a isto nos EUA são os belicistas politicamente correctos do  New York Times, do Washington Post e das redes de TV que dominam o debate político. Assisti ao furioso debate na CNN sobre as infidelidades de Trump. Claramente, disseram os da CNN, não se poderia confiar num homem como ele para a Casa Branca. Não foram levantadas questões. Nem uma palavra sobre os 80% de americanos cujo rendimento colapsou para níveis de 1970. Nada sobre a deriva para a guerra. A mensagem sensata transmitida parece ter sido «apertem o nariz» e votem por Clinton: qualquer um menosTrump. Desta maneira, vocês travam o monstro mas preservam o sistema que tem fome de uma nova guerra.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Marxismo e Ciência: Materialismo Histórico (7)

Continuação de / Continuation of:

De [0]:
11 – Evolução Histórica das Formações Sociais
  ----------------------- Artigo Presente ----------------------
  B4 – Capitalimo
    B4D – Capitalismo Liberal
(Continua no próximo artigo)
From [0]:
11 – Historical Evolution of Social Formations
----------------------- Present Article ----------------------
  B4 – Capitalism
    B4D – Liberal Capitalism
 (Continues in a next article)

B4 – Capitalismo

«Todo o trabalho do escravo parece ser trabalho não pago. É o inverso no trabalho assalariado: até o sobretrabalho ou trabalho não pago parece ser trabalho pago.»
Marx, O Capital, vol. 1, cap. 19

O capitalismo é o mais sofisticado modo de produção (MP) classista. Vejamos porquê.
   
Nas anteriores formações sociais (FSs) classistas a classe dominante, proprietária dos principais meios de produção, apropria-se directamente do sobreproduto da(s) classe(s) explorada(s). O produtor explorado do esclavagismo e do feudalismo «vê» o sobreproduto: ele tem existência física individualizada. O produto do trabalho do escravo para o seu senhor é visível. O camponês e o artesão do feudalismo também vêem o sobreproduto, aquilo que excede o seu consumo e é entregue ao senhor na forma de renda em trabalho ou em espécie. Quando a circulação monetária se difunde no feudalismo, mesmo aí, o sobreproduto tem uma existência individualizada na forma de renda em dinheiro.
   
No capitalismo a apropriação de sobreproduto é indirecta, através da incorporação do valor do sobretrabalho no valor das mercadorias. Chamamos mais-valia ao valor do sobretrabalho e nela assenta o lucro capitalista. O trabalhador assalariado não «vê» a mais-valia. Ela faz parte do preço da mercadoria (ou serviço) destinada ao mercado. Daí a natureza aparentemente misteriosa do lucro [1]. Para o trabalhador, o seu salário parece-lhe ser a paga do seu trabalho. E assim é afirmado pelos defensores do capitalismo. Mas, de facto, não é: o salário é a paga da força de trabalho, isto é, da capacidade de produzir um produto do trabalho cujo valor excede o necessário para a manutenção da força de trabalho em dadas condições sociais (alimentação, vestuário, habitação, etc.) [2].
   
Não é a existência de mercados que caracteriza o capitalismo. Também havia mercados nas anteriores FSs, embora com papel regional e local, limitando-se frequentemente à troca em espécie, e sujeitos a factores extra-económicos: coacção física, tradições locais, imposições da nobreza e clero, etc. Na formação do valor de troca das mercadorias no mercado a sua medição pelo «tempo de trabalho socialmente necessário» – a lei do valor de Marx – só opera quando os mercados se desenvolvem no final do mercantilismo, o capitalismo ascende e com ele a circulação monetária, determinante na medição do valor, e ainda com a existência de vários capitalistas concorrendo com os mesmos produtos. Tudo isto conduz à formação do valor (valor de troca) pelo «tempo de trabalho socialmente necessário» [3].
   
Consideremos uma dada quantidade de dinheiro: D. No comércio de mercadorias o comerciante compra com D – capital comercial – mercadorias, M, que vende, obtendo D’ = D + g, sendo g o ganho ou perda do comerciante. O ciclo do capital comercial é D --> M --> D’. Nas manufacturas pelo sistema doméstico, o comerciante comprava matérias-primas, mp, como mercadorias M. Transformadas por artesãos em suas casas em outras mercadorias, M’, estas eram vendidas por D’. Designando por ct o custo do trabalho dos artesãos, temos o ciclo manufactureiro: D --> M={mp} --> M’ --> D’ --> D’ct.  O comerciante manufactureiro só adiantava de D a parte mp pagando depois da venda (subtraindo a D’) o valor combinado de ct que incluía o consumo próprio dos artesãos e a depreciação dos seus meios de trabalho. O manufactureiro tinha pouco controlo sobre ct e nenhum sobre o processo produtivo. Com o advento da fábrica, o industrial gasta dinheiro em cada ciclo produtivo em meios de produção, Mp (essencialmente mp e custos de depreciação de máquinas e outros equipamentos), e em força de trabalho, T. O ciclo do capital industrial é D --> M = Mp + T --> P -->  M’ --> D’, com o valor de M’ maior que o de M. A força de trabalho funciona como qualquer mercadoria comprada pelo industrial. E este controla o processo de produção P.
   
Vemos, assim, que existe um mercado específico no capitalismo. É o mercado de trabalho. Ao contrário do que acontecia no feudalismo, no capitalismo o produtor não dispõe de meios de produção. (Estamos a falar, claro, dos meios que correspondem à economia dominante da FS: os principais meios de produção.) Para viver, o produtor (p. ex., o operário nas indústrias manufactureiras) tem de vender a sua força de trabalho no mercado de trabalho, dado que a propriedade dos meios de produção é privada. Na sociedade capitalista o produtor é «livre» à face da lei. Mas a lei em qualquer FS é um elemento superestrutural constrangido à base económica, ao MP. Resulta, então, que o produtor é «livre» de se submeter à eventual oferta de trabalho pelos capitalistas, vendendo-lhes, por um salário, a única mercadoria que possui e procura reproduzir: a sua força de trabalho. Se não quiser, não puder ou estiver privado do gozo dessa «liberdade», é «livre» de ser mendigo, viver de biscates, à custa de outros, etc.
«A única característica definidora de uma formação social [classista] como capitalista é a constatação de que o trabalho assalariado é a forma principal pela qual a população produtora é explorada pela classe proprietária [dos meios de produção] e controladora [da FS].» [4]
   
A obtenção a partir de M de um M’ de maior valor no ciclo industrial só pode dever-se ao uso da mercadoria T, dado que os meios de produção são valores «congelados» que apenas transmitem a M’ uma parcela do valor por que foram pagos. A única e especial mercadoria capaz de, pelo seu uso, criar mais valor do que o necessário para restaurar o seu estado inicial, é a força de trabalho. O capitalista paga D = M = Mp + T, onde T são os salários dos trabalhadores; obtém uma mercadoria (ou produção de um serviço) cujo valor é M’ = Mp + T + p, onde psempre positivo – representa o valor criado pelo sobretrabalho, isto é, em excesso das necessidades de restauro da força de trabalho: a mais-valia. A mais-valia traduz-se num lucro do capital com uma taxa de lucro, p/D. Logo, o capital não é simplesmente uma coisa material como muitos defendem [5]. É mais do que isso: é uma relação social de produção que constrange o produtor à produção de mais-valia apropriada pelo capitalista.
   
Convém também, desde já, esclarecer algo que se presta a muitas confusões. O que caracteriza o capitalismo não é a existência de mais-valia num sentido lato de sobreproduto excedente sobre o consumo. Tomado nesse sentido, nenhuma FS existe sem mais-valias, que correspondem à diferença entre o que uma sociedade produz e o que consome. Assim, no socialismo, p. ex., também existem mais-valias. Há sempre necessidade de mais-valias: para prestações sociais, para repor equipamentos que se depreciam ao longo do processo produtivo, para substituí-los por outros equipamentos, etc. O que caracteriza um MP classista não é a existência de mais valias, mas sim a apropriação privada das mais-valias e, no MP capitalista, a sua extracção e aplicação guiadas essencialmente pelo móbil do lucro da classe capitalista [6].
   
Terminamos estas notas com um trecho de [7]. Escrito em 1934, mantém ainda a sua importância e transmite o pano de fundo do exposto a seguir.
«O capitalismo surgiu na história como uma força revolucionária, guerreando as relações políticas, económicas e culturais do feudalismo. Os lucros são o coração do capitalismo, os mercados o seu sistema de circulação; por isso, a produção capitalista requer a transformação da produção para uso em produção para lucro e cada vez maiores mercados. A produção capitalista também precisou dum mercado de trabalho livre, de trabalhadores deapropriados, distintos de escravos e servos pela sua “liberdade” de trabalhar em qualquer lado por um salário […] Este movimento esteve ligado à necessidade de livre empreendi-mento e competição, de laissez-faire, individualis-mo e democracia: os representantes revolucionári-os da burguesia, transcendendo as suas necessida-des imediatas, invocaram um ideal de democracia e individualismo, hoje totalmente repudiado pelo imperialismo e fascismo […] Uma vez no poder o capitalismo abandonou os ideais revolucionários, que ameaçavam os seus interesses de classe. Esses ideais tinham tido sempre aplicação prática limitada; o laissez-faire nunca foi totalmente aceite pela burguesia [...] e o capitalismo recorreu ao proteccionismo, monopólio, e ajuda estatal […] A democracia foi limitada à democracia burguesa […] uma ideologia que assegurava o domínio capitalista, com os trabalhadores forçados a lutar por direitos democráticos. O capitalismo desen-volveu-se desigualmente; produziu crises econó-micas e guerras recorrentes, limitou a expansão do mercado doméstico em prol de lucros elevados em mercados estrangeiros, incluindo a exploração colonial […]»
    
B4D – Capitalismo Liberal
    
FSs: B4D vai de meados do século XVIII até ao início do séc. XX. A Inglaterra é o país clássico de B4D. Do início do séc. XX até à 2.ª Guerra Mundial (2ªGM) tem lugar um período de transição para B4C. Podemos dizer que B4D começa e termina com o liberalismo.
   
RdP: A burguesia industrial é a classe dominante. Extrai mais-valia do proletariado. Existem várias indústrias de pequena ou média dimensão em cada sector de actividade, que concorrem nos mercados interno e externos. Em B4D as indústrias de serviços, com excepção dos bancos, têm expressão reduzida. As burguesias comercial e financeira também vivem da mais-valia criada pelo proletariado, como apêndices da burguesia industrial: para realizar a mais-valia como lucro do capital (a conversão M’ --> D’ no mercado) o industrial tem, em geral, de recorrer ao comércio, prescindindo de parte da mais-valia (o g acima é parte de p) como pagamento do serviço comercial [8]; para efectuar o investimento necessário a vários ciclos produtivos – aquisição de Mp e T – o industrial tem, em geral, de recorrer ao crédito, que lhe cobra um juro de empréstimo a deduzir da mais-valia [9]. Os órgãos do Estado e as profissões liberais vivem, através de impostos e pagamentos de serviços, dos salários dos assalariados e também da mais-valia no caso da classe capitalista e seus apêndices (p. ex. os gestores). Tal como no esclavagismo e feudalismo o Estado no capitalismo está essencialmente e obviamente ao serviço da respectiva classe dominante: a burguesia.
   
Em B4D existem PPs e também classes de B3D (nobreza, artesãos, manufactureiros, etc.) em muitas regiões da Europa Meridional e de Leste, até ao século XX. No Japão até ao final da 2ªGM.
   
No capitalismo liberal não há intervenção do Estado nos assuntos dos capitalistas. As decisões económicas e em larga medida as políticas são tomadas de forma descentralizada pela burguesia, quer através de parlamentarismo quer de modo informal.
   
OrgPol: Monarquias e repúblicas de democracia burguesa. Até meados do séc. XIX só eram elegíveis para o Parlamento os possidentes (com raros períodos de excepção em poucos países): tinham de ter fortuna e/ou rendimentos superiores a certo valor. Idem, para o direito de voto. As mulheres só conquistaram o direito de voto a partir de 1893. A actividade editorial, jornalística e eleitoral era controlada pela burguesia. Em muitos regimes parlamentares existem órgãos elitistas que constituem uma defesa suplementar dos interesses da alta burguesia: Câmara dos Lordes, Câmara dos Pares, Senado, etc.
   
Evolução [10]:
   
A 1.ª Revolução Industrial e o Liberalismo
A primeira revolução industrial, das máquinas a vapor, surgiu no último quartel do séc. XVIII: máquina Watt usada a partir de 1775 e primeira fábrica de fiação com máquinas a vapor em Nottingham em 1785. A par das fábricas de fiação, tecelagem, e produção de tijolos, cresceu rapidamente a produção de ferro (para a construção de máquinas) em altos-fornos.
É imposta uma exploração brutal de um proletariado miserável. Vários escritores assinalam na 1.ª metade do séc. XIX, com base em inquéritos oficiais, que o proletariado inglês era considerado uma classe fora da lei; muitos operários chegavam a trabalhar até 20 horas seguidas e doze a catorze horas crianças de 6 a 8 anos. Obrigado a revoltar-se contra as duras condições económicas e sociais, o proletariado irá conquistar passo a passo os seus direitos: organização sindical (em 1834, pouco depois reprimida), greves e imprensa operária (Poor Man’s Guardian em 1830).
   
A sede do lucro, de vencer a competição face a concorrentes no mesmo ramo de negócio, incita a: aumento da produção e alargamento dos mercados, no estrangeiro e nas colónias (William Pitt: «A política britânica é o comércio britânico» [11]); liberalismo (laissez-faire), isto é, liberdade para a burguesia produzir, comerciar e pagar a mão-de-obra como entendesse, sem intervenção do Estado; leis proteccionistas face à importação de produtos estrangeiros; leis contra os pobres, obrigando-os compulsivamente a trabalhar nas fábricas; leis proibindo coligações dos operários.
   
Da ideologia liberal, cujo expoente da época é Adam Smith, fazem parte:
- A aceitação da desigualdade social, porque imposta pela «Providência», e a defesa da exploração dos trabalhadores ao abrigo da ideia hipócrita de que é preciso haver ricos para que os pobres não sejam tão pobres, bem como da ideia de que os pobres acabam por ser mais felizes porque não têm preocupações [12];
- Outra linha de defesa hipócrita da desigualdade social é a ideia da filantropia dos ricos, bem representada pelo político francês Adolphe Thiers [13] cuja aplicação prática de filantropia iremos apreciar mais tarde;
- A defesa da ordem social existente: «O governo civil já que foi instituído para a segurança da propriedade é, na realidade, instituído para defender os ricos contra os pobres» [14];
- Oposição a tudo que possa restringir a «liberdade do trabalho»: «o património do pobre reside na força e habilidade das suas mãos; e impedi-lo de aplicar esta força e esta habilidade da maneira que ele julgar mais conveniente, desde que não cause prejuízo a ninguém, é uma violação manifesta desta propriedade primitiva. É uma usurpação gritante da liberdade legítima, tanto do operário como daqueles que estariam dispostos a dar-lhe trabalho» [15];
- A defesa de «o sistema óbvio e simples da liberdade natural» que se exerce através do mercado [16]; Thomas Paine considera mesmo que no limite não seria preciso haver governos, mas só mercados;
- A limitação do Estado ao papel de apoio da burguesia, usando a polícia e a tropa para esmagar qualquer protesto operário, e o exército e marinha para a expansão colonial. O ideólogo liberal Bastiat insiste em reduzir o mais possível toda a acção do Estado: «A acção governamental é essencialmente limitada a fazer reinar a ordem, a segurança, a justiça. Fora destes limites, é usurpação da consciência, da inteligência, do trabalho, numa palavra da Liberdade humana» (citado em [10]).
   
Outro expoente do liberalismo foi Jean-Baptiste Say que considerou a propriedade, liberdade e prosperidade como indissociáveis: propriedade de activos produtivos e dos rendimentos que produzem; liberdade de usar esses activos como a burguesia quiser pois «toda a restrição não necessária para proteger os direitos de alguém, é um atentado à propriedade»; prosperidade para todos – ricos e pobres – porque «os seus interesses são exactamente os mesmos». Reconhece que, sem dúvida, «é uma grande infelicidade ser pobre», mas «essa infelicidade é bem maior quando rodeados de outros pobres […] Um pobre tem mais meios de ganhar a vida e alcançar o desafogo se se encontra numa população rica […] É pelos seus interesses que o rico fornece ao pobre terreno, utensílios, adubos, sementes e que o alimenta até à colheita». Say escreveu um «catecismo de economia política» onde considera trabalho, capital e terra como três factores de produção, remunerados de acordo com a sua contribuição para a produção [17]. Um postulado que ainda é hoje o da economia convencional, tal como outras explicações «científicas» dos economistas britânicos da época: lei da oferta e da procura em concorrência perfeita, trabalho e capital em pé de igualdade como factores de produção, teorias marginalistas.
   
Crescimento Capitalista no séc. XIX
   
Depois da Inglaterra (GBR) o MP capitalista ascende na França (FRA), Alemanha (DEU) e EUA (USA). Também ascende no final do séc. XIX em países mais fracos, como Portugal [18]. As três principais indústrias em 1780-1880 são: algodão, ferro e caminhos-de-ferro. A produção industrial inglesa correspondia a cerca de ¼ da produção mundial. Con a França, Alemanha, e EUA, correspondia a uma fracção entre 2/3 a 3/5 da produção mundial (ver Tabela 1). A libra esterlina inglesa (£), convertível em ouro, foi a moeda internacional até 1898.
B4 – Capitalism

“All the slave’s labor appears as unpaid labor.
In wage labor, on the contrary, even surplus labor, or unpaid labor, appears as paid.”
Marx, Capital, vol. 1, ch. 19

Capitalism is the most sophisticated class-based mode of production (MP). Let us see why.
   
The dominant class in the previous class-based social formations (SFs), owner of the main means of production, appropriates the surplus-product of the exploited class/es in a direct way. The exploited producer of slavery and of feudalism “sees” the surplus-product: it has an individualized physical existence. The work product of the slave is clearly visible. The peasant and craftsman of feudalism also see the surplus-product, everything in excess of his consumption given over to the lord under the form of rent in work or in kind. When money circulation becomes widespread in feudalism, even then the surplus-product has an individualized existence under the form of rent in money.
   
The appropriation of surplus-product in capitalism is done in an indirect way, through the embodiment of surplus-labor value in the value of commodities. The value of surplus-labor is called surplus-value and constitutes the basis of capitalist profit. The wage-workers don’t “see” the surplus-labor. It is a part of the commodity (or service) price submitted to the market. From this stems the apparently mysterious nature of profit [1]. To the worker, the wage seems to be the payment of his labor. This is what the defenders of capitalism assert. But, in fact, it is not: the wage is the payment of the labor power, that is, of the capability of producing a labor product whose value exceeds what is needed to the maintenance of the labor power in given social conditions (nourishment, clothing, housing, etc.) [2].
   
The existence of markets is not what characterizes capitalism. The previous SFs also had markets, though with a regional and local role, and often being restricted to barter, and subject to extra-economic factors: physical constraint, local traditions, impositions of nobility and clergymen, etc. As to the market formation of an exchange value of goods, its measurement by the “socially needed labor time” – Marx’s law of value – is only operational when markets become developed in the final stage of mercantilism, capitalism rises, with the money circulation having a determinant role in the measurement of value, and furthermore with the existence of several capitalists competing with the same goods. All this leading to the formation of value (exchange value) by the “socially needed labor time”. [3]
   
Let us consider a given amount of money: D. In commodity trading, the trader buys with D – commercial capital – commodities, M, that he sells, obtaining D’ = D + g, with g the trader‘s gain or loss. The cycle of commercial capital is D --> M --> D’. In the manufactures of the putting-out system the trader bought raw materials, rm, as commodities M. Transformed by craftsmen at their homes into merchandises, M’, they were sold by D’. Denoting by lc the craftsmen labor costs, we get the manufacture cycle: D --> M={mp} --> M’ --> D’ --> D’lc. The manufacturing trader advanced from D only the amount rm, paying the agreed upon lc after the sale took place (subtracting lc from D’). The amount lc included the craftsmen own consumption and the depreciation of their working means. The manufacturer had little control over lc and none at all over the production process. With the advent of factories the industrial entrepreneur spent his money, in each productive cycle, in means of production, Mp (essentially, rm plus depreciation costs of machinery and other equipments), and in labor power, W. The industrial capital cycle is D --> M = Mp + W --> P --> M’ --> D’, with the value of M’ greater than M. The labor power enters the cycle as any commodity purchased by the entrepreneur, who is in control of the production process P.
   
We then see that there is a specific market in capitalism. The labor market. Instead of what ran in feudalism, the producer in capitalism owns no means of production. (We mean, of course, means corresponding to the dominant economy of the SF, the main means of production.) In order to earn a living the producer (e.g., the wage-worker in the manufacturing industries), must sell his labor power in the labor market, since the property of the means of production is in private hands. In the capitalist society the producer is “free” as regards to law. But the law in every SF is a super-structural element constrained by the economic basis, the MP. It then follows that the producer is “free” to submit to the eventual employment offer of the capitalists, selling them in exchange of wages the sole commodity that he owns and strives to reproduce – his labor power. If he doesn’t want, cannot, or is deprived of the enjoyment of such “freedom”, he is “free” to be a beggar, to live out of odd jobs, at the charge of others, etc.
“The sole defining characteristic, therefore, of whether a [class-based] social formation is capitalist is whether wage labor is the primary form by which the producing population is exploited by the owning [of means of production] and controlling [of the SF] class.” [4]
   
Obtaining a greater valued M’ from M in the industrial cycle can only be due to the use of the commodity W, since the means of production are “frozen” values, which can only transmit to M’ a part of the value they were bought for. The unique and special commodity capable, by its use, of creating more value than what is needed to restore its initial state, is the labor power. The capitalist pays D = M = Mp + W, where W are the workers wages. He obtains a commodity (or the production of a service) whose value is M’ = Mp + W + p, with palways positive – is the value created by surplus work, that is, in excess of restoration needs of labor force: the surplus-value. The surplus-value translates into a profit for the capital, with a profit rate, p/D. Hence, capital is not simply a material thing as claimed by many [5]. It is more than that: it is a social relation of production constraining the producer to the production of surplus-value appropriated by the capitalist.
   
It is important to clarify at this point something that is often misconstrued. What characterizes capitalism is not the existence of surplus-value, in a broad sense of surplus-product in excess of consumption. Taken in that sense no SF exists without surplus-values, which correspond to the difference between what a society produces and what it consumes. As an example, there also surplus-values in socialism. There is always a need of surplus-values: for social handovers, to repair equipments which depreciated during the productive process, to substitute them by other equipments, and so on. What characterizes a class-based MP is not the existence of surplus values, but indeed the private appropriation of surplus values and, in the capitalist MP, their extraction and application essentially guided by the profit drive of the capitalist class [6].
   
We end these notes with an excerpt from [7]. Written in 1934, it maintains its relevance and sets the background of what follows below.
“Capitalism appeared in history as a revolutionary force, waging war upon the economic, political, and cultural relations of feudalism. Profits are the heart of capitalism, markets its circulating system; capitalist enterprise consequently required the transformation of production for use into production for profit and increasingly larger markets. Capitalist production also needed a free labor market of propertiless workers distinguished from serfs and slaves by their “freedom” to work for wages anywhere [...] This movement was bound up with the necessity for freedom of enterprise and competition, of laissez-faire, individualism, and democracy: the revolutionary representatives of the bourgeoisie, transcending immediate needs, invoked an ideal of individualism and democracy which is now completely repudiated by imperialism and fascism […] Once in power capitalism abandoned its revolutionary ideals: they now threatened its own vested class interests. These ideals had always had a limited practical application; thus laissez-faire was never wholly accepted by the bourgeoisie […] and capitalism resorted to protectionism, monopoly, and state aid [...] Democracy was limited to bourgeois democracy. […] an ideology insuring capitalist domination, with labor forced to fight for democratic rights. Capitalism developed unevenly; it produced recurrent economic crises and wars, limited expansion of the home market in favor of the larger profits of overseas markets, including colonial exploitation”
    
B4D – Liberal Capitalism
    
SFs: B4D spans from the middle of the 18th century to the beginning of the 20th century. England is the classic country of B4D. From the early 20th century until WWII a transition period to B4C sets in. We may say that B4D begins and ends with liberalism.
   
RoP: The industrial bourgeoisie is the dominant class. It extracts surplus-value from the proletariat. There exist in each sector of activity several small and medium-sized industries, competing with each other in the domestic and foreign markets. The industries of services are, with the exception of banking, of reduced expression in B4D. The commercial and financial bourgeoisies also live from the surplus-value created by the proletariat, as appendices of the industrial bourgeoisie: in order to realize the surplus-value as a capital profit (the M’ --> D’ market conversion) the industrial entrepreneur has in general to resort to the commerce, doing without part of the surplus-value (the above g is part of p) as payment of the commercial service [8]; to perform the investment needed for several productive cycles – purchase of Mp and W – the industrial entrepreneur has in general to resort to credit operations charging him a loan interest to be subtracted from the surplus-value [9]. The organs of State and the liberal professions live, through taxes and service payments, from the wages of the workers and in the case of the capitalist class and their foremen (e.g. the CEOs) also from the surplus-value they created. As in slavery and feudalism the State in capitalism is essentially and obviously at the service of the respective dominant class: the bourgeoisie.
   
There are petty producers in B4D. Classes of B3D (nobility, craftsmen, manufacturers, etc.) persist in regions of Southern and Eastern Europe until the 20th century. In Japan they persist until the end of WWII.
   
In liberal capitalism there is no State intervention in capitalist affairs. Economic decisions and to a large extent political decisions are taken in a decentralized way by the bourgeoisie, either through parliamentarism or through informal ways.
   
PolOrg: Parliamentary monarchies and republics of bourgeois democracy. Until the middle of the 19th century only the propertied layer could be elected to parliamentary institutions (with rare exception periods in a few countries): only those who had wealth and/or income above a certain threshold could be elected. Likewise, in order to have voting rights. Women won voting rights only after 1893. The editorial, journalistic and electoral activities were controlled by the bourgeoisie. There are elitist chambers in many parliamentary regimes as a supplementary defense line of the interests of the upper bourgeoisie: House of the Lords, House of the Peers, Senate, etc.
   
Evolution [10]:
   
The 1st Industrial Revolution and Liberalism
The first industrial revolution, of the steam engines, started in the last quarter of the 18th century: the Watt’s machine was used from 1775 onward and the first spinning factory with steam engines appeared in Nottingham in 1785. Together with spinning, weaving, and brick-making factories, the production of pig iron (for engine construction) in blast furnace grew rapidly.
A ruthless exploitation is imposed on a wretched proletariat. Several writers report during the 1st half of the 19th century, on basis of official enquiries, that the English proletariat was considered an outlaw class; many workers had to work up to twenty consecutive hours and children of 6 to 8 eight years old worked twelve to fourteen hours. Obliged to rebel against the hard economic and social conditions, the proletariat will conquer step by step its rights; trade-union organization (in 1834, repressed soon after), strikes, and workers’ press (Poor Man’s Guardian in 1830).
   
The thirst for profit, for winning the competition against competitors in the same business branch, incites to: increasing production and widening of markets, both abroad and in the colonies (William Pitt: “The British policy is the British trade” [11]); liberalism (laissez-faire), that is, freedom for the bourgeoisie to produce, to trade, and to pay the labor force as it saw fit, without State intervention; protectionist laws against importing foreign goods; laws against the poor, obliging them compulsively to work in the factories; laws forbidding any coalitions of workers whatsoever.
   
The following traits characterize the liberal ideology epitomized by Adam Smith:
- The acceptance of social inequality, since it was imposed by the “Providence”, and the defense of the exploitation of the workers based on the hypocritical idea that rich men are needed in order that the poor are not that much poor, as well as the idea that the poor end up being happier because they have no worries [12];
- Another line of hypocritical defense of social inequality is the idea of the philanthropy of rich people, well represented by the French politician Adolphe Thiers [13] whose practical application of philanthropy we’ll appreciate later;
- The defense of the existing social order: “Civil government, so far as it is instituted for the security of property, is in reality instituted for the defense of the rich against the poor” [14];
- Opposition to anything that may restrain the “freedom of work”: “The patrimony of a poor man lies in the strength and dexterity of his hands; and to hinder him from employing this strength and dexterity in what manner he thinks proper without injury to his neighbor, is a plain violation of this most sacred property. It is a manifest encroachment upon the just liberty both of the workman, and of those who might be disposed to employ him” [15];
- The defense of “the obvious and simple system of natural liberty”, which operates through the market [16]; Thomas Paine even considers that in the limit there should be no need of governments, only markets;
- The limitation of the State to the role of supporting the bourgeoisie, using police and troops to crush down any workers’ protest, and the army and the navy for the colonial expansion. The liberal ideologist Bastiat insists in reducing as much as possible the action of the State: “The governmental action is essentially limited to maintain the reign of order, the security, and the justice. Outside these limits it is usurpation of conscience, of intelligence, of labor, briefly of human Freedom” (quoted from [10]).
   
Another luminary of liberalism was Jean-Baptiste Say, who considered property, liberty and prosperity as inseparable: property of productive assets and of the profits they yield; freedom of using those assets as desired by the bourgeoisie since “any unnecessary restriction to protect the rights of someone is an attack against property”; prosperity for everybody – rich and poor – because “their interests are exactly the same”. He does recognize that indeed “it is a great unhappiness to be poor”, but “that unhappiness is far greater when surrounded by other poor […] A destitute finds more ways of earning a living and to be better off when he lives in a rich population […] It is in his interests that the rich man provides a poor man with land, working tools, manure, seeds, and that he feeds him until the crops”. Say wrote a “catechism of political economics” where he considers labor, capital, and land, as three factors of production which are paid according to their contribution to production [17]. A postulate that runs until today in mainstream economics, as well as other “scientific” explanations developed at that time by British economists: law of supply and demand in perfect market competition, labor and capital in equal footing as factors of production, and marginalist theories.
   
Capitalist Growth in the 19th century
   
Following England (GBR), the capitalist MP becomes dominant in France (FRA), Germany (DEU), and United States (USA). It also rises to dominance by the end of the 19th century in weaker countries such as Portugal [18]. The three main industries in the period 1780-1880 are: cotton, iron, and railways. The British industrial production amounted to about ¼ of the world production. Together with France, Germany, and USA, the production amounted to between 2/3 and 3/5 of the world production (see Table 1). The British sterling pound (£), convertible in gold, was the international currency until 1898.
    
Tabela 1. Evolução da produção industrial das principais potências capitalistas no séc. XIX. Adapt. de [10].
Table 1. Progress of industrial production of main capitalist powers in the 19th century. Adapted from [10].
Ano Year
GBR
FRA
DEU
USA
.
Fios de algodão (milhões de £)           Cotton threads (millions of £)
1830
250
68
16
77
1870
1101
220
147
400

Ferro (milhares de toneladas)             Pig Iron (thousands of tons)
1800
200
60
40
-
1860
3800
900
500
900

Caminhos-de-ferro (milhares de km)              Railways (thousands of km)
1850
11
3
6
-
1870
25
18
20
52

Potência de máquinas instaladas (milh. de CV) Power of installed machines (thousnds of HP)
1840
350
34
20
-
1870
900
336
900
-
    
A Inglaterra passa rapidamente de país agrícola a industrial: na produção total em valor, a indústria subiu de 42% em 1801 para 73% em 1871. Em França a indústria ainda só representava 55% em 1874. A produção de maquinaria era forte em Inglaterra: 29% da produção industrial em 1783 e 47% em 1883. Com um largo império colonial e como maior potência marítima, a Inglaterra detinha em 1860 ¼ do comércio mundial (França 11%, Alemanha 9%). Todavia, a balança comercial inglesa foi negativa durante todo o séc. XIX dada a enorme importação de matérias-primas e de bens de consumo. Em 1866-1870 o défice comercial inglês foi de -65 M£ (milhões de libras). A balança de pagamentos só foi positiva nesse período devido a retornos de investimentos no estrangeiro (+57 M£), de transportes marítimos (+45 M£) e de serviços bancários (+13 M£), o que prenuncia a fase imperialista do capitalismo [10].
   
A Inglaterra tem uma burguesia bem desenvolvida com a qual se fundiu a nobreza. Pelo contrário, na França manteve-se a nobreza rural e o atraso nos campos com formas feudais de exploração até cerca de 1830. Parte da burguesia ansiava ser aceite pela nobreza e parecer-se com ela. Um fenómeno que também marca a burguesia portuguesa [19]. No reinado de Carlos X em França (1825-1830) assistiu-se, inclusive, à tomada do poder pela nobreza fundiária que destronou a burguesia.
Nos EUA existiram três FSs até a guerra civil: B1D no sul; colonização por pequenos e médios produtores no Oeste, comparável à dos boers na África do Sul; B4D no Nordeste. Depois da guerra o capitalismo tornou-se o MP dominante. Alguns grandes capitalistas enriqueceram à custa da guerra: J. P. Morgan vendendo um stock de carabinas defeituosas ao exército e especulando em ouro; Jim Fisk vendendo cobertores ao exército; Vanderbilt alugando barcos a preços elevados ao governo federal; J. D. Rockefeller vendendo petróleo. «O capitalismo americano, ao contrário do europeu, não sofreu entraves de relíquias feudais ou de compromissos com a nobreza. […] O individualismo e a democracia burguesas desenvolveram-se mais livre e completamente que na Europa. Formou-se uma ideologia capitalista quase “pura”, que permitiu e justificou a exploração e acumulação irrestrita» [7]. O liberalismo irrestrito, juntamente com as «oportunidades» oferecidas pelos vastos territórios a Oeste, criou a lenda do «sonho americano».
   
Os casos da Alemanha e Japão merecem menção especial porque neles o capitalismo se desenvolveu com forte presença da nobreza a todos os níveis do Estado: um capitalismo com poucas características liberais que poderíamos chamar de capitalismo de Estado.
   
Na Alemanha é a nobreza latifundiária prussiana –  Junckers – quem detém o poder, formando uma casta militar em que irá assentar o imperialismo alemão. A temerosa e vacilante burguesia alemã foi incapaz de tomar o poder na revolução de 1848. O capitalismo progredirá graças ao Juncker e déspota iluminado, Otto von Bismarck (1860-1890).  Como Chanceler do imperador Guilherme I, unifica a Alemanha, criando um grande mercado interno, e inicia a prática do apoio estatal à industrialização, com tarifas proteccionistas nas importações que defendem as indústrias e fazem progredir a agricultura, tornando-a a mais próspera da Europa. O Estado alemão permanece um estado militarista, dominado pela nobreza com ingresso predominante nos militares que constituem uma casta aparte, no alto funcionalismo e na política externa. A democracia burguesa tem fortes limitações [20], os partidos liberais são confessionais (o luterano Nacional Liberal e o católico Partido do Centro), e o capitalismo é dependente da ajuda do Estado. Embora nunca tenha comandado tropas, Bismarck usava quase sempre o uniforme de general em público.
   
O crescimento capitalista no Japão descola em 1868 com a «restauração Meiji» [21] liderada por príncipes do Sul (Satsuma, Choshu, Tosa) com apoio de bancos e da corte de Kioto. O imperador restaurado e iluminado (meiji), tinha um poder divinizado, de unificador da nação. O poder estava de facto nas mãos de nobres oligarcas, representa-dos no Conselho do Imperador, dispostos a «modernizar» o Japão. Modernização liderada pelo Estado num quadro largamente feudal: os daimios tinham perdido os seus domínios mas receberam ricos estipêndios estatais tornando-se oligarcas; os altos samurais tornaram-se altos funcionários públicos e quadros do exército; o regime parlamentarista, moldado pelo Prussiano, esperou até 1888 e tinha uma Câmara dos Pares (membros da família real e alta nobreza) e Câmara dos Representantes, eleita pelos possidentes (450 mil votantes em 40 milhões), de poderes muito limitados, cujas leis podiam ser vetadas; um conselho extra-constitucional de antigos estadistas Satsuma-Choshu (genro) influenciava o conselho do imperador; uma burocracia asfixiante destinada a proteger os nobres, treinada no «desprezo pelo povo»; uma Constituição que enfatizava os deveres dos «súbditos», não os seus direitos [22]; um decreto imperial sobre Educação, mantendo o confucionismo como doutrina estatal para moldar um povo obediente, com valores de «lealdade e piedade filial».
Embora os nobres oligarcas apoiassem a iniciativa privada nas indústrias tradicionais [23], comércio e banca – a isto reduzindo o seu «liberalismo» – eram eles que faziam os grandes investimentos – por vezes, no que se poderia chamar de PPPs – e atraíam peritos internacionais para a indústria têxtil, moderna construção naval, caminhos-de-ferro e novas tecnologias. O crescimento industrial, baseado na exploração cruel do proletariado, foi rápido; os caminhos-de-ferro, cresceram de 200 milhas em 1881 para 4.500 em 1903; o comércio externo mais que quadruplicou entre 1870 e 1905. Muitas indústrias cresceram devido a aquisições militares. Como no feudalismo, o Japão Meiji era militarista: os militares só respondiam ao imperador, não ao governo; podiam derrubar governos demitindo-se dos seus postos e recusando apontar novas nomeações.
   
Lutas dos Trabalhadores no séc. XIX
   
Os trabalhadores progridem na sua luta ao longo do séc. XIX, passando de ajuntamentos de protesto e explosões de cólera a formas organizadas de luta.
Em Inglaterra surge o movimento Cartista (1838-1848) que reclama o sufrágio universal, o voto secreto, a elegibilidade dos não proprietários, e subsídios parlamentares para os eleitos sem fortuna. O movimento desune-se, é ameaçado e reprimido. Mesmo assim é obtido o sufrágio universal em 1867 e o direito de organização sindical em 1868. Nos EUA forma-se a União Nacional do Trabalho em 1866. Na Alemanha surge o Partido Social-Democrata em 1869, fortemente reprimido pelas leis anti-socialistas de 1878, abandonadas em 1890. O Japão tinha um regime muito repressivo que proibia e reprimia cruelmente quaisquer ajuntamentos, protestos e greves. A própria palavra «socialista» era proibida.
   
Em França a luta de classes foi particularmente intensa. Em 1831 revoltam-se os canutos, operários das indústrias de seda de Lião: «batemo-nos por pão e trabalho». A tropa esmaga a revolta: mais de mil mortos e feridos. O filantrópico Thiers não está com meias medidas e diz à tropa: «É preciso matar tudo. Não dar quartel. Sede implacáveis…É preciso abater três mil facciosos». Em 1848 têm lugar grandes manifestações em Paris, dos trabalhadores contra o governo, que terminam em fortes confrontos e barricadas. As tropas esmagam as barricadas. Resultado: milhares de mortos, 11 mil presos, dos quais alguns condenados á guilhotina, outros a trabalhos forçados, a deportações para a Argélia, etc.
Em 1871, na sequência da derrota francesa cujos generais abandonam Paris às tropas alemãs, dá-se a famosa insurreição popular conhecida por Comuna de Paris. Durante 72 dias reina em Paris o poder proletário. Apesar da coragem dos defensores a Comuna é esmagada por tropas Versalhesas, enviadas pelo filantrópico Thiers que obteve o apoio de Bismark. Os generais franceses não venceram os rapinantes invasores alemães; pelo contrário, portaram-se cobardemente. Mas foram rápidos em se aliar às altas patentes alemãs para reprimir com a maior bestialidade os trabalhadores franceses [24]. Uma de inúmeras demonstrações históricas dos distintos significados de «pátria» nas FSs classistas.
   
Desde muito cedo surgiram intelectuais a denunciar a exploração capitalista. Em 1793 já o filósofo político inglês William Godwin denunciava a desigualdade social e o facto dos ricos viverem da exploração do trabalho [25]. Mais tarde surgiram várias doutrinas socialistas e anarquistas utópicas. Todas elas vieram a desaparecer ou a perder importância no movimento operário, mantendo-se apenas até hoje, e objecto de constantes aportes, o socialismo científico de Marx e Engels desenvolvido em várias obras de investigação na 2.ª metade do séc. XIX. Marx e Engels foram fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores (Iª Internacional) com grande impacto no movimento operário internacional.

A Longa Depressão de 1873 e o Início do Imperialismo
   
Antes do capitalismo ocorriam crises económicas por causas exógenas à economia: más colheitas devido a causas climáticas, movimentos de povos, pestes, guerras, etc.
No capitalismo surgem pela primeira vez, nas FSs classistas, as crises (recessões, depressões) devido a causas endógenas do MP; isto é, devido a leis específicas do capitalismo, nomeadamente a lei da queda tendencial da taxa de lucro, descoberta por Marx, que traduz uma contradição fundamental do capitalismo: para aumentar o lucro e vencer a concorrência os capitalistas procuram aumentar a produtividade do trabalho usando meios de trabalho (maquinaria, automatização, etc.) mais sofisticados; esses meios são geralmente mais onerosos e necessitam de menos trabalhadores; o alargamento do seu uso traduz-se numa tendência geral do aumento de Mp/T – chamada composição orgânica do capital; para uma taxa de mais-valia, p/T, constante, a tendência do aumento de Mp/T traduz-se na tendência de diminuição de (p/T)/(1 + Mp/T) = p/D, isto é, da taxa de lucro.
   
No séc. XIX ocorreram quatro recessões em Inglaterra: em 1812, 1857, 1867 e 1873. A de 1873 é conhecida por Longa Depressão já que  durou cerca de 20 anos. Teve impacto mundial: colapsos de bancos em Inglaterra, Áustria, Alemanha, França, e EUA; quedas de bolsas; quedas no investimento e na produção; falências de indústrias; aumento do desemprego.
As crises da 1.ª metade do séc. XIX eram resolvidas automaticamente por:
a) Queda dos preços e redução da produção, liquidação de stocks a preços de saldo para cancelar dívidas --> forte redução do valor realizado --> eliminação das empresas mais fracas: purga periódica do capital que elimina os ramos mais fracos deixando a «seiva» subsistente de mais-valia para os ramos mais fortes. Esta purga, com a desvalorização de activos, leva geralmente a uma crise financeira.
b) Desemprego e redução dos salários reais --> baixa do consumo dos trabalhadores --> alargamento da crise, logo da purga  --> reinício da actividade dos ramos mais fortes e de novos ramos com força de trabalho disponível a mais baixo custo  --> a taxa de lucro começa a crescer.
   
Estas respostas automáticas do capitalismo continuam em vigor até hoje. A crise de 1873 apresentou, porém, fenómenos novos: mesmo com a purga do capital os preços continuaram baixos e a depressão entrou num quadro deflacionário com o PNB estagnado e alto desemprego. Estes novos fenómenos levaram a classe capitalista dos países avançados a adoptar novas respostas:
- Formação de cartéis a nível nacional que fixam níveis de produção e preços, coordenam investimentos e repartem mercados. Em 1914 havia 114 cartéis nos países avançados, 29 nas indústrias do carvão, 19 nas indústrias químicas, 18 nos transportes.
- Proteccionismo: o Estado decreta leis limitando ou impedindo as importações de produtos concorrentes com os domésticos.
- Utilização pelo patronato de medidas para elevar a taxa de mais-valia, p/T, logo a taxa de lucro, à custa de maior exploração dos trabalhadores, pela intensificação do ritmo de trabalho. É adoptado o taylorismo [26]: decomposição de tarefas em movimentos elementares, executáveis em tempo curto, cronometrados e impostos pela maquinaria.
   
Em 1880 tem início a 2.ª revolução industrial, da electricidade e dos motores de explosão: iluminação, geradores e motores eléctricos, transportes motorizados, indústrias do petróleo, automóveis, aeronáutica, etc. Com ela aumenta a influência do proletariado industrial, em número, organização sindical, partidos, e lutas contra o capital (elevado número de greves). As greves são brutalmente reprimidas, pela polícia, pelo exército e por milícias privadas pagas pelo patronato. O direito à greve só é ganho no início do séc. XX; por vezes, com os patrões mantendo o direito de despedir grevistas [27].
   
O aumento da influência e das lutas da classe operária traduzem-se em subidas do salário real e numa tendência para baixar o tempo de trabalho. Concessões cedidas pelo patronato devidas também ao aumento de produtividade do trabalho. Os grandes capitalistas continuam, porém, a rejeitar a intervenção estatal nos problemas sociais, travando quaisquer iniciativas legislativas para melhorar o nível de vida do operariado, por vezes a coberto de um hipócrito «direito ao trabalho» [28].
O fortalecimento da classe operária e as novas crises (1882, 1893, 1902, 1907) – tendo como causa principal a descida da taxa de lucro, nomeadamente nas indústrias tradicionais, mas também agravadas pelo avanço do capitalismo nos países que dantes eram apenas escoadouros da produção das potências capitalistas –, leva a burguesia dos países avançados a adoptar novas soluções:
- Concentração e centralização do capital industrial, formando grandes empresas por absorção das mais pequenas (baixando o impacto do aumento de Mp através de economias de escala). Formam-se novos cartéis (trusts) e os primeiros monopólios nacionais [29].
- Concentração e centralização do capital financeiro em grandes instituições bancárias intimamente ligadas aos monopólios industriais [30] que canalizam para eles os depósitos. Na direcção dos monopólios e dos bancos encontram-se, frequentemente, os mesmos capitalistas.
- Forte corrida à caça de colónias, protectorados, condomínios e concessões territoriais (na China). O Japão lançou-se rápido numa caça às colónias, em particular à custa da China. Bismarck na Alemanha não se interessava por colónias, preferindo exercer a hegemonia alemã na Europa; mudou de opinião em 1883-84 e de um dia para o outro a Alemanha construiu o seu império colonial.
São reestruturados os negócios coloniais, as formas de governo colonial, saqueadas novas matérias-primas, abertos novos mercados, e investidos capitais nos caminhos-de-ferro, no telégrafo, etc. Protectorados, condomínios e países mais fracos ficam reféns de empréstimos usurários para investir na compra de equipamentos e construção de infra-estruturas fornecidos pelos monopólios ligados aos bancos que fizeram os empréstimos: um sorvedouro de dupla via. (Lista de nova divisão do mundo no período 1876-1914 em [31].)
   
Inicia-se a era imperialista do capitalismo.
  
No final do séc. XIX e até à 1ªGM as economias inglesa e francesa declinaram enquanto as da Alemanha, EUA e Japão cresceram. Na Inglaterra e França verifica-se falta de inovação e atraso na introdução de novas indústrias; parte da burguesia prefere viver à custa de investimentos financeiros. Dá-se o fim da hegemonia britânica. Em 1913, a Rússia tem já uma produção industrial igual à da França, e os EUA surgem como potência industrial dominante (Tabela 2).
From an agricultural country England quickly became an industrial country: industry rose from 42% of the total production in value in 1801 to 73% in 1871. The industry in France represented only 55% of the total in 1874. The production of machinery was also strong in England: 29% of the industrial production in 1783 and 47% in 1883. With a large colonial empire and as the largest sea power England controlled ¼ of the world trade in 1860 (France 11%, Germany 9%). In spite of that, the English trade balance was negative throughout the whole 19th century due to the huge importation of raw materials and consumption goods. In 1866-1870 the trade balance deficit was -65 M£ (millions of pounds. The English balance of payments was only positive in that period due to revenues from investments abroad (+57 M£), sea freight (+45 M£), and banking services (+13 M£), foretelling the imperialist stage of capitalism [10].
   
England has a fully-fledged bourgeoisie with which the nobility merged. By contrast, in France the rural nobility is still present with the belatedness of the countryside and feudal forms of exploitation until around 1830. Part of the bourgeoisie yearned to be accepted by and imitate the nobility. Features also displayed by the Portuguese bourgeoisie [19]. The French rural nobility did even wrest the power from the bourgeoisie during Charles X reign (1825-1830).
Until the Civil War three SFs co-existed in USA: B1D in the South; a colonization of the West by independent small and medium producers, comparable to the boer colonists in South Africa; B4D in the Northeast. Capitalism became the dominant MP after the war. A few big capitalists got rich because of the war: J. P. Morgan by selling a stock of faulty rifles to the army and speculating on gold; Jim Fisk by selling blankets to the army; Vanderbilt by hiring boats at high prices to the federal government; J. D. Rockefeller by selling oil. “American capitalism, unlike the European, was not fettered by feudal hangovers or compromise with the nobility. […] Bourgeois individualism and democracy developed more freely and fully than in Europe. An almost “pure” capitalist ideology arose, which permitted and justified unrestricted exploitation and accumulation.” [7]. The unrestricted liberalism, together with the “opportunities” offered by the vast Western territories, created the legend of the “American dream”.
   
The cases of Germany and Japan deserve special mention, since their capitalism progressed with a strong presence of the nobility at all State levels:  capitalism with few liberal characteristics, which could be called State capitalism.
   
The Prussian big landed estate nobility – Junckers – wielded the power in Germany, forming a military caste which will later sustain German imperialism. The vacillating and fearful German bourgeoisie was unable to wrest power during the 1848 revolution. Capitalism develops thanks to the enlightened Juncker despot Otto von Bismarck (1860-1890) who, as Chancellor of emperor William I, unifies Germany creating a vast domestic market and initiates the practice of state support to industrialization, decreeing protectionist tariffs on importations, which defend industries and advance the agriculture, turning it into the most prosperous of Europe. The German State stays a militarist state, dominated by the nobility with prominent ingress in the military as an autonomous caste, in the high cadres of civil servants, and in foreign affairs. The bourgeois democracy is strongly restricted [20], the liberal parties are confessional parties (the Lutheran National Liberal and the Catholic Party of the Center), and capitalism depends on state support. Though he never commanded troops, von Bismarck used almost always a uniform of general in public appearances.
   
Capitalist growth of Japan takes off with the “Meiji restoration” in 1868 [21] headed by princes of the South (Satsuma, Choshu and Tosa) with the support of banks and the Court of Kyoto. The restored and enlightened (meiji) emperor had a divinized power, as the unifier of the nation. Power was indeed in the hands of oligarchic noblemen, represented in the Emperor’s Council, determined to “modernize” Japan. Modernization led by the State in a largely feudal ground: the daimyos had lost their domains but were granted rich state stipends becoming oligarchs; the upper samurai layer became the upper layer of civil servants and army cadres; the parliamentary  regime, molded by the Prussian one, had to wait until 1888 and had a House of the Peers (members of the royal family and prominent nobles) and a House of the Representatives elected by the propertied layer (450 thousand voters in 40 millions), and of very restricted powers, whose laws could be vetoed; an extra-constitutional council of former Satsuma-Choshu statesmen (genro), influencing the Emperor’s Council; a suffocating bureaucracy aimed to protect the nobles, trained in the “despise of the people”; a Constitution emphasizing the duties of the “subjects”, not their rights [22]; an imperial decree on Education maintaining Confucianism as state doctrine to mold as obedient people, with values of “loyalty and filial piety”.
Though the oligarchic nobles supported private initiative in the traditional industries [23], in trade and banking – restricting to this their “liberalism” – they made big investments – sometimes in what could be called PPPs – and attracted international experts to the textile industry, modern naval construction, railways, and new technologies. The industrial growth, based on a ruthless exploitation of the proletariat, was fast; the railways grew out of 200 miles in 1881 to 4.500 in 1903; the foreign trade more than quadrupled between 1870 e 1905. Many industries grew due to military acquisitions. As in feudalism Meiji Japan was a militarist State: the military were only responsible to the emperor, not to the government; they could bring down cabinets through resigning their posts and refusing to appoint new nominations.
   
Workers’ Struggles in the 19th century
   
Workers step up their struggle during the 19th century, passing from gatherings and explosions of wrath to organized forms of struggling.
The Chartist movement irrupts in England (1838-1848) demanding universal suffrage, secret ballot, the right of electing propertyless individuals, and parliamentary grants for those elected without fortune. The movement disunites, is threatened and repressed. Yet, the universal suffrage is obtained in 1867 and the right to trade-unionism in 1868. In the USA is formed the National Labor Union in 1866. The Social-Democrat Party appears in Germany in 1869, and is repressed by the brutal anti-socialist laws of 1878, abandoned in 1890. Japan had a very repressive regime which forbade and brutally repressed any gatherings, protests and strikes. The use of the word “socialist” was forbidden.
   
Class struggle was particularly fierce in France. In 1831 erupts the revolt of the canuts, the workers of the silk industries of Lyon: “we struggle for bread and work”. The army crushes the revolt: over one thousand dead and wounded. The philanthropic Thiers doesn’t use half-measures and tells the troops: “You must kill everybody. No quarter. Be ruthless… We need to shoot down three thousand sectarists”. In 1848 huge demonstrations of workers take the streets in Paris against the government, ending in fierce confrontations and barricades. The troops crush the barricades. Result: thousands of dead people, 11 thousand prisoners, of which some are condemned to guillotine, others to forced labor, deportations to Algeria, etc.
In the aftermath of the French routing in 1871, whose generals abandoned Paris to the Germans, irrupts the famous popular insurrection known as the Paris Commune. Proletarian power reigns in Paris during 72 days. In spite of the courage of its defenders the Commune is crushed down by troops sent from Versailles, again by the philanthropic Thiers who secured Bismark’s help. The French generals weren’t able to defeat the plundering German invaders; on the contrary, they behaved cowardly. But they didn’t waste any time in allying to the high ranking German officers for the repression of French workers with big bestiality [24]. One of numerous historical demonstrations of the distinct meanings of “fatherland” in class-based societies.
   
The capitalist exploitation was denounced by intellectuals since early time. Already in 1793 the English political philosopher William Godwin denounced social inequality and the fact that the rich made a living out of labor exploitation [25]. Several utopian socialist and anarchist doctrines made their appearance later. All of them ended up disappearing or losing their importance in the workers’ movement. Only the scientific socialism of Marx and Engels, developed in several research works in the second half of the 19th century, stands alive until today, with successive contributions. Marx and Engels were also founders of the International Workers Association (1st International) with impact in the international worker’s movement.
   
The Long Depression of 1873 and the Beginning of Imperialism
   
Before capitalism the economic crises had causes exogenous to the economy: bad crops due to weather conditions, movements of peoples, plagues, wars, etc.
With capitalism appear for the first time in class-based SFs crises (recessions, depressions) due to endogenous causes of the MP; that is, due to specific laws of capitalism, namely the law of the tendential fall of the profit rate, discovered by Marx, which reflects a fundamental contradiction of capitalism: in order to raise profits and win the competition capitalists strive to increase the labor productivity using more sophisticated means of work (machinery, automation, etc.); these means are usually more costly and can do with less workers; their widespread use carries a general tendency of increasing Mp/W – the so-called organic composition of capital; if the surplus rate of labor, p/W, stays constant, the tendency of an increasing Mp/W is reflected in a tendency to decrease (p/W)/(1 + Mp/W) = p/D, that is, the rate of profit.
   
Four recessions occurred in England during the 19th century: in 1812, 1857, 1867, and 1873. The one of 1873 is known as the Long Depression since it lasted for around 20 years. It had a world impact: bank collapses in England, Austria, Germany, France, and USA; collapses of stock exchanges; falling investment and production; industrial bankruptcies; rising unemployment.
The crises of the 1st half of the 19th century were automatically solved by:
a) Falling prices and reduction of production, liquidation of stocks at unprofitable prices to cancel debts --> sharp reduction of realized value --> elimination of weaker firms: a periodical purge of capital that trims off the weaker branches leaving the remaining surplus-value “sap” to the stronger branches. This purge accompanied by devaluation of assets, leads in general to a financial crisis.
b) Unemployment and reduction of real wages --> decline of workers’ consumption  --> widening of the crisis, therefore of the purge  --> stronger branches restart their activity joined by new branches with labor power available at a lower cost  --> the rate of profit starts growing.
   
These automatic responses of capitalism still play a role until today. However, the crisis of 1873 presented new phenomena: notwithstanding the capital purge the prices remained low and the depression entered a deflationary state, with stagnated GNP and high unemployment. These new phenomena led the capitalist class of the advanced countries to adopt new responses:
- Formation of cartels at national level, which determine levels of production and prices, co-ordinate investments and distribute markets. In 1914 there were 114 cartels in the advanced countries, 29 in the coal industries, 19 in the chemical industries, 18 in the transports.
- Protectionism: the State decrees laws hindering or impeding importation of goods competing with the domestic ones.
- Measures used by the employers to raise the surplus rate, p/W, and therefore the rate of profit, resorting to an increased exploitation of labor, through the intensification of working pace. Taylorism was adopted [26]: task decomposition into elementary movements that could be performed in reduced time, duly timed and imposed by the machinery.
   
The 2nd industrial revolution, of electricity and explosion motors, arrives in 1880: lighting, electric generators and motors, oil industries, cars, aeronautics, etc. Thereby the industrial proletariat increases its influence, in numbers, in trade-unionism, in parties, and in struggles against capital (large number of strikes). Strikes are brutally repressed, by the police, by the army, and by private militias paid by the employers. The right to strike is only conquered at the beginning of the 20th century; in some cases with the bosses holding the right to fire the strikers [27].
   
The increasing influence of the working class and of the workers’ struggles is reflected in rises of real wages and in a tendency to decrease the working hours. Concessions wrested from the employers which were also due to the increase of labor productivity. The big capitalists continue, nevertheless, rejecting the state intervention in social issues, impeding any legislative initiatives to improve the standard of life of the workers, sometimes under a hypocritical pretext of the “right to work” [28].
The strengthening of the working class and the new crises (1882, 1893, 1902, 1907) – having as main cause the decline of the rate of profit, namely in the traditional industries, but aggravated as well by the advance of capitalism in countries that beforehand were mere outlets for the production of the capitalist powers –, presses the bourgeoisie of the advanced countries to adopt new measures:
- Concentration and centralization of the industrial capital, merging the smaller firms into large corporations (lowering the impact of an Mp increase through economies of scale). New cartels (trusts) are formed as well as the first national monopolies [29].
- Concentration and centralization of the financial capital in large banking institutions closely attached to the industrial monopolies [30] and channelling to them the savings. The same capitalists are often found in the directions of the monopolies and of the banks.
- Intense race to conquer colonies, protectorates, condominiums and territorial concessions (in China). Japan launched an immediate colony hunt, particularly at the expense of China. In Germany, Bismarck was not interested in colonies, preferring the pursuance of German hegemony in Europe; but he changed of opinion in 1883-84 and Germany built its colonial empire overnight.
Colonial businesses are restructured as well as forms of colonial government, new raw materials are plundered, new markets are opened, capitals are invested in railways, telegraph, etc. Protectorates, condominiums and weaker countries becomes hostages of usurer loans advanced to the purchase of equipments and the construction of infra-structures supplied by the monopolies attached to the banks that lent the funds: a double sucking channel. (List of the new division of the world in the period 1876-1914 in [31].)
   
The imperialist stage of capitalism has begun.
   
By the end of the 19th century the English and French economies declined, whereas those of Germany, USA, and Japan grew. An innovation deficit and belatedness in the introduction of new industries is observed in England and France; part of the bourgeoisie prefers making a living from earnings of financial applications. The British hegemony comes to an end. In 1913 Russia already has an industrial production equal to France, and USA stand as the dominant industrial power (Table 2).

    
Tabela 2. Parte (%) na produção industrial mundial. Adaptado de [10].
Table 2. Share (%) of the world industrial production. Adapted from [10].

GBR
FRA
DEU
RUS
USA
JPN
1870
32
10
13
4
23
-
1913
14
6
16
6
38
1
    
Transição:
O imperialismo (capitalista) é o poder dos monopólios nos mercados internos e externos. A forma como esse poder se exerce através do Estado passou por soluções diferentes até desembocar no Capitalismo Monopolista de Estado (B4C) depois da 2ªGM. É esta fase de transição do início do séc. XX até à 2ªGM que analisaremos agora.
   
O Imperialismo e a 1ªGM
   
Lenine, na sua conhecida obra sobre o imperialismo [32], diz assim:
«Se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, dever-se-ia dizer que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo. Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais, e, por outro lado, a partilha do mundo é a transição da política colonial que se estende sem obstáculos às regiões ainda não apropriadas por nenhuma potência capitalista para a política colonial de posse monopolista dos territórios do globo já inteiramente repartido.»
Lénine caracteriza o imperialismo em cinco traços fundamentais: «(1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida económica; (2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse «capital financeiro» da oligarquia financeira; (3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; (4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e (5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes.».
   
Antes da 1ªGM a Inglaterra e a França (a Entente) lideravam a competição imperialista. Np que se refer ao total mundial de capitais investidos no estrangeiro, temos em 1914: GBR: 43%, FRA: 20%, DEU: 13%, USA 7%, totalizando 83%.
Os capitais eram investidos na aquisição de títulos de dívida estrangeiros, em empréstimos para importar bens dos monopólios, e na participação em capitais de filiais estrangeiras dos monopólios. Assim, p. ex. no que se refere à Alemanha, a AEG tem em 1912 filiais em Londres, Petrogrado, Paris, Génova, Estocolmo, Bruxelas, Viena, Milão, e o Deutsche Bank tem filiais na Argentina, Peru, Bolívia, Uruguai, Brasil, Espanha, e participações no Iraque e China. O Deutsche Bank, fundado em 1870, teve desde o início fortes ligações à Siemens e à AEG. Teve também papel proeminente no financiamento do caminho-de-ferro Berlim-Bagdad através dos Balcãs.
Quanto aos países independentes de economias mais fracas, as potências imperialistas começam desde muito cedo a adoptar práticas neocolonialistas, estabelecendo alianças com as elites locais. O caso da América Latina é paradigmático [33].
   
Durante todo o período do séc. XX que antecede a 1ªGM assistiu-se a uma defesa acérrima do imperialismo [34] e da colonização [35] nas publicações e meios de comunicação burgueses. Na propaganda de massas, exercida por ideólogos ao serviço da burguesia, procurou-se desviar a atenção: do antagonismo capital-trabalho para o antagonismo inter-imperialista, recorrendo ao chauvinismo e à exacerbação de rancores nacionais; da relação capital-trabalho para a relação metrópole-colónias, defendendo o racismo, a superioridade e missão civilizadora de europeus e japoneses. A burguesia imperialista defendeu o militarismo, a intimidação militar («política da canhoneira») e a intervenção armada.
O imperialismo não resolveu nenhuma das contradições do capitalismo, antes as agudizou:
- A exportação de capitais veio a converter-se numa exportação de juros «ganhos» em anteriores exportações de capitais, abrandando o crescimento económico doméstico.
- Vários países que recebiam investimentos das potências coloniais começam a industrializar-se e a produzir as suas próprias mercadorias, concorrendo com as metrópoles, colocando problemas de rendibilidade das indústrias menos inovadoras das metrópoles.
- A concorrência económica e financeira, pela partilha do mundo, endureceu os confrontos inter-imperialistas. As alianças imperiais tornaram-se instáveis. De 1898 a 1905, em apenas sete anos, sucederam-se rivalidades e confrontos, por vezes entre «aliados»: o incidente de Fachoda (1898), a guerra hispano-americana (1898), a guerra dos Boers (1899-1902), a guerra russo-japonesa (1904-1905), a questão de Marrocos (1905 e 1911). A concorrência económica era feroz. Por exemplo, na direcção do caminho-de-ferro de Bagdad estavam 15 alemães, 6 franceses e 3 belgas que se confrontavam e intrigavam constantemente em prol de uma maior fatia do empreendimento. Isto veio a ser uma das causas da 1ªGM.
   
A luta inter-imperialista levou à 1ªGM (1914-1918); guerra entre blocos imperialistas em que o leit-motiv foi a partilha de mercados e recursos da Europa de Leste e Sul, e da Turquia, bem como da Coreia e China no caso do Japão. Dez milhões de trabalhadores morreram ao serviço do capital imperialista. Revelou-se o completo fracasso dos partidos sociais-democratas que, negando as suas anteriores e solenes promessas, apoiaram a guerra desde o início em nome das respectivas burguesias. Uma só excepção: a da ala esquerda do partido social-democrata russo, a ala bolchevique que se tinha independentizado sob a liderança de Lenine, e que levou a cabo a Revolução de Outubro de 1917 contra a burguesia, pelo fim da guerra e lançamento dos alicerces do socialismo.
Com os fornecimentos de guerra e sem ter sofrido destruições a hegemonia dos EUA reforça-se: em termos do total mundial as exportações cresceram de 12,3% em 1913 para 15,6% em 1928, enquanto as da Europa decresceram de 55,2% para 46% e de Inglaterra de 13,9% para 11,2%. A exportação de capital dos EUA passou de 2000 para 7000 milhões de dólares entre 1912 e 1919.
   
A Grande Depressão dos Anos Trinta
   
Do fim da 1ªGM até aos anos vinte as economias do Japão e dos EUA são as que mais crescem (Tabela 3).
Transition:
The (capitalist) imperialism is the power of monopolies in the domestic and foreign markets. The manner in which such power is pursued by the State went through different solutions until ending up in the State Monopoly Capitalism (B4C) after WWII. We now analyze this transition phase from the early 20th century until WWII.
   
Imperialism and WWI
   
Lenin in his well-known work on imperialism [32], says this:
“If it were necessary to give the briefest possible definition of imperialism we should have to say that imperialism is the monopoly stage of capitalism. Such a definition would include what is most important, for, on the one hand, finance capital is the bank capital of a few very big monopolist banks, merged with the capital of the monopolist associations of industrialists; and, on the other hand, the division of the world is the transition from a colonial policy which has extended without hindrance to territories unseized by any capitalist power, to a colonial policy of monopolist possession of the territory of the world, which has been completely divided up.”
Lenin characterizes imperialism in five fundamental traits: “(1) the concentration of production and capital has developed to such a high stage that it has created monopolies which play a decisive role in economic life; (2) the merging of bank capital with industrial capital, and the creation, on the basis of this “finance capital”, of a financial oligarchy; (3) the export of capital as distinguished from the export of commodities acquires exceptional importance; (4) the formation of international monopolist capitalist associations which share the world among themselves, and (5) the territorial division of the whole world among the biggest capitalist powers is completed. “
   
England and France (the Entente) led the imperialist competition before WWI. In what regards capital investment abroad, relative to the world total, we have in 1914: GBR: 43%, FRA: 20%, DEU: 13%, USA 7%, totaling 83%.
Capitals were invested in the acquisition of foreign debt titles, in loans to import goods from the monopolies, and in participations of capital shares in the foreign branches of the monopolies. Thus, e.g., in what concerns Germany, AEG has in 1912 branches in London, Petrograd, Paris, Genoa, Stockholm, Brussels, Vienna, Milan, and the Deutsche Bank has branches in Argentina, Peru, Bolivia, Uruguay, Brazil, Spain, and participations in Iraq and China. The Deutsche Bank, founded in 1870, had strong links to Siemens and AEG since its foundation. It also had a prominent role in financing the Berlin-Baghdad railway through the Balkans.
With respect to independent countries with weaker economies, the imperialist powers started at an early phase adopting neocolonialist practices, through the establishment of alliances with the local elites. The case of Latin America is an exemplary one [33].
   
During the whole period of the 20th century preceding WWI a fierce defense of imperialism [34] and colonization [35] took place in the bourgeois publications and media. The propaganda of masses, carried out by ideologists at the payroll of bourgeoisie, strived to deviate attentions from the capital-labor antagonism to the inter-imperialist antagonism, resorting to chauvinism and the exacerbation of national hatreds; and to deviate attentions from the capital-labor relation to the colonizer-colonies relation, defending racism, the superiority and civilizing mission of Europeans and of Japanese. The imperialist bourgeoisie defended militarism, military bullying (“gunboat diplomacy”) and armed intervention.
Imperialism didn’t solve any of the contradictions of capitalism, rather it aggravated them all:
- The exportations of capitals became exportations of interests “gained” in previous exportations of capitals, which caused a slowing down of domestic economic growth.
- Several countries which had received investments from the colonial powers started industrializing and producing their own goods, competing with the colonizers, pushing a profitability lowering of their less innovative industries.
- The economic and financial competition for the division of the world aggravated the inter-imperialist confrontations. Imperial alliances became unstable. From 1898 to 1905, in just seven years, rivalries and confrontations, sometimes between “allies”, followed each other: the Fachoda incident (1898), the Spanish-American war (1898), the Boer war (1899-1902), the Russian-Japanese war (1904-1905), the Morocco incidents (1905 e 1911). The economic competition became fierce. For instance, at the head of the Baghdad Railway were fifteen Germans, six Frenchmen, and three Belgians, who were perpetually struggling and intriguing for a larger share of the enterprise. This became one of the causes of WWI.
   
The inter-imperialist struggle led to WWI (1914-1918); a war between imperialist blocks whose leit-motiv was the division of markets and resources of Eastern and Southern Europe and of Turkey, as well as Korea and China in the case of Japan. Ten million workers died on behalf of imperialist capital. The complete failure of the social-democrat parties was revealed: denying their previous and solemn promises, they supported the war from its onset on behalf of the respective bourgeoisies. With a single exception: the left-wing of the Russian social-democrat party, the Bolshevik wing, which had become autonomous under Lenin’s leadership, and which carried out the 1917 October Revolution against the bourgeoisie, for the end of war and launching the foundations of socialism.
Having suffered no destructions, and capitalizing on war supplies, USA hegemony is reinforced. The American share of world exports rose from 12.3% in 1913 to 15.6% in 1928; the European share declined from 55.2% to 46% and the British share from 13.9% to 11.2%. USA capital exports rose from 2000 to 7000 million dollars between 1912 and 1919.
   
The Great Depression of the Years Thirty
   
From the end of WWI to the years twenty the fastest growing economies are those of Japan and USA (Table3).
    
Table 3. Índice da produção industrial em 1920 sobre a base 100 em 1913. Fontes: [10], [36].
Table 3. Industrial production index in 1920 referred to 1913 (=100). Sources: [10], [36].
USA
GBR
FRA
DEU
ITA
JPN
141
100
62
61
113 *
165 **
* 1922, ** 1919.
    
As burguesias das potências capitalistas procuram consolidar a sua posição económica e política de diferentes modos, sempre com forte intervenção do Estado.
   
Os anos vinte nos EUA são anos de expansão do ramo automóvel, petrolífero, químico e alimentar, bem como da construção de estradas. A produtividade aumenta 47% devido às novas indústrias e ao fordismo (de Henry Ford): trabalh extenuanteo em cadeia. Prossegue a concentração de capital: em 1923 as maiores 1240 corporações manufactureiras têm 64,9% do total de lucros líquidos; em 1929 as maiores 1289 corporações têm 75,6% [7].
O consumo de massas aumenta [37]. Existe a convicção generalizada no povo americano de que a prosperidade chegou para ficar. Políticos e economistas dizem que se acabaram as crises do com os novos métodos de gestão. Defendem mesmo que os EUA criaram um «novo modelo de capitalismo», que satisfará para sempre as necessidades sociais e eliminará a miséria. Um modelo invejado pelos europeus. Resulta assim mais chocante a forte irrupção da Grande Depressão em 1929. A causa principal é de novo a queda da taxa de lucro devido à subida da composição orgânica do capital (Mp/T, ver acima a crise de 1873), e particularmente do capital fixo sobre os salários, conforma mostra o gráfico abaixo. Com esta causa concorrem (como sempre) outras contradições do capitalismo que agravam a crise [38].
The bourgeoisies of the capitalist powers strive to consolidate their economic and political position in different ways, always with a strong intervention of the State.
   
The twenties in USA are expansionary years of the car industry, oil, chemical and food sectors, and also of the construction of highways. Labor productivity increases 47% due to new industries and to Fordism (after Henry Ford): extenuating chain work. Concentration of capital moves forward: the largest 1240 manufacturing corporations received 64.9% of the total net profits in 1923; in 1929 the largest 1289 corporations received 75.6% [7].
Mass consumption increases [37]. There is a general conviction in the American people that prosperity has arrived to stay. Politicians and economists say that capitalist crises are over with the new management methods. They claim that USA have created a “new model of capitalism”, which will satisfy social needs forever and will eliminate misery. A model envied by the Europeans. It thus becomes more of a shock the fierce irruption of the Great Depression in 1929. Its main cause is again the fall of the rate of profit due to the increase of the organic composition of capital (Mp/W, see the 1873 crisis above), and particularly of the fixed capital over wages as shown in the graph below. Other capitalist contradictions concur (as always) with this cause to aggravate the crisis [38].
    

Fig. 1. Taxa de lucro e composição orgânica do capital nas indústrias manufactureiras dos EUA. Rate of profit and organic composition of capital in the US manufactures. Fonte e métodos | Source and methods: [39].
    
A crise propagou-se a todo o mundo (excepto à URSS) com colapsos de bancos e bolsas. O New Deal de Roosevelt propõe-se resolver a crise através de reformas: reorganização e fortes empréstimos à banca, indústrias base e agricultura; abandono de padrão ouro; desvalorização do dólar; instituição do salário mínimo. As reformas atenuam mas não resolvem a crise. Os fortes empréstimos estatais aumentam a dívida pública e oficializam o papel intervencionista do Estado, acabando com o mito liberal de uma economia capitalista auto-controlável apenas através dos mercados. Os trabalhadores, como sempre, foram as vítimas: a taxa de desemprego atingiu 25,2% em 1933, os salários diminuíram, bem como benefícios sociais, um fluxo de dinheiro fluiu por várias vias dos trabalhadores para os capitalistas. Os mais ricos ficaram ainda mais ricos.
A Inglaterra e a França usaram reformas semelhantes às dos EUA. A Itália, a Alemanha e o Japão irão bem mais longe no «capitalismo de Estado»: adoptam o fascismo. A crise só se resolve com a 2ªªGM. As incalculáveis destruições serão a grande purga do capital.
   
O Fascismo
   
A crise dos anos 30 levou o grande capital da Itália, Alemanha e Japão, perdedor nas suas expectativas imperialistas da 1ªGM e enfrentando fortes lutas de classe, a adoptar a solução ditatorial de controlo estatal do capitalismo, a solução fascista: Estado de ditadura totalitária e terrorista ao serviço dos monopólios industriais, do capital financeiro e dos latifundiários.
   
A adopção do fascismo pelo grande capital foi motivado por: a necessidade de empreender uma política imperialista forte a partir da estaca zero, de rapina aberta de países escravizados, e da escravização da respectiva mão-de-obra, o que exigia uma liderança ditatorial e militarista; a concentração de todos os recursos económicos ao serviço da política imperial, inclusive pela guerra; o esmagamento total de direitos e reivindicações do proletariado doméstico, urbano e rural; a repressão, por monstruosos aparelhos policiais, de partidos e organizações da classe operária, do marxismo, da atracção das massas pelo socialismo, em particular pela URSS, como alternativa ao Estado burguês; o entendimento, por parte do grande capital, de que a democracia burguesa, com o seu parlamentarismo, seria incapaz de satisfazer estes requisitos.
Em países de economias mais fracas e atrasadas, como Portugal, Espanha, Croácia, Hungria, etc., o fascismo foi adoptado não tanto para servir monopólios nacionais, ainda inexistentes (ou quase), mas sim para favorecer a sua criação, a concentração do capital industrial e bancário, bem como para favorecer os latifundiários, através de uma exploração mais brutal do proletariado.
   
O partido fascista (no caso japonês, os militares aliados aos monopólios) serve-se dos elementos da pequena e média burguesia, do lumpen-proletariado, e mesmo das camadas mais atrasadas dos trabalhadores, contaminadas por reaccionaris-mo, chauvinismo, repugnância pela proletarização e por anti-comunismo, para construir um amplo partido de massas altamente centralizado, e com um chefe carismático, com vista à conquista violenta do poder. Usa para tal a mais desenfreada demagogia, incluindo demagogia anti-capitalista e pró-socialista. Uma vez no poder, porém, o fascismo não representa o poder da pequena e média burguesia. Representa, sim, o poder dos monopólios e latifundiários, não hesitando em sacrificar a esse poder os seus anteriores apoiantes. A ascensão do fascismo ao poder é facilitada pela desunião dos trabalhadores e pela política de colaboração de classes dos sociais-democratas, incluindo as medidas reaccionárias que adoptam contra o movimento operário, nomeadamente a tolerância por bandos paramilita-res fascistas que são uma Guarda Branca capitalista contra o proletariado [40]. É também errado pensar que existe um poder fascista distinto do poder dos monopólios. Os fascistas foram e são sempre mercenários pagos pelos monopólios  embora a elite fascista possa ter planos próprios. O grande capital só se insurge contra o poder fascista quando este está em vias de perseguir uma agenda própria causando-lhe perdas e anunciando um futuro negro, como aconteceu no final da 2ªGM quando a derrota do Estado nazi era eminente e se formou então o grupo «resistente» de Goerdeler.
   
Os países fascistas foram (e ainda são) vistos com benignidade e até com apreço pelos governantes das democracias burguesas, que nunca cessaram, aliás, de ter grandes negócios com os fascistas, inclusive já depois de iniciada a 2ªGM [41]. Na atitude de benignidade e apreço pesava o facto de, para além dos negócios, verem no fascismo o destruidor das lutas dos trabalhadores e da URSS a breve prazo. Com esse fim, as potências capitalistas ocidentais tudo fizeram para engrandecer o fascismo, satisfazendo-lhe as vontades [42], sacrificando-lhes países mais fracos, mesmo que com violação de anteriores e solenes compromissos [43]. A URSS só evitou suportar sozinha todo o peso da agressão fascista â custa do tratado de não-agressão que assinou com a Alemanha, tratado que sabia ter os dias contados mas lhe deu a trégua necessária para preparar-se. Já em plena guerra, as democracias burguesas ainda tentaram orientar o fascismo para a agressão e derrota da URSS. Na realidade, porém, o grande vencedor do fascismo na 2ªGM foi a URSS que derrotou os nazis em batalhas decisivas, as maiores da história, com um total de cerca de 20 milhões de vítimas, militares e civis. Em conjunto, GBR e USA tiveram um total de 870,3 mil mortos militares e civis.
   
Sobre o fascismo, proliferam até hoje trabalhos de historiadores de visão burguesa que hiper-valorizam aspectos secundários – como tradições nacionalistas locais – sem uma única palavra sobre o essencial: o papel determinante dos monopólios. Tais historiadores chegam inclusive a dar crédito e a discutir «sabiamente» a «ideologia» fascista, totalmente alheios à demagogia e propósitos demagógicos de tal «ideologia». As livrarias e a Web têm toneladas deste lixo, inclusive de proveniência académica, onde o fascismo é descrito como «terceira via» entre capitalismo e socialismo, como se o MP do fascismo não fosse capitalista (!), ou expondo ideias afins desta espantosa afirmação: «O Pacto Tripartido [Itália, Alemanha, Japão] representava apesar de tudo um resultado lógico que reflectia afinidade ideológica, e não simples oportunismo» [44], que equivale a dizer que quando três grupos de gangsters celebram um acordo para repartir entre si um território fazem-no porque têm «afinidade ideológica» e não porque querem repartir entre si os saques «oportunisticamente». Contra a visão de tais historiadores citemos a visão franca de um fascista-mor: Rudolph Hess. Em 1929 Hess viajou por toda a Alemanha para recolher fundos dos magnates. Num encontro em Hamburgo, tirou da pasta, sem dizer palavra, dois maços de fotos; um, sobre manifestações de trabalhadores, o outro, sobre desfiles das SA. Hess disse então: «Meus senhores, acabam de ver fotografias das forças do caos, que ameaçam destruir os vossos escritórios e fábricas, e toda a vossa riqueza. Também lhes mostrei como podem ser criadas as forças da ordem […] As SA são pobres, os nazis são pobres, toda a nossa organização é pobre. Onde iremos arranjar as botas, os uniformes, as bandeiras, os tambores, em suma, todo o equipamento que é necessário para o estilo político do nosso tempo, se não tivermos dinheiro? Quem o deve dar são aqueles que o possuem, para não virem a perder mais tarde aquilo que possuem.» [45] A fórmula de Hess define o fascismo: os monopólios davam o dinheiro que, entre outras coisas, recompensaria generosamente a elite fascista; esta, dava a «ordem» e a rapina. Os Krupp, Thyssen, etc., continuaram como dantes a comandar os seus monopólios. De facto, com maiores taxas de lucro.
Seguem-se breves notas sobre os fascismos italiano, alemão e japonês.
   
Itália [46]
1918. Apetites imperialistas não satisfeitos pela Entente e USA no pós-1ªGM (não cumpriram promessas de entregar à Itália territórios na Veneza, Dalmácia, Fiume, Trentino-Alto Adige).
1920. Crise afecta grandes indústrias; perdem exportações e subvenções estatais a que estavam habituadas no tempo de guerra. Camponeses do Sul em ruína geral. Apropriação de terras abandonadas, por vezes com ajuda de padres ao som de sinos e fanfarras. Grandes latifundiários pagam e chamam o auxílio de esquadras fascistas (fasci di combatimento, origem da palavra «fascismo»): milícias de pequenos burgueses desempregados, desmobilizados da guerra, nacionalistas enraivecidos pelos resultados da guerra e pela sua degradação social. A ideologia dos fasci é eclética, mitológica, uma mistura de slogans de ultra-esquerda e anarquizantes contra o Estado liberal, com uma visão anti-proletária. Querem conquistar um lugar ao sol e viver da rapina «revolucionária». São violentamente anti-marxistas e anti-comunistas.
1921. Salários dos operários baixam imenso. Inflação e encarecimento de produtos agrícolas. Ocupações de fábricas. Soviete de Florença durante três dias. PSI e seus líderes reformistas sindicais enganam os operários com vagas promessas e desmobilizam-os. Esquadras fascistas atacam os grevistas e incendeiam sedes do PSI.
Meados de 1921: o grande capital e latifundiários aceitam canalizar todos os seus financiamentos políticos para o partido fascista de Mussolini, para iniciar a contra-revolução e instalar um regime terrorista que amordace totalmente a classe operária e o pequeno campesinato, promovendo um programa imperialista. As seguintes grandes indústrias financiam Mussolini: grupos siderúrgi-cos e eléctricos Ilva (Lombardia), Ansaldo (Génova), Breda, Terni, Confindutria Olivetti; indústria automóvel Fiat, Alfa Romeo; industria química, como o poderoso grupo Montecatini e a indústria de pneus Pirelli; grupos têxteis, etc. Com estes grupos está também o capital bancário: Banca di Sconto, Banca Comerciale, etc. O fascismo tem o apoio dos latifundiários da Confederação da Agricultura e do Estado-Maior do Exército, que fornece armas às esquadras fascistas e convida oficiais desmobilizados a ingressarem nos fasci. O aparelho de Justiça e autoridades da Igreja (incluindo o papa Pio XI) apoiam o fascismo.
1922. Mussolini ascende ao poder. Instaura um Estado totalitário dito corporativo (alegadamente as «corporações» conciliariam os interesses do capital e do trabalho; na prática tinham como missão «legalizar» a ditadura do capital sobre o trabalho), estimula os monopólios e o seu controlo da agricultura e inicia um programa imperialista de ocupação de territórios e colónias: Trieste (1918), Zara (1918), Fiume (1924), Corfu (1923), Etiópia (1936). Em 1936 Mussolini assina com a Alemanha e o Japão o Pacto Anti-Comintern, dirigido contra a URSS.
   
Alemanha [45] [47]
1918-19. A revolução proletária é esmagada pelo PSD com a ajuda de milícias de desmobilizados da 1ªGM, os Frei Corps.
1920. Os monopólios voltam-se para a Europa Central (Áustria, Jugoslávia, Checoslováquia, Hungria) e do Leste (Polónia, Estados bálticos, Bulgária, Roménia, URSS). Procuram-se acordos comerciais com alguns destes países e com Mussolini para dividir a Jugoslávia e ocupar a Transilvânia. Chega-se à conclusão do horizonte limitado destas iniciativas, opostas pela Entente.
1921. Inicia-se um período de hiper-inflação, devido às indemnizações de guerra e à política premeditada dos monopólios de baixar os salários reais. Moratórias, proteccionismo e medidas de contenção dos preços agrícolas estabilizam a situação até à crise de 1930 que veio de novo agudizar a situação do capital industrial e bancário num quadro de ausência de colónias e perda de mercados, de forte movimento da classe operária com um poderoso partido comunista.
1929. O partido nazi (NSDAP) de Hitler vinha crescendo desde 1920. Agrupava a pequena burguesia desesperada: camponeses arruinados ou endividados, lojistas à beira da falência, jovens intelectuais sem emprego ou mal-pagos, antigos membros dos Frei Corps. Todos sensíveis ao chauvinismo, ao revanchismo, ansiando por algo que lhes desse importância social. Hitler deu-lhes isso, integrando-os nas SA que passaram a ser o poder nas ruas, com a promessa de futura ascensão social. O programa nazi como qualquer programa fascista era eclético, misturando fraseologia anti-capitalista e esquerdista («destruição do Estado burguês») com anti-marxismo, nacionalismo e racismo (superioridade do povo alemão-ariano); incluía promessas para todas as «profissões» da «grande nação alemã». Os nazis cultivaram o ódio aos judeus – um preconceito medieval remanescente; os judeus tornaram-se os bodes expiatórios de qualquer mal qu caísse sobre a nação alemã; por essa razão os nazis estavam «justificados» em saquear toda a sua fortuna.
Tendo concluído alianças e fusões com outros grupos reaccionários – como o Partido Nacional Alemão de Hugenberg, antigo administrador da Krupp que fundou um império de agências de notícias e da maior firma de cinema da Alemanha, UFA – o NSDAP atraiu o interesse de grandes monopólios: Krupp, Thyssen (siderurgia), Kirdorf (minas) e o seu Reichsbank presidido por Schacht.
1930. Na véspera das eleições todos os monopólios (inclusive os que inicialmente não simpatizavam com os nazis), o capital financeiro e os Junkers passaram a apoiar massivamente o NSDAP [48]. Compreenderam perfeitamente que o anti-capitalismo do NSDAP era apenas uma fachada destinada a conquistar as massas. Aliás, todos os apoiantes pequeno-burgueses originais do NSDAP vieram a figurar entre as primeiras vítimas económicas dos nazis. E mais tarde vítimas da guerra.
1933. Subida de Hitler ao poder. Início de uma política expansionista violenta, com a aceitação e colaboração económica das outras potências capitalistas [44-45] que procuraram até ao fim dirigir os apetites nazis contra a URSS. Tal política veio a desembocar na 2ªGM., como tinha sido previsto pelos comunistas [49] Internamente teve lugar uma enorme rapina dos bancos, negócios e bens dos judeus, para levar a cabo o rearmamento  – «Os judeus alemães foram obrigados a pagar a guerra da Alemanha» [50] –, que mais tarde se propagou aos países ocupados.
   
Japão [51]
Os monopólios japoneses surgiram com a restauração Meiji, quer os do Estado (como o Banco Central Nacional da família imperial) quer os privados mas com intervenção do Estado. Eis alguns dos primeiros e maiores monopólios privados: Sumitomo (cobre, carvão, madeira, bancos), Mitsui (têxteis, comércio, químicos, Mitsui Bank), Mitsubishi (navegação, construção naval, carvão, altos-fornos, seguros marítimos), Yasuda (Yasuda Bank, companhias de seguros), Furukawa (minas, electrónica, químicos), Fujita (armas), Nakajima (aeronáutica).
Os monopólios estavam ligados aos militares e a partidos políticos, exercendo grande influência na política externa. Assim, o grupo Mitsui estava ligado ao partido conservador-liberal Seiyukai (1900), aos burocratas estatais e ao Exército Imperial, o grupo Mitsubishi estava ligado à Armada Imperial e ao partido liberal Minseito, mais moderado que o Seiyukai, etc. Por outro lado, as grandes famílias aristocráticas que tinham liderado a restauração Meiji, dominavam as forças armadas. Assim, a família Choshu dominava o Exército e a família Satsuma tinha grande influência na Armada. É desta rede interligada controlada por uma clique monopólio-militar que irá nascer o fascismo japonês.
1919. As reivindicações territoriais do Japão, um aliado da Entente, não foram reconhecidas no Tratado de Versailes. Tratados posteriores (1921-22) com a GBR e USA impõem importantes limitações à construção naval japonesa. A clique sente-se frustrada nos seus apetites imperiais. A frustração é ampliada por dificuldades económicas (inflação elevada, crises, fomes) que levantam grandes protestos populares. A clique procura sair  de dificuldades empreendendo uma política de agressão imperial violenta à custa da China: ocupa a Manchúria em 1931, um território na Mongólia Interior em 1933 e inicia a invasão do resto da China a partir de Pequim em 1937. [52]
Entretanto, tinham-se formado vários grupos nacionalistas, defendendo mesclas de neo-confucionismo, ética samurai, atributos divinos do imperador, superioridade do povo japonês protegido dos deuses, missão pan-asiática do Japão, etc. O exército japonês facilmente adoptou tais ideias e encontrou uma afinidade entre o «espírito militar Prussiano» e o «espírito japonês», que justificou a aliança com os nazis no «combate ao comunismo». No seu ímpeto imperial o exército japonês invadiu território soviético a partir da Mongólia e tinha intenções de ocupar toda a Sibéria. Foi porém derrotado pelo exército vermelho [53] e desistiu.
O período de 1926 a 1937 é marcado por vagas de assassinatos políticos e de terror sobre organizações populares e partidos políticos. A clique tem pressa em abandonar o parlamentarismo e estabelecer um Estado de tipo fascista. Em 1930 o partido Minseito ganha as eleições contra os candidatos dos militares; estes expulsam o Minseito e formam um governo do Seiyukai, mais à direita. Em 1936, apesar da repressão, o Minseito ganha de novo as eleições, enquanto o partido fascista ligado à facção fascista kodoha (Via Imperial) do exército teve 15% dos deputados. O Minseito é varrido por uma vaga de assassinatos políticos e a pretexto do terror o exército intervém para formar governo. Nas eleições de 1937 o eleitorado exprime a sua oposição ao expansionismo. O governo da clique abole então as eleições e forma novo governo que em 1940 é presidido pelo príncipe Konoe. Este forma um governo fascista e constitui pouco depois o partido único fascista, a Associação de Assistência ao Governo Imperial.
Não tinha sido necessário construir um partido de massas fascista a partir da base. O partido fascista já existia potencialmente: eram as forças armadas e o funcionalismo estatal ocupados a alto nível pelos estratos elevados dos samurai, aliados aos nobres oligarcas. Estavam, portanto, ligados aos monopólios, ao seu imperialismo, e visões chauvinistas. Os pequenos grupos fascistas que existiam – p. ex., a Sociedade do Dragão Preto com a composição social típica do fascismo – tinham servido sobretudo, para espalhar o terror, cultivando nas massas o desejo de «ordem».
The crisis spread all over the world (except USSR) with bank and stock exchange collapses. Rosevelt’s New Deal proposes solving the crisis through reforms: reorganization and heavy loans to banks, to essential industries and agriculture; relinquishing the gold standard; dollar devaluation; institution of a minimum wage. The reforms mitigate but do not solve the crisis. The heavy state loans push up the public debt and officialize the interventionist role of the State, sweeping away the liberal myth of a self-controllable capitalist economy by market play alone. The workers, as always, were victims of the crisis: unemployment rate peaked to 25.2% in 1933, wages and social benefits fell, a stream of money flew through several channels out of the workers to the capitalist pockets. The rich became richer.
England and France employed reforms similar to those of USA. Italy, Germany, and Japan move farther forward in their “State capitalism”: they adopt fascism. The crisis is only solved with WWII. The enormous destructions will be the great purge of capital.
   
Fascism
   
The crisis of the thirties drove the big capital of Italy, Germany, and Japan, defeated in its imperialist expectations of WWI and confronted with fierce class struggles, to adopt the dictatorial solution of state control of capitalism, the fascist solution: State of totalitarian and terrorist dictatorship servicing the industrial monopolies, financial capital, and big land estate owners.
   
The adoption of fascism by big capital was motivated by: the need to undertake a strong imperialist policy, of domination of markets from scratch, accompanied by the open looting of enslaved countries, the enslavement of the respective labor force, all this demanding a militarist and dictatorial leadership; the concentration of all economic resources to feed the imperial policy, including war; the absolute crushing of rights and claims of the domestic proletariat, urban and rural; the repression, by monstrous police apparatus, of parties and organizations of the working class, of Marxism, of the attraction of the masses by socialism and by USSR as an alternative to the bourgeois State; the understanding by the big capital that bourgeois democracy would be unable to comply to these requirements.
Fascism was adopted by countries with weak and belated economies, such as Portugal, Spain, Croatia, Hungary, etc., not so much to serve national monopolies, still inexistent (or almost so), but to favor their creation, the concentration of industrial and bank capital, and to favor the big landowners, through a more brutal exploitation of the proletariat.
   
The fascist party (in the Japanese case the military allied to the monopolies) draws on the members of the petty and medium bourgeoisie, on the lumpen-proletariat, and even on the most backward layers of the proletariat, contaminated by reactionarism, chauvinism, repugnance toward proletarianization, and by anti-communism, to build a highly centralized party of large masses, with a charismatic leader, in order to wrest state power. The most unbridled demagoguery is used for that purpose, even anti-capitalist and pro-socialist demagoguery. However, once in power, fascism does not represent the interests of the petty and middle bourgeoisie. It indeed represents the interests of monopolies and big landowners, and does not hesitate sacrificing to those interests its former supporters. The rise of fascism to power is made easier by the disunity of the workers and the class collaboration policy of the social-democrats, including the reactionary measures they adopt against the workers’ movement, particularly the tolerance towards fascist paramilitary gangs which are a capitalist White Guard against the proletariat [40]. It is also a mistake to think that there is a fascist power distinct from the power of the monopolies. Fascists were and always will be mercenaries paid by monopolies though their elite may have their own agenda. The big capital only stands up against fascist power when fascists in the pursuing of their own agenda are causing them losses driving toward a gloomy future, as happened at the end of WWII when the defeat of the Nazi state was eminent and the “resistant” group of Goerdeler was then formed.
   
Fascist countries were (and still are) seen with benignity and even with appraisal by the rulers of the bourgeois democracies, who never ceased to engage in big businesses with fascists; even when WWII had already started [41]. In the attitude of benignity and appraisal, was of relevance, besides businesses, that they saw fascism as the short-term destructor workers’ struggles and of USSR. With that aim the “democratic” capitalist powers did everything they could to aggrandize fascism, satisfying its desires [42], even sacrificing “allied” weaker countries with violation of previous and solemn compromises [43]. USSR only avoided withstanding alone the full weight of fascist aggression by resorting to a non-aggression treaty signed with Germany, knowing fully well that it was a last moment expediency that conceded a much needed truce. Even in full war the bourgeois democracies still attempted to orientate fascism towards aggression and defeat of USSR. Nonetheless, the great winner over fascism in WWII was USSR, which defeated the Nazis in decisive battles, the largest in history, suffering a total of approx. 20 million casualties, military and civil. GBR and USA together suffered a total of 870.3 thousand casualties, military and civil.
   
Works on fascism by historians with a bourgeois vision proliferate until today. They overrate secondary aspects – such as local nationalist traditions – without a word on the essential: the determinant role of monopolies. These historians go even to the point of giving credit and to “eruditely” discuss fascist “ideology”, totally extraneous to the demagoguery and demagogue purposes of such “ideology”. One finds tons of this garbage in bookshops and the Web, even from academic sources, where fascism is described as a “third way” between capitalism and socialism, as if the MP of fascism were not capitalist (!), or expounding ideas akin to this amazing assertion: “the Tripartite Pact [Italy, Germany, Japan] nonetheless represented a logical outcome that reflected ideological affinity, not simple opportunism” [44], which amounts to saying that when three groups of gangsters celebrate an agreement to divide a territory among them they do it out of “ideological affinity”, not out of the “opportunism” of plundering. Against the vision of such historians let us see the open vision of the notable fascist Rudolph Hess. Hess traveled throughout Germany in 1929 to collect funds from the magnates. At a meeting in Hamburg, he pulled out of his attaché case and distributed, without saying a word, two packs of photos; one of workers demonstrations, the other, of SA parades. Hess then said: “Gentlemen, you have just seen photos of the forces of chaos, threatening to destroy your offices and factories, all your wealth as well. I’ve also shown you how the forces of order can be created […] The SA is poor, Nazis are poor, and our whole organization is poor. Where shall we get the boots, the uniforms, the flags, the drums, briefly, all the needed paraphernalia for the political style of our time, if we don’t have money? Those who have it are those who must give it, so that they will not lose later what they own” [45] Hess’ formula defines fascism: the monopolies gave the money, which among other things would generously reward the fascist chieftains; these, would provide the “order” and the plundering. The Krupp, Thyssen, etc., went on holding the control of their monopolies as in the past. And, indeed, with higher rates of profit.
Brief notes on the Italian, German, and Japanese fascism follow below.
   
Italy [46]
1918. Unsatiated imperialist appetites by the Entente and USA in the post-WWI (promises to hand over territories in Venice, Dalmatia, Fiume, Trentino-Alto Adige weren’t satisfied).
1920. The crisis affects large industries; they lose exportations and state subsidies they were accustomed to in war time. Southern peasantry in total ruin. Appropriation of abandoned lands; sometimes helped by priests and at the sound of chimes and fanfares. Big landowners pay and appeal to fascist squads for help (fasci di combatimento, origin of the word “fascism”): militias of idle petty bourgeois, demobilized men from the war, enraged nationalists because of the war outcome and of their social degradation. The ideology of the fasci is eclectic, mythological, a mix of ultra-left and anarchist slogans against the liberal State, with an anti-proletarian vision. They want to conquer a place under the sun, and to live out of “revolutionary” plunder. They are violently anti-Marxists and anti-communists.
1921. Sharp drop of workers wages. Inflation and booming prices of agriculture products. Occupations of factories. Florence Soviet during three days. PSI and their reformist leaders in the trade-unions deceive the workers with vague promises, demobilizing them. Fascist squads attack strikers and set the PSI headquarters on fire.
In the middle of 1921 the big capital and landowners accept channeling all their political financing to the fascist party of Mussolini aimed at launching the counter-revolution and installing a terrorist regime totally muzzling the working class and the small peasantry, and to promote an imperialist program. The following large industries financed Mussolini: electrical and metalworking groups Ilva (Lombardy), Ansaldo (Genoa), Breda, Terni, Confindutria Olivetti; car industry Fiat, Alfa Romeo; chemical industry, namely the powerful group Montecatini and the tire industry Pirelli; textile groups, etc. With these groups is also the bank capital: Banca di Sconto, Banca Comerciale, etc. Fascism has the dupport of the big landowners of the Confederation of Agriculture and of the army General-Staff, which supplies weapons to the fascist squads and invites demobilized officers to ingress the fasci. The Judiciary apparatus and heads of the Church (including pope Pius XI) uphold fascism.
1922. Mussolini rises to power. He sets up a totalitarian state referred to as corporative (allegedly the “corporations” would reconcile the interests of capital and labor; in practice they aimed to “legalize” the dictatorship of capital over labor), stimulates monopolies and their grip on agriculture, and initiates an imperialist program of occupation of territories and colonies: Trieste (1918), Zara (1918), Fiume (1924), Corfu (1923), Ethiopia (1936). Mussolini signs the Anti-Comintern Pact in 1936 with Germany and Japan. addressed against USSR.
   
Germany [45] [47]
1918-19. The proletarian revolution is crushed by the PSD with the help of militias of demobilized military, the Frei Corps.
1920. The monopolies turn their attention to Central Europe (Austria, Hungary Czechoslovakia, and Yugoslavia) and Easter Europe (Poland, Baltic States, Bulgaria, Romania, and USSR). Trade agreements with some of these countries are procured, and accords with Mussolini to divide Yugoslavia and occupy Transylvania. Opposed by the Entente, the monopolies see on such initiatives a narrow horizon.
1921. Start of a hyper-inflation period due to war indemnities and to a premeditated monopoly policy of decreasing real wages. Moratoria, protectionism, and measures of agriculture prices containment stabilize the situation until the crisis of the 30s, which again pressed on the standing of industrial and banking capital in a background of absence of colonies and loss of markets, and strong movement of the working class with a powerful communist party.
1929. Hitler’s Nazi party (NSDAP) had been growing since 1920, assembling the desperate petty bourgeoisie: ruined or indebted peasants, bankrupt or tottering shopkeepers, unemployed or badly paid young intellectuals, members of the former Frei Corps. All vulnerable to chauvinism, to revanchism, longing for something that would bestow social importance on them. Hitler gave that to them, integrating them in the SA which became the power in the streets, with the promise of a future social rise. The Nazi program, as any fascist program, was an eclectic one, mixing anti-capitalist and leftist phraseology (“destruction of the bourgeois State”) with anti-Marxism, nationalism, and racism (superiority of the German-Aryan people); it contained promises for all “professions” of the “great German nation”. The Nazis cultivated the hatred toward the Jews – a lingering medieval prejudice; Jews became the scapegoats of every evil befalling the German nation and for this reason the Nazis were “justified” in plundering their wealth.
Having concluded alliances and merges with other reactionary groups – such as the German National Party of Hugenberg, a former administrator of Krupp who founded an empire of news agencies and UFA, the largest German cinema firm – the NSDAP attracted the interest of large monopolies: Krupp, Thyssen (metalworking), Kirdorf (minas) and his Reichsbank presided by Schacht.
1930. On the elections eve all the monopolies (including those initially unsympathetic towards the Nazis), the financial capital and the Junkers came to massively support the NSDAP [48]. They clearly understood that NSDAP anti-capitalism was a mere façade aimed at conquering the masses. Indeed, all the original petty bourgeois strata of NSDAP were to become the first economic victims of the Nazis. And later, war casualties.
1933. It is well-known how, after Hitler’s rise to power in 1933, a violent expansionist policy was carried out with the acceptance and economic collaboration of other capitalist powers [44-45] who did all they could to steer Nazi appetites against USSR. Such policy ended up in WWII as the communists had foreseen [49]. Internally a huge plundering of banks, firms and wealth of the Jews took place to produce rearmament - “Germany’s Jews were to be made to pay Germany’s war.” [50] - and later spread to the occupied countries.
   
Japan [51]
The Japanese monopolies came with the Meiji restoration, either of the state (as the National Central Bank of the imperial family) or private ones with intervention of the state. Some of the first and largest private monopolies were: Sumitomo (copper, coal, timber, banks), Mitsui (textiles, trade, chemicals, Mitsui Bank), Mitsubishi (navigation, naval construction, coal, blast furnaces, maritime insurances), Yasuda (Yasuda Bank, insurances), Furukawa (mines, electronics, chemicals), Fujita (armament), Nakajima (aeronautics).
The monopolies were linked to the military and to political parties, and had great influence in foreign affairs. Thus, the Mitsui group was attached to the conservative-liberal party Seiyūkai (1900), to state bureaucrats and the Imperial Aemy; the Mitsubishi group was attached to the Imperial Navy and to the liberal party Minseito, more moderate than Seiyūkai; and so on. In addition, the high noble families who had led the Meiji restoration dominated the armed forces. Thus, the Choshu family was dominant in the Army and the Satsuma family had great influence in the Navy. It is out of this intertwined net controlled by a military-monopolist clique, that Japanese fascism will be born.
1919. The territorial claims of Japan, an Entente ally, were not recognized by the Treaty of Versailles. Later treaties (1921-22) with GBR and USA impose relevant limitations to the Japanese naval construction. The clique feels frustrated in their imperial appetites. The frustration is magnified by economical difficulties (high inflation, crisis, famines) raising large popular protests. The clique searches a way out of difficulties through a policy of violent imperial aggression of China: it occupies Manchuria in 1931, a territory of Inner Mongolia in 1933 and resumes the invasion of China from Peking in 1937. [52]
Several nationalist groups had meanwhile been formed. They defended mixtures of neo-Confucianism, samurai ethics, the divine attributes of the emperor, the superiority of the Japanese people protected by the gods, the pan-Asiatic mission of Japan, etc. The Japanese army easily adopted such ideas and found an affinity between the “Prussian military spirit” and the “Japanese spirit”, which justified an alliance with the Nazis in the “fight against communism”. In its imperial thrust the Japanese invaded soviet territory on Mongolia border and intended to occupy the whole Siberia. It was however defeated by the red army [53] and withdrew.
The years 1926 throughout 1937 are marked by waves of political assassinations and terror on political parties and popular organizations. The clique is in a hurry to abandon parliamentarism establishing a fascist-styled State. The Minseito party wins the 1930 elections over the candidates of the military; these expel the Minseito and form a  Seiyukai, government further to the right. In 1936, in spite of repression, the Minseito wins again the elections, whereas the fascist party linked to the fascist faction kodoha (Imperial Way) of the army got 15% of the seats. The Minseito is swept by a wave of political assassinations and with the pretext of the terror the army intervenes and forms a government. In the 1937 elections the electorate expresses opposition to expansionism. The government of the clique then abolishes elections and forms a new government to be presided in 1940 by prince Konoe. This one installs a full-blown fascist government and founds a little later the single fascist party Association of Assistance to the Imperial Government.
There had been no need to build a mass fascist party from scratch. The fascist party already existed potentially: were the armed forces and the state bureaucracy occupied at all upper levels by the upper samurai strata allied to the noble oligarchs. They were, therefore, linked to the monopolies, with their imperialism and chauvinist views. The small fascist groups that existed for some time – e.g. the Black Dragon Society with the typical class composition of fascism – had mostly served to spread terror, cultivating in the masses at large the yearning for “order”.
    
Notas e Referências
   
[1] Karl Marx foi o primeiro a elucidar a origem do lucro (O Capital, vol. I), ainda hoje obscurecida na economia convencional e keynesiana. Ver [5]. Karl Marx was the first scholar to elucidate the origin of profit (Capital, vol. I), which to this day remains obscured in mainstream and Keynesian economics. See [5].
[2] Se o salário correspondesse ao valor criado pelo trabalho não haveria lucro, dado que a produção incorporaria (em termos médios num qualquer sector de produção) o valor exactamente correspondente  aos gastos em meios de produção e em salários. Este aspecto é discutido e demonstrado detalhadamente em O Capital, nomeadamente do Cap. IV ao VII. There would be no profit if wages represented the value created by labor, since output would then embody (in average terms in any given production sector) the value exactly corresponding to expenses in means of production and wages. This topic is discussed and demonstrated in detail in Capital, namely from ch. IV through VII.
[3] Karl Marx, O Capital, vol. I. O tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho médio para produzir uma mercadoria em determinadas condições sociais, entendendo-se por tal um conjunto de condições que variam com o desenvolvimento social, como a produtividade do trabalho e os requisitos de manutenção e reprodução da força de trabalho. Sobre este tema e outros relacionados recomendamos pelo seu rigor científico: Andrew Kliman. Reclaiming Marx’s Capital. A Refutation of the Myth of Inconsistency. Lexington Books, 2007.
Karl Marx, Capital, vol. I. The socially needed labor time is the average labor time needed to produce a commodity in given social conditions; that is, given a set of conditions which change with social development, such as labor productivity and the requirements of maintenance and reproduction of labor force. On this topic and other related ones we recommend for its scientific rigor: Andrew Kliman. Reclaiming Marx’s Capital. A Refutation of the Myth of Inconsistency. Lexington Books, 2007.
[4] Albert Szymanski, Is the Red Flag Flying? The political economy of the Soviet Union today, Zed Press, 1979.
[5] Mesmo os keynesianos de esquerda têm uma posição obscura acerca da definição de capital, que praticamente não se distingue da definição da economia convencional que vê o capital como mero «factor de produção». Assim, Steve Keen refere-se à definição de capital desta forma (Cap. 7 do livro Debunking Economics):
«[O capital] inclui máquinas e os edifícios onde estão instaladas; camiões, navios e aviões; poços de petróleo, aciarias e centrais eléctricas. Cada um destes objectos compõe-se de numerosas partes, que são também mercadorias. Um camião tem um motor, que tem válvulas, molas e cabos, cuja manufactura requer aportes de outros tipos de capital, etc. A única coisa que mercadorias tão diversas têm em comum é um preço, e esta é a forma como os economistas preferem agregar o capital. Mas o preço de uma peça de capital tem de depender da taxa de lucro, e a taxa de lucro varia quando os preços variam: um círculo vicioso neste método de agregação.»
É evidente que se os camiões, navios, aviões, etc., permanecerem quietinhos, sem ser usados num processo produtivo por meio do trabalho, não geram um átomo de capital. Quando a seguir diz que o valor (preço) do capital depende da taxa de lucro, Keen não contribui para o esclarecimento, antes oculta uma dificuldade recorrendo a outra e aumenta a confusão, já que não esclarece porque razão a existência de uma taxa de lucro (vinda de onde?) opera o milagre de transformar objectos inanimados – camiões, navios, aviões, etc. – em «peças de capital». A confusão é tanta que reconhece ter entrado num círculo vicioso. Em suma, mostra-se totalmente incapaz de definir capital. Keen ainda diz no fim do capítulo «a quantidade de capital (em termos do seu valor medido pelo valor do trabalho nele incorporado) depende da taxa de lucro», o que soa um pouco, mas mal, a Marx. Mal, porque o trabalho não tem valor, o que tem valor é a força de trabalho e ainda porque como é prática nos keynesianos troca o sentido da causalidade. Não é a «quantidade de capital» – de facto, a mais-valia – que provém da taxa de lucro, mas sim esta que provém da mais-valia.
Even the left Keynesians have an obscure position regarding the definition of capital, which practically is indistinguishable from the definition of mainstream economics, which sees capital as mere “factor of production”. Thus, Steve Keen refers to the definition of capital as follows (Ch. 7 of his book Debunking Economics):
“It [capital] includes machines and the buildings that house them; trucks, ships and planes; oil wells, steel works and power stations. Each of these items itself consists of numerous other sub-assemblies which are themselves commodities. A truck contains an engine, which contains valves, springs and cables, the manufacture of which requires inputs from other types of capital, and so on. The only thing that such disparate commodities obviously have in common is a price, and this is how economists would prefer to aggregate capital. But the price of a piece of capital should depend on the rate of profit, and the rate of profit will vary as prices change: there is an impossible circularity in this method of aggregation.”
It is obvious that if trucks, ships, planes, etc., stay still, without being used in a productive process by means of work, they will not generate a single atom of capital. When Keen afterward says that the value (price) of capital depends on the rate of profit, he makes no contribution toward a clarification, but rather cloaks a difficulty resorting to another one increasing the confusion, since he doesn’t clarify why the existence of a rate of profit (falling from where?) operates the miracle of transforming inanimate objects – trucks, ships, planes, etc. – into “pieces of capital”. The confusion is so much that he recognizes he ends up into a circularity. Briefly, he is completely unable to define capital. Keen still says at the end of the chapter “the quantity of capital (in terms of its value measured in embodied labor value) depends upon the rate of profit”, which sounds a bit but wrongly to Marx. Wrongly, because labor has no value, it is the labor force which indeed has a value, and also because as is customary in Keynesians he inverts the causality direction. It is not the “quantity of capital” – indeed, the surplus-value – that depends on the rate of profit, but this one that depends on the surplus-value.
[6] Dizemos «essencialmente» porque a produção de valores de troca tem de ter também em conta os valores de uso. Caso contrário, não se realizariam no mercado. Contudo, o móbil determinante do capitalista é o lucro, e as crises económicas periódicas demonstram como a produção de valores de troca infringe as necessidades sociais de valores de uso. We say “essentially” since the production of exchange values has also to take into account the use values. Otherwise, they wouldn’t be realized in the market. Nevertheless, the determinant capitalist motive is profit, and the periodical economic crises demonstrate how capitalist production of exchange values drastically infringes the social needs of use values.
[7] Lewis Corey, The Decline of American Capitalism, 1934. Marxists Internet Archive.
[8] A alternativa ao comércio é a venda da produção na própria fábrica; isso era (é) assim feito, pelo menos parcialmente, em certas indústrias. The alternative to trade is the selling of production at the factory; this was (is) done, at least partially, in certain industries.
[9] Historicamente, somente quando o capital do mercador e o do usurário se subordinam ao capital industrial e este assume o controlo da produção, se pode falar em MP capitalista. Historically, only when the merchant and the usurer capitals are subordinated to the industrial capital and this one assumes the control of production, one may speak of a capitalist MP.
[10] Socorremo-nos da seguinte obra como guia da exposição: Michel Beaud, Histoire du Capitalisme. De 1500 à nos jours. Éditions du Seuil, 1981. (Reedições posteriores.) We take as guide of our presentation: Michel Beaud, Histoire du Capitalisme. De 1500 à nos jours. Éditions du Seuil, 1981. (Subsequent reissues.)
[11] Citado em [10]. Quoted in [10].
[12] «Os ricos só recolhem do monte [de riqueza produzida] o que é mais precioso e agradável. Consomem pouco mais do que os pobres, e apesar da sua natural rapacidade e egoísmo, ainda que só tenham em conta a sua conveniência, e também que o único objectivo que se propõem obter dos milhares de trabalhadores que empregam seja a sua própria proa e desejos insaciáveis, dividem com os pobres o produto de todas as suas melhorias. São guiados por uma mão invisível a efectuar quase a mesma repartição do que é necessário à vida, que teria sido feita se a terra tivesse sido dividida em parcelas iguais pelos seus habitantes […] quanto à real felicidade da vida humana, eles [os pobres] não são de forma nenhuma inferiores aos que parecem estar tão acima deles. Em faculdades físicas e paz de espírito os vários estratos estão todos equiparados, e o mendigo a banhar-se ao sol à beira da estrada tem aquela segurança pela qual os reis têm de lutar.»
“The rich only select from the heap [of produced wealth] what is most precious and agreeable. They consume little more than the poor, and in spite of their natural selfishness and rapacity, though they mean only their own conveniency, though the sole end which they propose from the labours of all the thousands whom they employ, be the gratification of their own vain and insatiable desires, they divide with the poor the produce of all their improvements. They are led by an invisible hand to make nearly the same distribution of the necessaries of life, which would have been made, had the earth been divided into equal portions among all its inhabitants […] In what constitutes the real happiness of human life, they [the poor] are in no respect inferior to those who would seem so much above them. In ease of body and peace of mind, all the different ranks of life are nearly upon a level, and the beggar, who suns himself by the side of the highway, possesses that security which kings are fighting for.” Adam Smith, The Theory of Moral Sentiments, Part IV, Ch. I (1759). MIA.
[13] É de Thiers a seguinte lição moralizante ([10]): «O rico é por vezes benfeitor e deixa os seus palácios para visitar a choupana do pobre, enfrentando a sujidade horrenda, a doença contagiosa e, quando descobre esse novo prazer, apaixona-se por ele, saboreia-o e já não pode prescindir dele […] Suponde todas as fortunas iguais, suponde a supressão de toda a riqueza e de toda a miséria; já ninguém teria razão para dar algo […] teríeis suprimido a mais doce, a mais encantadora, a mais graciosa acção da Humanidade. Oh triste reformador, teríeis estragado a obra de Deus querendo retocá-la.»
The following moralizing is from Thiers ([10]]): “The rich man is sometimes a benefactor, who goes out of his palaces to visit the poor man’s hut, and has to face the horrid filth, the contagious disease and, when he discovers this new pleasure, he gets passionate of it, he savours it and can’t do without it […] Imagine all fortunes being equal, imagine the elimination of all wealth and  misery; no one would have a reason to give something […] you would have suppressed the sweetest, the most charming, the most graceful action of mankind. O sad reformer, you’d have spoiled God’s work though wanting to retouch it.”
[14] Adam Smith, Wealth of Nations, Book V, Ch. I, Part II: On the Expense of Justice, 1776, MIA.
[15] Ditto, Book I, Chapter X, Part II: Inequalities by the Policy of Europe.
[16] Ditto, Book IV, Chapter IX.
[17] Say é também famoso pela «lei de Say» ou «lei de Walras-Say» que afirma a igualdade entre produção e consumo. Lei que Marx mostrou estar errada setenta anos antes de Keynes fazer o mesmo usando essencialmente os argumentos de Marx sem o reconhecer (ver aqui). Say is also famous for the “law of Say” or “law of Walras-Say”, which states the equality between production and consumption. Marx showed this law to be wrong seventy years before Keynes did the same using essentially Marx’s arguments without acknowledging it (see here).
[18] Embora a 1.ª Constituição liberal portuguesa date de 1822, o MP feudal estava ainda pujante até ao fim do séc. XIX. Só a partir de 1867 o MP capitalista começa a crescer vindo a tornar-se o motor da economia com a República. Although the 1st liberal Portuguese Constitution dates from 1822, the feudal MP was still the dominant one until the end of the 19th century. The capitalist MP starts growing only after 1867 and becomes the driving motor of the economy with the Republic in 1910.
[19] Uma boa obra sobre o liberalismo em Portugal é a de Victor de Sá, A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestações das ideias socialistas em Portugal (1820-1852), Colecção Seara Nova, 1974 (2ª edição). Nela se assinala: a falta de vigor revolucionário dos liberais portugueses, menos influenciados pela Revolução Francesa e mais dispostos a entendimentos neocoloniais com a Inglaterra; o desprezo da burguesia pelo apoio popular; o seu objectivo em aliar-se à nobreza; a preocupação da alta burguesia em obter títulos de nobreza; o medo das mudanças que influíu na lentidão do desenvolvimento económico. Em 1850 a esmagadora maioria da população estava nos campos, onde imperava o domínio semifeudal da terra, com os camponeses sob encargos feudais que, apesar de suprimidos no papel em 1846, se prolongaram até ao século XX! A burguesia liberal portuguesa procurou viver das rendas fundiárias tal como a nobreza. A burguesia rural dispunha de trabalhadores agrícolas que viviam num estado de semi-escravidão. Os operários trabalhavam em condições artesanais como na Idade Média. A produção fabril só arrancou em 1867 com o aparecimento dos caminhos-de-ferro. Para a burguesia portuguesa e seus intelectuais, o povo eram os proprietários. Um deles, Silva Maia (1828), dizia que a burguesia era a «aristocracia da capacidade» e a plebe «que só sente e mal pensa» deveria manter-se «passiva e obediente» e nunca lhe permitirem «que tenha interferência em actos do Governo e que esteja armada». A ala direita da burguesia chegou a aliar-se aos monarquistas ultra-reaccionários de D. Miguel. A repressão terrorista anti-liberal durante a ditadura miguelista causou da ordem de 46.600 vítimas.
A good work on Portuguese liberalism is fom Victor de Sá, A Crise do Liberalismo e as primeiras manifestações das ideias socialistas em Portugal (1820-1852), Colecção Seara Nova, 1974 (2nd issue). It highlights: the lack of revolutionary energy of the Portuguese liberals, who were not much influenced by the French Revolution and were more prompt to neocolonial arrangements with England; the bourgeois despise of popular support; their striving to allying the nobility; the high bourgeoisie obsession to obtain nobility titles; the fear of changes, which influenced the slowness of the economic development. The overwhelming majority of the population lived in the countryside in 1850, where stood a semi-feudal control of the land, with peasants under feudal impositions which, though suppressed in paper in 1846, stayed on until the 20th century! The Portuguese liberal bourgeoisie strived to live from land rents as the nobility did. The rural bourgeoisie employed rural workers who lived in a semi-slave way. The workers worked in artisanal conditions as in the Middle Age. Factory production only took off in 1867 with the appearance of railways. To the Portuguese bourgeoisie and their intellectuals the people were only the propertied persons. One of them, Silva Maia (1828), said that the bourgeoisie was the “aristocracy of competence” and the plebs “who is only sentient and barely thinks” should be hold ”passive and obedient” and never be allowed “to have an interference in government acts and to be armed”. The right-wing bourgeoisie even allied to the ultra-reactionary monarchists of D. Miguel. The terrorist anti-liberal repression during the Miguelist dictatorship, caused about 46.600 casualties.
[20] Da Wikipedia: «[Depois da unificação o novo] o Império forneceu ricas e novas oportunidades de ascensão da nobreza prussiana e de outros estados. Dominaram o serviço diplomático, o exército, e os serviços públicos […] Através do controlo do serviços públicos a aristocracia tinha uma voz dominante nas decisões que afectavam as universidades e as igrejas. Em 1914, os diplomatas alemães consistiam em 8 príncipes 29 condes 20 barões 54 outros nobres e apenas 11 não nobres. Estes eram principalmente filhos de grandes industriais e banqueiros. […] A nova Constituição pôs os assuntos militares sob controlo directo do imperador e em grande parte fora do alcance do Reichstag. Com o seu grande corpo de oficiais de reserva em toda a Alemanha, os militares fortaleceram o seu papel como "O estado que suportava a nação."».
From Wikipedia: “[After unification the new] Empire provided rich new opportunities at the top for the nobility of Prussia, and the other states, to fill. They dominated the diplomatic service, the Army, and the civil service […] Through their control of the civil service, the aristocracy had a dominant voice in decisions affecting the universities and the churches. In 1914, Germany's diplomats consisted of 8 princes 29 counts 20 barons 54 other nobles, and a mere 11 commoners. The commoners were chiefly the sons of leading industrialists or bankers. […] The new Constitution put Military affairs under the direct control of the Emperor, and largely out of reach of the Reichstag. With its large corps of reserve officers across Germany, the military strengthened its role as "The estate which upheld the nation."»
[21] Como vimos anteriormente, a restauração Meiji envolveu uma ampla aliança de classes – nobres, samurais, burguesia, camponeses, artesãos, plebe urbana – e acabou com o feudalismo do xogun e daimios. Para além da História Universal, usámos a History of East Asia (já citadas), esta com informação de interesse mas redacção fraca. As seen before, the Meiji restoration involved a large class alliance – noblemen, samurai, bourgeoisie, peasantry, craftsmen, urban plebs – which put an end to the shogun-daimyo feudalism. See História Universal, and History of East Asia (already cited), the latter has interesting information but is poorly written.
[22] A premissa central da Constituição de 1890 era a de que a democracia parlamentar teria de ser controlada de forma a não «perturbar a ordem política e social». The central premise of the 1890 Constitution was that parliamentary democracy should be controlled otherwise it would disrupt the social and political order.
[23] O Estado vendeu a privados antigas fábricas nacionais de produção de seda, de ferro, de construção de barcos, etc. The State sold to private people old national factories of silk, iron, boat construction, etc.
[24] As tropas versalhesas mergulharam Paris num banho de sangue e fogo. O ódio dos privilegiados contra a audácia dos oprimidos teve rédea solta. As execuções sumárias de homens, mulheres e crianças eram diárias. Um cortejo de mais de 43 mil prisioneiros, trabalhadores e revolucionários franceses e estrangeiros foram conduzidos para um campo de concentração em Satory. No percurso, homens e mulheres ricas injuriavam os prisioneiros e batiam neles à vontade. No campo, muitos morreram por falta de cuidados médicos e epidemias devido à falta de higiene. 300 prisioneiros foram abatidos. Muitos prisioneiros foram fuzilados no famoso muro dos federados no cemitério de Père-Lachaise, onde existe um monumento ainda hoje homenageado por todos os progressistas que passam no local. Marx e Lenine analisaram detalhadamente a Comuna de Paris em vários trabalhos. Uma obra importante, escrita por um participante da Comuna, é: Prosper-Olivier Lissagaray, História da Comuna de 1871, Edições Dinossauro, 1995.
The troops from Versailles drowned Paris in a bath of blood and fire. The hatred of the privileged towards the audacity of the oppressed was given free rein. The summary execution of men, women and children ran daily. A procession of over 43 thousand prisoners, workers and French and foreign revolutionaries, was conducted to a concentration camp in Satory. On the route, rich men and women freely vilified and beat down the prisoners. A lot of people died in the camp due to the lack of medical care, epidemics, and no sanitation. Many prisoners were shot down at the famous wall of the federated in the Père-Lachaise cemetery, where a monument stands and is until today revered by all passing by progressives. Marx and Lenin analyzed the Paris Commune in detail in several works. An important work written by a participant in the Commune is: Prosper Olivier Lissagaray, History of the Paris Commune of 1871.
[25] Godwin denunciou a desigualdade social, p. ex., no seguinte texto: «Se, tendo a desigualdade [de riqueza] sido assim introduzida, os membros mais pobres da sociedade são, ou bastante depravados para querer, ou numa situação tão infeliz que são obrigados a tornar-se servos assalariados ou operários do seu vizinho mais rico, isso provavelmente não será um mal a ser corrigido pela intervenção do governo. Mas, quando chegamos a este ponto, será difícil estabelecer limites à extensão da acumulação num homem, e à pobreza e infortúnio em outro.» Contudo, neste e noutros textos, Godwin não admite medidas contra a riqueza nem o movimento revolucionário dos «pobres».
Godwin denounced social inequality, e.g., in the following text: “If, inequality being thus introduced, the poorer member of the community shall be so depraved as to be willing, or so unfortunately circumstanced as to be driven, to make himself the hired servant or labourer of his richer neighbour, this probably is not an evil to be corrected by the interposition of government. But, when we have gained this step, it will be difficult to set bounds to the extent of accumulation in one man, or of poverty and wretchedness in another.” William Godwin (1793), Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on Morals and Happiness, Book VIII, Of Property, Ch. II Principles Of Property.
[26] De F. W. Taylor, um operário que uma vez promovido a capataz se aliou ao patronato. After F. W. Taylor, a worker who once promoted to foreman allied himself to the employers.
[27] Um tribunal francês decidiu em 1907 que o empregador não era obrigado a reempregar grevistas: «Dado que o operário que se coloca em greve impossibilita, pelo seu acto voluntário, a continuação do cumprimento do contrato de trabalho que o ligava ao seu patrão; que esse acto, embora não lhe seja interdito pela lei penal, não deixa de constituir da sua parte, quaisquer que tenham sido os motivos a que obedeceu, uma ruptura qualificada do dito contrato…» A French court decided in 1907 that an employer wasn’t obliged to take back a striker: “Considering that the worker who places himself on strike makes it impossible, by virtue of his voluntary act, the continuation of the complying to the work contract who bound him to his employer; that such an act, though the penal law does not forbid it, constitutes nevertheless from his side, and independently of whatever motives he obeyed to, a qualified breach of the said contract …»
[28] Entrevista de Henri Schneider, ministro francês e administrador de uma companhia de caminhos-de-ferro, em 1897 (citado em [10]): «A intervenção do Estado nos problemas dos operários, muito mau, muito mau… É como a regulamentação do trabalho das mulheres, das crianças… Colocam-se entraves inúteis, muito estreitos. Quanto à jornada de 8 horas é também disparate… Para mim, a verdade é que um operário saudável pode bem fazer dez horas e devemos deixá-lo livre de trabalhar ainda mais se isso lhe dá prazer». Interview of Henri Schneider, French minister and director of a railway company, in 1897 (quoted in [10]: “The State intervention in workers affairs, very bad, very bad … It’s like the work regulation of women and children … Very strict and useless hindrances are put in place. It is like the eight-hour working day, it’s also a nonsense … For me, the truth is a healthy worker can well do ten hours and we must let him free to even work further hours if that is to his pleasure.”
[29] Até 1873 quase todas as indústrias e bancos tinham menos de 5000 trabalhadores. Isto modificou-se a partir de 1873. Nos EUA, em 1911, os sete trusts mais importantes controlavam 1638 companhias da produção do aço (United Steel Corporation de JP Morgan, EH Gary, Carnegie), do petróleo (Standard Oil de JD Rockefeller), da electricidade (GE), e dos caminhos-de-ferro (Vanderbilt). Na Alemanha constituem-se grandes grupos de que se destacam: o império Krupp (aço, armamento) com 78.000 trabalhadores em 1913; AEG na electricidade, que em 1911 agrupa várias corporações e tem 60.000 assalariados, cooperando com a Siemens e a GE dos EUA.
Until 1873 almost all industries and banks had less than 5000 workers. This changed after 1873. In 1911, the seven most important USA trusts controlled 1638 companies of steel production (United Steel Corporation de JP Morgan, EH Gary, Carnegie), oil (Standard Oil de JD Rockefeller), electricity (GE), and railways (Vanderbilt). Large groups are constituted in Germany, namely: the Krupp empire (steel, armament) with 78,000 workers in 1913; AEG in electricity, which in 1911 merges several corporations and has 60,000 workers, and co-operates with Siemens and the USA GE.
[30] Nos EUA formam-se dois impérios financeiros: o First National Bank de Morgan (GE, Vanderbilt); o National City Bank de Rockefeller (petróleo, tabaco, Ice trust). Na Alemanha formam-se três grandes bancos ao serviço dos trusts: Deutsche Bank (absorveu 49 bancos), Dresdner Bank (absorveu 46 bancos) e o Diskonto Bank (absorveu 28 bancos). Two financial empires are formed in USA: the First National Bank of Morgan (GE, Vanderbilt); the National City Bank of Rockefeller (oil, tobacco, Ice trust). In Germany, three large banks are formed serving the trusts: Deutsche Bank (absorbed 49 banks), Dresdner Bank (absorbed 46 banks) and the Diskonto Bank (absorbed 28 banks).
[31] Possessões territoriais adquiridas no período 1876-1914. Territorial possessions acquired during the period 1876-1914. Source: http://www.worldstatesmen.org/COLONIES.html
UK: Baluchistan (1877), Cyprus (1878), Bahrain (1880), Papua (1883), British Somaliland (1884), Botswana (1885), Burma (1885), N. Nigeria (1885), Vanuatu (1887), Brunei (1888), Cook Islands (1888), Sarawak (1888), Kenya (1888), Rhodesia (1888), Uganda (1890), Zanzibar (1890), Tuvalu (1892), Kiribati (1892), Solomon Islands (1893), Swaziland (1893), Sudan (1898), Kuwait (1899), Malawi (1889), Australia (1900), Tonga (1900), South Africa (1910), Syria (1914).
FRA: Egypt (condominium with UK) (1876), French Polynesia (1880), Tunisia (protectorate) (1881), Benin (1883), Mali (1883), French Indochina (1887), Niger (1890), Guinea (1891), Upper Volta (1896), Madagascar (1896), Chad (1900), Mauritania (1902), Oubangui-Chari  (1905), Morocco (protectorate) (1912), New concessions in China (1898).
DEU : Togo (1884), Namibia (1884), New Guinea (1884), Cameroon (1884), Tanzania (1885), Marshall Islands (1885), Kiaochow Concession, China (1897), Caroline Islands (1899), Mariana Islands (1899), Palau (1899), Burundi (1890), Heligoland (1890), Rwanda (1890), Tientsin Concession, China (1895).
USA: Guam (1898), Philippines (1898), Puerto Rico (1898), Hawaii (1899), Cuba (1899), Samoa (1900), Dominican Rep. (1903), Panama Canal (1903), Haiti (1914).
JPN: Kwantung, China (1894) Weihaiwei, China (1895), Tientsin Concession, China (1895), Taiwan, China (1895), South Manchurian Railway Zone, China (1905), Korea (1910),  Kiaochow, China (1914). Islands: Ryukyu (1872), Kuril (1875), Bonin (1876), Volcano (1891), Southern Sakhalin (1905). Marshall (1914), Caroline (1914), Northern Mariana (1914), Palau (1914).
[32] V. I. Lenine, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, publicado em Junho de 1916, em plena 1ªGM. (Tomo 2 das Obras Escolhidas em seis tomos, de V. I. Lénine, Editorial «Avante!»,1984.) Os primeiros estudiosos a analisar o imperialismo foram Hobson e Hilferding. As suas obras foram tidas em conta por Lenine, que juntou as suas próprias observações e análises económicas e políticas. V. I. Lenin, Imperialism, The Highest Stage of Capitalism, published July 216 in full WWI. MIA. The first scholars to study imperialism were Hobson and Hilferding. Their works were taken into account by Lenin, who added his own economic and political observations.
[33] A doutrina Monroe (do presidente James Monroe. EUA, 1823) opunha-se à interferência da Europa na América. A doutrina passou a justificar o papel de big brother dos EUA na América, com o direito de intervir na América Latina. O «corolário Roosevelt» de 1904 «legitimou» esse papel ao afirmar o direito dos EUA de intervir na América Latina em casos de «má conduta flagrante e crónica por parte de uma nação da América Latina». A «má conduta» passou a ser tudo que se opunha aos interesses do imperialismo EUA. Monroe’s doctrine (from US president James Monroe, 1823) opposed European interference in the American continent. The doctrine became a justification for the big brother role of USA in America, with the right to intervene in Latin America. “Roosevelt’s corollary” of 1904 “legitimized” that role by affirming the right of USA to intervene in Latin America in case of “flagrant and chronic wrongdoing by a Latin American Nation”. The “wrongdoing” became everything opposing the interests of the US imperialism.
[34] Um exemplo é uma declaração de Cecil Rhodes citada por Lénine (Imperialismo…): «Ontem estive no East-End londrino (bairro operário) e assisti a uma assembleia de desempregados. Ao ouvir ali discursos exaltados cuja nota dominante era: pão!, pão!, e ao reflectir, de regresso a casa, sobre o que tinha ouvido, convenci-me, mais do que nunca, da importância do imperialismo... A ideia que acalento representa a solução do problema social: para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra civil, nós, os políticos coloniais, devemos apoderar-nos de novos territórios; para eles enviaremos o excedente de população e neles encontraremos novos mercados para os produtos das nossas fábricas e das nossas minas. O império, sempre o tenho dito, é uma questão de estômago. Se quereis evitar a guerra civil, deveis tornar-vos imperialistas.»
An example is a declaration of Cecil Rhodes quoted by Lenin (Imperialism…): “I was in the East End of London (a working-class quarter) yesterday and attended a meeting of the unemployed. I listened to the wild speeches, which were just a cry for ‘bread! bread!’ and on my way home I pondered over the scene and I became more than ever convinced of the importance of imperialism.... My cherished idea is a solution for the social problem, i.e., in order to save the 40,000,000 inhabitants of the United Kingdom from a bloody civil war, we colonial statesmen must acquire new lands to settle the surplus population, to provide new markets for the goods produced in the factories and mines. The Empire, as I have always said, is a bread and butter question. If you want to avoid civil war, you must become imperialists.”
[35] Um exemplo provém do livro do economista francês P. Leroy-Beaulieu, citado em [10]: «A colonização é a força expansiva de um povo, é o seu poder reprodutivo, é a sua dilatação e multiplicação através dos espaços; é a submissão do Universo, ou de uma vasta parte dele, à sua língua, às suas ideias, às suas leis. […] É impossível não considerar [a colonização] como uma das tarefas que se impõem aos Estados civilizados. […] Não é natural nem justo que os ocidentais civilizados se amontoem indefinidamente e sufoquem nos seus espaços restritos […] que vejam, por falta de aplicação remuneradora no seu país, a taxa de lucro dos capitais a baixar cada dia que passa, e que deixem talvez metade do mundo entregue a pequenos grupos de homens ignorantes, impotentes, verdadeiras crianças débeis, espalhados por áreas incomensuráveis [...].»
An example comes from a book of the French economist P. Leroy-Beaulieu, quoted in [10]: “Colonization is the expansionist force of a people, its reproductive power, its dilation and multiplication throughout spaces; it is the submission of Universe or of a part of it to its language, its ideas, its laws […] It is impossible not to consider [colonization] as one of the tasks incumbent to civilized States. […] It is neither natural nor fair that the civilized westerners are indefinitely packed up and suffocating in tight spaces […] that they see, by lack of a remunerating application in their country, the rate of profit of capitals decreasing day by day, and that they leave maybe half of the world submitted to small groups of ignorant and impotent men, real frail children spread over immeasurable areas […].”
[36] Dados da Itália | Data on Italy: D. H. Aldocroft, From Versailles to Wall Street 1919-1929, Univ. Cal. Press, 1981. Dados do Japão | Data on Japan: http://www.grips.ac.jp/teacher/oono/hp/lecture_J/lec07.htm ]
[37] Em 1929 em Detroit em cada 100 famílias operárias 98 possuem um ferro eléctrico, 76 uma máquina de coser, 51 uma máquina de lavar, 47 um automóvel, 36 um rádio e 21 um aspirador. In Detroit, 1929, out of each 100 working families 98 own an electric iron, 76 a sowing machine, 51 a washing machine, 47 a car, 36 a radio, and 21 a vacuum-cleaner.
[38] Contradições do capitalismo: excesso de produção sobre o consumo, com stocks por vender que tendem a aumentar próximo da crise e durante ela; a baixa de preços e vendas ao desbarato quando os stocks aumentam, o que agrava a baixa da taxa de lucro; excesso de capacidade produtiva superior às necessidades de consumo, com taxa de utilização do equipamento instalado geralmente bastante inferior a 100% e que diminui fortemente com o início da crise. Note-se que, ao contrário dos custos do trabalho que são variáveis (o capitalista pode baixá-los durante a crise), os custos de equipamento são fixos e mesmo o equipamento não utilizado tem custos de manutenção. Nem todas as indústrias têm queda de taxa de lucro durante uma crise. Em 1930 houve indústrias inovadoras que tiveram subida de lucro. Assim, as indústrias de ferro e aço tiveram subida média de 0,1% e as de automóveis de 22,5%. Já as indústrias mais tradicionais tiveram quedas: 1% nos acessórios de automóveis, 10,5% nas confecções e têxteis e 48,6% nas minas de carvão. [7]
Contradictions of capitalism: excess of production output over consumption, with unsold stocks tending to rise near and during the crisis; price lowering with sales at unprofitable prices when the stocks are high, aggravating the fall of the rate of profit; excess of productive capacity in relation to consumption needs, with an utilization rate of installed equipment usually quite below 100% and which sharply decreases with the crisis onset. Note that whereas labor costs are variable (the capitalist may lower them during the crisis), equipment costs are fixed and even the unused equipment has maintenance costs. Not all industries have a falling rate of profit during a crisis. There were innovating industries in the 1930 USA crisis which had a profit rise. Thus, the iron and steel industries had an average yearly rise of 0.1% and the car industries 22.5%. The more traditional industries had falls: 1% in automobile accessories, 10.5% in clothing and textiles and 48.6% in coal mining. [7]
[39] Não existem os dados necessários para o cálculo da taxa de lucro marxiana em todo o período considerado. Usamos, por isso, a taxa de lucro calculada como o agregado de lucros líquidos das empresas (sem impostos) a dividir pelo agregado do capital total. Obtivemos os dados do lucro líquido do NBER; os do capital total são de [7] (Tabela IV do cap. VIII) com estimação do valor para 1932 baseada nas variações dos activos operacionais disponíveis no NBER. Os dados do lucro líquido do NBER são próximos dos disponíveis em [7]. Os dados do capital fixo (terrenos, edifícios, equipmentos) usam o valor de [7] para 1923 e os dados das variações do capital fixo do NBER. Os dados de salários são de [7] (Tabela 1 do cap. IV e informação do cap. V).
The data needed for the computation of the Marxian rate of profit for the whole 1923-32 period is unavailable. We therefore used the rate of profit computed as the aggregate of net profits (without taxes) of the enterprises, divided by the aggregate of total capital. The net profit data are from NBER; the data on total capital are from [7] (ch. VIII, Table IV) with estimation of the 1932 value based on the changes in operating assets made available by NBER. The data on net profits of NBER are close to those made available in [7]. The data on fixed capital (land estates, buildings, equipments) use the vale of [7] for 1923 and the data on changes in fixed assets made available by NBER. The data on wages are from [7] (ch. V Table 1 and text information).
[40] Um estudo de referência sobre o fascismo continua a ser: Georgi Dimitrov, The Fascist Offensive and the Tasks of the Communist International in the Struggle of the Working Class against Fascism, Main Report delivered at the Seventh World Congress of the Communist International, August 2, 1935. Ver também o cap. XXIV de [7]. A work of reference on fascism is still: Georgi Dimitrov, The Fascist Offensive and the Tasks of the Communist International in the Struggle of the Working Class against Fascism, Main Report delivered at the Seventh World Congress of the Communist International, August 2, 1935. See also chapter XXIV of [7].
[41] A IBM, Ford, Nestlé, GE, são alguns de muitos exemplos de grandes multinacionais que colaboraram com o fascismo. O caso da IBM é de vulto: a sua sucursal alemã, de boas relações com altos dignitários nazis, vendeu à Alemanha milhares de classificadoras de cartões perfurados Hollerith que, entre outras coisas, montaram a base de dados da perseguição político-racial e para gerir o trabalho escravo dos presos dos campos de concentração (o número tatuado no braço era usado nos cartões perfurados). Isto até Dezembro de 1941 quando no Ocidente já se conheciam bem estas questões. O patrão americano da IBM, altamente apreciado pela administração dos EUA, conhecia as aplicações das suas máquinas na Alemanha e recebeu uma condecoração de Hitler pelos altos serviços prestados. Depois da declaração de guerra dos EUA a IBM ainda continuou a colaborar com os nazis durante algum tempo. Ver: Edwin Black, IBM e o Holocausto, Campus, 2001.
IBM, Ford, Nestle, and GE, are a few of many examples of large multinationals which collaborated with fascism. The case of IBM stands out: its German branch, in good relations with high Nazi dignitaries, sold to Germany thousands of punched-card Hollerith classifiers which, among other things, were to build up the databases needed for the politico-racial persecution and to manage the slave work of the concentration camps inmates (the number tattooed in the arm was used in the punched cards). This went on until December 1941, when the West already knew pretty well these issues. The American boss of IBM, highly appraised by the USA administration, knew of the application of his machines in Germany and received a decoration from Hitler by relevant services. After the declaration of war by USA, IBM still continued to collaborate with the Nazis for a while. See: Edwin Black, IBM and the Holocaust, Dialog Press, 2001.
[42] O «não-intervencionismo» da Inglaterra e França na Guerra Civil de Espanha dando cobertura ao apoio dos fascistas italianos e alemães a Franco, a ocupação consentida de Memel e da margem direita do Ruhr pelos nazis, e da Manchúria e Kwangtung pelos japoneses, são alguns de inúmeros exemplos. A few of many examples are: the “non-interventionism” of England and France in the Spanish Civil War, in fact allowing the unimpeded support of Italian and German fascisms to Franco; the consented occupation of Memel and of the right margin of the Ruhr by the Nazis; the occupation of Manchuria and Kwangtung by the Japanese.
[43] A invasão da Etiópia pelos italianos, a entrega da Checoslováquia aos alemães no seguimento do ignóbil Tratado de Munique, a concessão de armamento ilimitado ao Japão e, mais tarde, o consentimento da contínua invasão japonesa da China mesmo depois do relatório Lytton à SDN, são alguns de inúmeros exemplos. A few of many examples are: the invasion of Ethiopia by the Italians; the handover of Czechoslovakia to the German as a sequel of the outrageous Treaty of Munich; the concession of unrestricted armament to Japan and later the consent to the uninterrupted Japanese invasion of China, even after the Lytton report to the LN.
[44] Japan in the Fascist Era, Ed. by E. Bruce Reynolds, Palgrave Macmillan, 2004.
[45] D. Melnikov, L. Tchernaia, O Criminoso Nº 1. O Regime Nazi e o seu Führer, Edições Avante!, 1985.
[46] Pierre Milza, Les Fascismes, Ed. du Seuil, 1991. Livro para ler com cuidado. O autor tem uma visão burguesa, mas tem também honestidade.
[47] Alfred Sohn-Rethel, The Economy and Class Structure of German Fascism, Free Association Books, 1987. Arkadi Erousalimski, L’Impérialisme Allemand. Passé et Présent, Éditions du Progrès, 1970.
[48] Entre os apoiantes, figuravam: I.G. Farben (química), Siemens (electricidade  electrónica), Röhren und Eisenwalzwerke (metalurgia), Deutscher Eisenhandel (aço), Hoesch (siderurgia, minas, carvão), Allianz und Stuttgarter Vereins Versicherung (seguros), CommerzbankMerck, Fink Bank, Dresdner Bank, Daimler-Benz (transportes) Vereinigte Stahlwerke (aço);  Wintershall (petróleo); HAPAG (transportes transatlânticos); J.H. Stein Bank. Among the supporters were: I.G. Farben (chemicals), Siemens (electricity  electronics), Röhren und Eisenwalzwerke (metalworking), Deutscher Eisenhandel (steel), Hoesch (metalworking, mines, coal), Allianz und Stuttgarter Vereins Versicherung (insurances), CommerzbankMerck, Fink Bank, Dresdner Bank, Daimler-Benz (transports) Vereinigte Stahlwerke (steel);  Wintershall (oil); HAPAG (transatlantic transports); J.H. Stein Bank.
[49] Declaração de 1935 do 7.º Congresso da Internacional Comunista. Ver: G Dimitrof, Fascism is War, 1936, IMA. Já em 1933 o Partido Comunista Alemão tinha dito «Hitler é a Guerra». Declaration of the 7th Congress of the Communist International, 1935. See: G Dimitrof, Fascism is War, 1936, IMA. Already in 1933 the German Communist Party had told “Hitler is War”.
[50] Em 1938 o PNB alemão foi de  46 mil milhões de USD = 114,5 mil milhões RM (Reich Mark). Nesse mesmo ano os bens saqueáveis dos judeus foram estimados 8,4 mil milhões de RM, ou seja 7,3% do PNB alemão. Para termos uma ideia do que isto representa basta ter em conta que as despesas militares actuais dos EUA (uma das maiores do mundo em termos de PIB)  são de 3,9 % do PIB.
The GNP of Germany in 1938 was 46 billion USD = 114.5 billion RM (Reich Mark). In that same year the total wealth of the Jews to be plundered was estimated as 8.4 billion RM, that is 7.3% of the GNP. To get an idea what this means it’s enough to consider the military expenditure of US in 2016 (one of the world largest in GDP%): 3.9% of GDP. Ver | See: Harold James, The Deutsche Bank and the Nazi Economic War against the Jews, Cambridge Univ. Press, 2001. Also: http://forum.axishistory.com/viewtopic.php?t=191325 , https://measuringworth.com/datasets/exchangeglobal/result.php
[51] Wikipedia (Empire of Japan (internal politics 1914–44), Statism in Shōwa Japan, Zaibatsu, and other articles to be read with caution). Ben-Ami Shillony, Revolt in Japan: The Young Officers and the February 26, 1936 Incident, Princeton Univ. Press, 1973. S. Goliakov
V. Ponizovsky, Sorge o Espião que veio de Moscovo, Ed. Inova, 1969. Rise of Fascism in Japan, http://mrvictortanhistoryclass.wikispaces.com/Fascist+Japan. History of East Asia, op. cit.

[52] A guerra e ocupações japonesas da China  foram da máxima brutalidade, constituindo o que é conhecido como holocausto chinês: prisioneiros enterrados vivos, decepados, violações constantes, massacres, etc. O imperador autorizou o uso de gases tóxicos contra prisioneiros de guerra. Tal uso foi condenado pela SDN pelo que o Japão a abandonou. The Japanese war and occupations of China were carried with the highest brutality, constituting what is known as the Chinese holocaust: prisoners buried alive, mutilated, constant rapes, massacres, etc. The emperor authorized the use of toxic gases against prisoners of war. The LN condemned Japan for such use; in response Japan abandoned LN.

[53] Batalhas no rio Amur em 1937, no lago Kasan em1938, e em Khalkhyn Gol em 1939. Battles at the river Amur in 1937, at lake Kasan in1938, and at Khalkhyn Gol in 1939.